Crônica de uma tragédia anunciada

(…) Cubatão ficava na base de um maciço que experimentava talvez a mais alta precipitação pluvial do Brasil. Mesmo os recessos mais interiores da Floresta Amazônica não conseguem igualar os quase 4500 milímetros de precipitação média anual, que em anos muito úmidos se elevam a 5500 milímetros, registrados em Itapanhaú, bem acima de Cubatão. Mesmo nos meses mais secos de inverno, há uma precipitação mínima de duzentos milímetros e, nos meses de verão, podem cair até 200 milímetros ou mais em um único dia. A umidade relativa no vale raramente é menor do que 50% e pode ficar em 100% durante semanas. Durante muitos meses, o paredão rochoso fica constantemente tragado pela névoa. Na verdade, a vegetação do alto da serra, enraizada em um solo fino e empobrecido, retira parte dos seus nutrientes dessa umidade.

(…)

Em fevereiro de 1967, ocorrera um terrível deslizamento em Caraguatatuba, a cerca de 150 quilômetros a leste de Santos. Dias de chuva mansas e constantes haviam empapado os solos da floresta, sobrecarregando-as com milhares de peso extra. A seguir vieram dois dias de chuvas torrenciais incessantes, superando a marca de 220 milímetros por dia. Aproximadamente 250 toneladas de rocha e terra foram deslocadas, danificando uma usina hidrelétrica e matando cerca de cem pessoas. Não se tratava de um fenômeno inteiramente natural – pequenos produtores haviam derrubado parte das encostas para plantas bananeiras, uma planta de raízes rasas.

Em Cubatão, havia ameaças de desastres ainda maiores. (…) Em 1975, 750 moradores perderam suas casas, redes de água foram cortadas e três torres de transmissão desabaram, paralisando o abastecimento. No ano seguinte, uma semana de chuvas constantes provocou deslizamentos, juntamente com enchentes generalizadas. Dessa vez, 18 mil pessoas ficaram desabrigadas e pelo menos uma morreu. Embora no vale nenhuma associação fosse feita entre tais eventos e a degradação da vegetação, os botânicos observavam sinais preocupantes de colapso. (…) No fim de 1980, a imprensa publicava a denúncia de um botânico da Universidade de São Paulo sobre a situação crítica do alto da serra. As repartições estaduais ferroviária e rodoviária, já bastante cientes de que a vegetação moribunda era generalizada, tentavam tranquilamente proteger de deslizamentos o leito de suas vias – infelizmente, estavam cobrindo talhos e buracos com piche, tornando as encostas ainda menos permeáveis.

Os órgãos estaduais e federais procuraram ignorar o problema. (…) O governador culpava os favelados (…) O legislativo estadual, só com muito atraso, constituiu uma comissão de inquérito e, então, apresentou sua furiosa recomendação de que a Cetesb fosse extinta e de que se criasse uma verdadeira agência ambiental.

(…) [Em 1985] após uma semana de chuvas pesadas mas não anormais, o parque industrial e as favelas de Cubatão foram assolados por enchentes e deslizamentos de lama. Dessa vez, 4 mil moradores perderam suas casas. Mais a montante do rio Mogi, as vias férreas foram cortadas em diversos pontos, obstruindo o tráfego durante 22 dias e com um prejuízo de mais de 3 milhões de dólares. Ainda pior é que a enchente fez com que uma tubulação pressurizada de amônia se rompesse, liberando quase quarenta toneladas do produto químico altamente tóxico. Foi o maior vazamento de amônia ocorrido em quinze anos de monitoração em nível mundial. Foram evacuadas da área 6 mil pessoas; 65 delas foram hospitalizadas. Um representante da Ultrafértil, proprietária da tubulação, culpou as chuvas pelo acidente e filosofou: “Riscos existem em qualquer atividade industrial”.

(…) A perspectiva de vazamentos de gases ainda mais perigosos, tais como o cloro e o benzeno (sic), ou de explosões de hidrogênio ou de gás liquefeito de petróleo, foi reativada, algumas semanas depois, quando um deslizamento rasgou uma seção da rodovia litorânea em Angra dos Reis, chegando a cerca de oitocentos metros da usina nuclear.

Warren Dean, A Ferro e Fogo – A História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira, Companhia das Letras, 1ª edição (1995), 7ª reimpressão (2010), páginas 339-342.

Infelizmente não há absolutamente nada de novo nesta nova incomensurável tragédia das cidades da região serrana do estado fluminense.

Com a palavra, o poder público do estado do Rio de Janeiro.

Atualização em 13/1/2010: a opinião do jornalista Gilberto Dimenstein (Folha de S. Paulo) não é muito diferente da expressa acima. Veja aqui.



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2 respostas

  1. Avatar de José Fernando P. dos Santos

    Vou um pouco mais longe, a maioria de nós nem sabe onde fica a saida de emergencia do local onde trabalha, do hotel onde se hospeda, qual a rota mais rapida e segura para se sair de algum local… não olha como vai ficar o tempo … Não observa a validade do extintor do carro, não possui extintor em casa, nunca conversou com a familia sobre rota de fuga, ponto de encontro… Obviamente se nossos governentes são campeões de maus exemplos, nada mais são que um reflexo dos que os elegeram…
    Por essa e outras que eu afirmo: EDUCAÇÃO plena do individuo… o resto ele faz sózinho…

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