Contraponto a Nicolelis

Em 9 de janeiro deste ano, o Dr. Miguel Nicolelis, professor da Duke University (Durham, North Carolina, EUA) concedeu entrevista ao jornalista Alexandre Gonçalves do jornal O Estado de São Paulo. As colocações do Professor Nicolelis causaram agitação na internet e no meio acadêmico. Inúmeros sites e blogs da internet reproduziram a entrevista de Nicolelis. Poucos, porém, se dignaram a fazer uma análise das colocações de Nicolelis, tanto globalmente como em aspectos mais específicos.

Ao manifestar que a política científica brasileira, principalmente a gestão científica do Brasil, está ultrapassada, Nicolelis não diz porque. E sim, confunde gestão científica com o modelo administrativo das universidades (públicas?) brasileiras. Este sim, ultrapassado. Dizer que simplesmente não existe suporte administrativo profissional é criticar os funcionários que trabalham nas universidades, nas condições disponíveis, muitas vezes com salários muito abaixo do valor de mercado para uma função equivalente. As generalizações de Nicolelis são muito questionáveis porque as diferentes universidades federais brasileiras são diferentes. E algumas têm condições administrativas  melhores do que outras. Algumas são muito recentes, outras são instituições de ensino superior muito bem consolidadas, com condições de trabalho razoavelmente boas.

O fato de pesquisadores se tornarem “administradores” de órgãos de fomento é uma questão de escolha pessoal. Muito bem vinda, aliás, pois é difícil crer que um “administrador profissional”, ou um burocrata, terá a vivência e a experiência necessárias para “administrar” órgãos de fomento conhecendo o universo acadêmico, como é desejável. Muitas vezes estes “administradores acadêmicos” adquiriram longa experiência de administração, gerenciando grandes grupos de pesquisa e grupos de trabalho, já foram reitores ou pró-reitores, exerceram cargos políticos e tiveram uma atuação político-científica extremamente pró-ativa. Desta forma, Nicolelis afirmar que um acadêmico se tornar um “administrador” em um órgão de fomento é “uma tragédia”, que “não tem formação para administrar nada”, “Nem a casa deles”, “Não temos quadros de gestores”, são afirmações vagas e desprovidas de fundamento. Mesmo porque Nicolelis não as justifica.

O mais grave, porém, é Nicolelis afirmar que “A gente gasta muito dinheiro e presta muita atenção em besteira e não investe naquilo que é fundamental.” Como supõe-se que, ao mencionar “A gente” Nicolelis esteja se referindo aos “administradores” das agências de fomento, mas não a ele próprio, resta saber ao que Nicolelis se refere como sendo “besteira” e o que é “fundamental”.

O financiamento da pesquisa no Brasil está fortemente direcionado às universidades públicas (na sua maioria) por razões históricas. Como dito no artigo publicado na Science a que Nicolelis se refere mais adiante na sua entrevista, durante a época da ditadura militar se preconizava no meio acadêmico que as empresas estavam do lado do governo. Como as universidades sofreram com intervenções e perseguições de seus quadros acadêmicos e administrativos durante os anos de chumbo, estabeleceu-se um estereótipo que ao interagir com empresas o pesquisador acadêmico estava “se vendendo ao sistema”. Felizmente esta maneira de encarar as parcerias universidade-indústria está mudando, ainda que menos rapidamente do que o desejado, como pode ser verificado, por exemplo, nas páginas do CNPq e da FAPESP, pelo número de linhas de financiamento de projetos de empresas, ou de interação universidade-empresa, ao longo da última década. Da mesma forma, existe financiamento a vários centros de pesquisa, talvez insuficientes em número, como a EMBRAPA, a FIOCRUZ, o Instituto Butantan, o Instituto Adolfo Lutz, o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, dentre vários outros.

A diferença da ciência realizada por um pesquisador chinês em Berkeley e um professor universitário no Brasil é evidente. Por várias razões. Não somente pela falta de pessoal qualificado, mas por muitas outras também. Sem dúvida que “o número muito maior de pesquisadores, processos eficientes, e gestão científica profissional e dinheiro” fazem diferença. E muita. Muitos pesquisadores brasileiros sabem disso e ao longo da última década trabalharam arduamente para estabelecer melhorias no desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. Afinal, não é possível se negar que, a partir dos dois anos finais do governo Fernando Henrique Cardoso, o Plano Real possibilitou se investir em ciência e tecnologia como nunca antes no Brasil. Com uma economia relativamente estável, tornou-se viável a realização de investimentos desta natureza no Brasil. Antes – só quem vivenciou esta realidade sabe – recebia-se dinheiro para pesquisa que sofria uma enorme deflação (entre 1989 e 1990 a inflação chegou a 2750% ao ano). E o montante concedido não era corrigido. Os pesquisadores que fizeram ciência no Brasil antes de 16 anos atrás foram verdadeiros heróis, diga-se de passagem, por enfrentar obstáculos muito mais difíceis de serem transpostos do que atualmente. A política de financiamento científico consistente no Brasil tem apenas 10 anos. Em São Paulo, há mais tempo por causa da FAPESP, criada em 1961.

A legislação sobre a utilização do dinheiro público no Brasil é bastante restritiva, por razões históricas e culturais. Tal legislação acarreta conseqüências para a ciência, para bem e para mal. Por um lado limita as formas de aplicação de verbas para pesquisa, de acordo com as alíneas para que foram concedidas. Por outro lado, permite ao Tribunal de Contas da União (em nível federal) e ao Tribunal de Contas dos Estados controlar eventuais abusos que possam acontecer. Não eventualmente para se constituir fortunas pessoais, mas para uso indevido (que eventualmente, e infelizmente, acontecem). Particularmente concordo com Nicolelis que tal legislação é bastante cerceadora. Mas, o que há de se fazer? Se esta é a legislação, há que se adequar a ela. Até que mude, por qualquer motivo, inclusive pelo engajamento político de acadêmicos, que possam mostrar como a aplicação de uma tal legislação, no caso da pesquisa, apresenta muito mais problemas do que benefícios. Tal como é o caso das importações de insumos, objeto de reportagem da edição do último domingo do mesmo jornal, O Estado de São Paulo.

Neste último tópico concordo plenamente com o Professor Nicolelis. Não basta apenas se criar mecanismos para facilitar a importação de insumos para pesquisa. Há que se produzi-los e distribuí-los no Brasil. Não é possível que este país não tenha, por exemplo, indústrias químicas e bioquímicas para a fabricação e distribuição de reagentes para pesquisa. A Aldrich (atualmente Sigma-Aldrich) completará 60 anos em 2012. Esta empresa surgiu em 1952 para distribuir um único produto químico. É impensável que o Brasil dependa da importação de praticamente todos insumos, e muitos equipamentos, necessários para se fazer pesquisa. Além disso, empresas como Sigma-Aldrich e outras apresentam restrições de venda de determinados reagentes para o Brasil, por questões de segurança. Logo, como é possível se realizar pesquisa sem estes reagentes, muitas vezes absolutamente imprescindíveis?

A questão de se trazer pesquisadores de volta para o Brasil, que possam desenvolver sua pesquisa aqui, também é muito importante. Porém, muitas vezes as condições necessárias para que estes pesquisadores trabalharem no Brasil simplesmente ainda são muito incipientes. E muitos não querem voltar nestas condições. Há que se compreender que, se tal for o caso, estes teriam que voltar para nuclear grupos, formar pessoal, e matar um leão por dia, como é muitas vezes necessário no meio acadêmico. E isto é verdade em qualquer região do Brasil, mesmo em São Paulo, com raríssimas exceções.

O fato de um professor ter que ministrar 300 horas/aula por semestre  (em algumas?)  nas universidades públicas (cerca de 18,5 horas-aula por semana) é, realmente um problema. Pois não basta se ministrar tal volume de horas-aula. Há que se preparar as aulas, eventualmente exercícios, selecionar textos par leitura, preparar avaliações, corrigir avaliações, atender os alunos em horários específicos. Ou seja, o professor que tem que ministrar 18,5 horas-aula por semana praticamente não faz pesquisa. É fato. Adicionalmente, faz parte do consenso do modelo acadêmico brasileiro que os professores devem necessariamente exercer atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão. E muito bem. Assim, as limitações deste modelo tornam-se evidentes, modelo este que deveria ser atualmente debatido, e eventualmente revisto e modificado, tendo em vista uma melhoria significativa da qualidade do ensino e da pesquisa feitas nas universidades brasileiras.

Quanto ao fato da ciência ser elitizada, esta é uma conseqüência de fatos históricos que levaram ao comprometimento do ensino público  de nível fundamental e médio do país. Não se pode culpar as universidades por serem elitistas. Os processos de seleção (vestibulares) não buscam favorecer classes sociais, e sim identificar os alunos melhores formados no ensino médio, ou pelo menos com uma formação adequada, para serem capazes de acompanhar os cursos de graduação. Se os alunos egressos das escolas públicas apresentam, em sua maioria, formação pouco adequada para serem aprovados nos vestibulares (atualmente a prova do ENEM) e acompanharem os cursos de graduação, o problema não é o ensino superior. E sim o ensino médio. É a qualidade do ensino médio público que deve melhorar, e muito. De outra forma, os cursos de graduação terão que sofrer um “nivelamento por baixo”, ou a evasão e a reprovação serão maciças. Não é possível se comprometer a qualidade do ensino superior para se favorecer a entrada de alunos com deficiências na sua formação do ensino médio. No entanto, estão sendo criados mecanismos para se valorizar aqueles estudantes egressos do ensino médio público que apresentam formação adequada para ingressar no ensino de nível superior. Neste sentido, o modelo de vestibular da UNICAMP, por exemplo, é muito interessante.

Concordo com Nicolelis que a formação científica deve se iniciar no ensino médio, quiçá no ensino fundamental. Uma iniciativa neste sentido é imprescindível para que se possa visar o crescimento da “população de cientistas brasileiros” bem formados e altamente capacitados. Infelizmente, serão necessários pelo menos 20 anos para que surjam resultados neste sentido. Isso se os inúmeros problemas da educação fundamental e média forem encarados de frente imediatamente. Por mais que se queira realizar iniciativas de “inclusão científica”, apesar de extremamente louváveis, tais iniciativas apresentarão limitações não per se, mas sim pela formação deficiente dos alunos participantes.

Quanto à utilização da técnica de ressonância magnética nuclear para se medir o teor de óleos em sementes, implementada por Nicolelis no IINN (Instituto Internacional de Neurociências de Natal) para jovens, cabe assinalar que estudos desta natureza são desenvolvidos há vários anos pelo grupo de pesquisadores da Embrapa Instrumentação Agropecuária – CNPDIA.

Infelizmente, ao contrário do que afirma o Professor Nicolelis, o nosso talento em matemática não é enorme. Segundo a avaliação do último PISA (Programme for International Student Assessment), em matemática o Brasil ficou à frente de Montenegro, mas atrás da Colômbia, Trinidad e Tobago, Tailândia, Romênia, Uruguai e Macau (China), e de todos os outros países socialmente mais desenvolvidos (veja aqui). Logo, é necessário se investir esforços consideráveis para se mudar este quadro, o da educação brasileira, nos próximos anos, de forma contínua. Não existe fórmula mágica. Uma bolsa-ciência não resolverá o problema, que é de formação de base: leitura e compreensão de texto, escrita, matemática, raciocínio, lógica e um estímulo crescente ao aprendizado, à exploração da curiosidade, à valorização do conhecimento.

No que se refere à avaliação na academia, o número de publicações ainda têm peso, é fato. Porém, isso está mudando. Cabe assinalar que aqueles que fazem a avaliação dos acadêmicos são os próprios acadêmicos. Que sabem muito bem avaliar qualidade, mérito, competência e experiência. É uma questão de diretrizes e de política acadêmica. A valorização do mérito e da excelência é imprescindível para se ter uma ciência de qualidade. A discussão atual sobre a valorização da qualidade da pesquisa do Brasil é extremamente importante e está sendo feita em todos os níveis: departamentais, nas unidades, nas instituições e nos órgãos de fomento. Neste quesito, o Brasil está começando a sair do provincianismo que Nicolelis menciona e caminha para estabelecer uma sociedade acadêmica mais madura. Contudo, vale mencionar que esta é uma tendência recente, pelo fato da política de financiamento científico contínuo também ser recente. De outra forma, como é possível se fazer ciência de qualidade? Até 10 anos atrás, o pesquisador brasileiro radicado no Brasil que publicasse um artigo na revista Science abria uma garrafa de champagne e comemorava por vários dias. Em 2009 o Brasil publicou 23 artigos na Science. É pouco? Talvez. Mas é quase 4 vezes mais do quem em 2000, quando publicou apenas 6 (além de 14 artigos no PNAS em 2000 e 40 em 2009; já o número de artigos publicado na revista Nature não variou muito: 10 em 2000, 11 em 2009. Estes dados foram obtidos da base de dados do ISI-Web of Science).

Outra coisa: a admissão de cientistas (leia-se: professores/pesquisadores) por concurso público é feita pela avaliação por pares, membros de bancas que são constituídas por acadêmicos, que avaliam, cada vez melhor, os candidatos a ocuparem as vagas das universidades.

Nenhum professor/pesquisador estabelecido em uma universidade, pública ou privada, ou em uma instituição unicamente de pesquisa, necessita ser pesquisador 1A do CNPq para obter financiamento para o desenvolvimento de projetos de pesquisa. Tal afirmação por parte do professor Nicolelis é falsa. Talvez seja necessário se constituir uma equipe com pelo menos um pesquisador deste nível para se conseguir muito dinheiro (alguns milhões de reais) para se fazer pesquisa. E não há nada de errado nisso. Afinal, um investimento desta monta necessita uma boa justificativa, experiência, profissionalismo, excelência e mérito acadêmico, quesitos que o professor Nicolelis tanto valoriza. Pesquisadores mais jovens podem conseguir menos dinheiro, mas mesmo assim suficiente para se fazer pesquisa de muito boa qualidade. Hoje em dia é possível a um pesquisador nível 2 do CNPq conseguir centenas de milhares de reais para desenvolver um projeto de pesquisa aprovado por mérito.

Dizer que Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq é uma afirmativa puramente retórica. Obviamente que seria, principalmente se já tivesse ganho seu prêmio Nobel. E certamente teria muitos alunos sob sua orientação, diferentemente da Alemanha e da Suíça no início do século XX. O que se leva em conta para a concessão de bolsas de pesquisa do CNPq é o mérito e a excelência de cada pesquisador. Se existem falhas nesta avaliação, tais falhas devem ser objeto de análise, pois nós acadêmicos somos nossos próprios avaliadores. Atualmente o sistema Lattes de currículos não permite muitas falhas na avaliação, pois as informações ali contidas são facilmente verificáveis. A avaliação dos projetos de pesquisa, porém, necessita ser cuidadosa. E, neste sentido, ao contrário do que afirma Nicolelis, o modelo da FAPESP é muito bom, pois permite a avaliação e re-avaliação (se necessário) de um projeto submetido, com prazos adequados para a avaliação, uma avaliação detalhada, extensa e completa. Para que se possa ter uma idéia de como tal avaliação é feita pelos assessores da FAPESP, basta se acessar a página da FAPESP onde se encontram os formulários para se tomar conhecimento do teor das avaliações realizadas (veja aqui). No CNPq a avaliação é feita de maneira muito mais pontual, e deve ser aprimorada. Principalmente no que se refere aos mecanismos de avaliação a posteriori do desenvolvimento dos projetos. De novo, cabe assinalar que os professores e pesquisadores são os elementos-chave que constituem os comitês de avaliação e os dirigentes dos órgãos de fomento, e, desta forma devem estar plenamente capacitados para avaliar e serem avaliados. Isso é verdade para pesquisadores de qualquer nível, 1A, 1B, 1C, 1D, 2 ou ainda não pesquisador do CNPq. Tudo depende da experiência de cada um e das diretrizes estabelecidas para que tais avaliações possam ser bem feitas.

Quanto aos protocolos burocráticos e formais a que Nicolelis se refere, infelizmente há que se concordar que a carga de nossa herança histórica é, por vezes, cruel.

Criticar as universidades públicas do estado de São Paulo sem explicitar quais os problemas que Nicolelis vê nestas instituições é, no mínimo, questionável. Da mesma forma, dizer que o reitor da USP, Professor João Grandino Rodas, é um homem de pouca visão (veja-se aqui um resumo da trajetória profissional do Professor Grandino Rodas). Nicolelis deveria explicitar o porque desta sua afirmativa. O fato do reitor não ter recebido uma delegação enviada pelo governo suíço não significa nada, muito menos que o pró-reitor de pesquisa tenha sido designado para receber tal delegação. Ainda mais em se tratando do professor Marco Antonio Zago, ex-presidente do CNPq. Desconheço as circunstâncias que levaram a Universidade de São Paulo a “perder um investimento de 150 milhões de francos suíços (cerca de R$ 270 milhões)”. Se tal for o caso, certamente não deve ter sido pelo fato de tal delegação não ter sido recebida pelo reitor. E também duvido seriamente que ninguém tenha agradecido tal visita.

Também tenho sérias dúvidas se a tônica da FAPESP em reuniões de comitês e comissões internacionais seja de afirmar que “Fora de São Paulo não existe ciência que valha a pena investir”. A FAPESP conta, inclusive, com avaliadores de outros estados para a avaliação muitos de seus projetos. Muitos pesquisadores de outros estados participam de projetos coordenados por pesquisadores do estado de São Paulo, recebendo, inclusive, verba para pesquisa da FAPESP. A FAPESP é co-financiadora dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), dos quais participam pesquisadores de São Paulo e de outros estados. Sendo assim, a afirmativa de Nicolelis sobre a FAPESP mostra ser totalmente fora de propósito.

Nicolelis que me desculpe, mas os pesquisadores do estado de São Paulo não tem uma “relação amistosa” com “este outro País fora das fronteiras do Estado”. São Paulo faz parte do Brasil. E como qualquer outro estado, necessita de verbas federais para pesquisa e educação. Participa ativamente dos órgãos de fomento federais. Desenvolve projetos de pesquisa em âmbito nacional, que incluem pesquisadores de vários estados. Esta forma de intriga, que Nicolelis denomina de bairrismo, é uma quimera. São Paulo não é responsável por 70% da pesquisa realizada no Brasil, e sim por menos de 50% (atualmente). O fato de a FAPESP financiar a pesquisa no estado de São Paulo há 50 anos é ruim para o Brasil? Não seria o contrário? Vamos imaginar: e se a FAPESP nunca tivesse existido? O que seria da ciência do Brasil, uma vez que muitos pesquisadores, líderes  científicos de outros estados, foram formados nas universidades estaduais paulistas com bolsas da FAPESP e com verbas para pesquisa providas pela FAPESP? Na verdade, a FAPESP contribuiu e contribui de maneira decisiva para o fortalecimento da pesquisa no Brasil. Em nível nacional. Particularmente, penso que os brasileiros deveriam se orgulhar de ter a FAPESP como um órgão de financiamento, e não de ser um problema, como Nicolelis parece sugerir.

Quanto a dizer que a última administração da FAPESP foi muito ruim, Nicolelis deveria explicitar o porque desta sua opinião. Só porque a FAPESP não foi mencionada em artigo recente publicado na revista Science sobre a ciência brasileira (veja aqui)? Esta é uma razão bastante duvidosa, uma vez que o artigo busca, de fato, desenhar o quadro da ciência brasileira em nível nacional, e o fato da FAPESP não ter sido incluída nesta análise não desmerece, em absoluto, a gestão atual ou passada desta agência de fomento. Em 2010 a FAPESP foi citada como exemplo de agência financiadora pela revista Nature (veja aqui). Quanto às “surpresas você vê saindo da ciência de São Paulo”, cabe mencionar, por exemplo, o programa BIOTA-FAPESP, o qual, depois de uma década de desenvolvimento levou a mudanças na legislação ambiental do estado de São Paulo. Ou a criação dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (veja aqui), que depois de também 10 anos estão proporcionando avanços científicos e sociais significativos para o estado de São Paulo, vários dos quais contam com a participação de pesquisadores estrangeiros, e um é coordenado pelo futuro presidente do CNPq, Glaucius Oliva (veja aqui).

É muito curioso Nicolelis de início dizer que a política científica brasileira está ultrapassada e adiante em sua entrevista assinalar que o governo Lula foi o melhor momento da história do país e que “Tivemos grandes avanços como a criação dos INCTs e dos fundos setoriais.” Parece ser totalmente contraditório.

Finalmente, dizer que “As agências de financiamento não têm uma rotina de chamadas. Não podemos continuar como está.”, demonstra que Nicolelis está mal informado. Seria bom visitar pelo menos a página do CNPq, no menu editais (aqui) para verificar que existe um fluxo contínuo de chamadas para a contratação de projetos dos mais variados tipos.

Enfim, desejamos que a estadia do Professor Nicolelis no Brasil seja frutífera, duradoura, e que sua integração junto à comunidade científica brasileira possa levar a discussões de alto nível, sobre as grandes questões que envolvem a ciência brasileira, de maneira construtiva e pró-ativa.

Outras análises, algumas curtas, outras nem tanto, da entrevista de Nicolelis.

Roberto Romano, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP (aqui): “A entrevista é interessante. Creio que não concordo com a posição geral do Professor Nicolelis, mas ele tem razão, na minha opinião, em criticar os gestores de pesquisa (sindicalistas e professores, mais do que qualquer outra coisa), em indicar que, mais do que pensar e fazer ciência, estamos fazendo currículo por Kilo; em criticar a obssessão por publicação sem cuidado e sem objetivos científicos.”

Carlos Alexandre Fedrigo, doutorando em medicina na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (aqui): “O CNPq é uma máfia, como qualquer instituição pública no Brasil. Para crescer dentro dele é preciso contatos, um Padrino. Como analisado ali, se Einstein não seria bom para ocupar o nível mais alto dentro desse órgão, PAREMO! E quem está no início da carreira tem dificuldade pra conseguir financiamento de projetos, verbas.” (leia o restante do texto, aqui).

Professor José Carlos Vaz (aqui): “O neurocientista Miguel Nicolelis de uma interessante entrevista ao jornalista Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo. Na entrevista, além de apresentar sua pesquisa de alto impacto e reconhecimento internacional, Nicolelis faz uma contundente crítica à política científica brasileira e paulista e aos “cardeais da academia”.

(…) Selecionei apenas a parte que diz respeito à política científica brasileira e paulista. Entre outros aspectos, Nicolelis disse que falta gestão da política científica e da produção científica no Brasil, criticou os critérios de avaliação de mérito científico e seu o quantitativismo, e a falta de visão dos dirigentes científicos, inclusive da USP.”

Professor Alan Martins (aqui): “Em entrevista a um jornal de SP, o Professor Miguel Nicolelis faz críticas contundentes sobre a ciência & tecnologia no Brasil. Embora eu não concorde com tudo que ele diz, seus argumentos são fortes quando ressalta que pelos critérios brasileiros Einstein não seria Pesquisador 1A do CNPq.

Vamos aguardar e acompanhar atentamente os passos do novo Ministro e professor, Aluízio Mercadante.

Quanto às críticas feitas à SP, o comentário que ele faz sobre a Science na anti-penúltima pergunta é suficiente para a USP descer do “plano das ideias”…”

Artur Perrusi (aqui): Mais uma entrevista do neurocientista Miguel Nicolelis. Concordo no atacado, discordo no varejo, mas é uma posição importante, vindo de quem vindo.

Selecionei a parte da entrevista que se refere à política científica brasileira. Não deixa de ser uma crítica ao Homo lattes (…).

Além do mais, a universidades federal, onde se produz ciência no Brasil, organiza-se ainda como uma repartição pública (não me refiro aos gestores e aos administradores, e sim à regulação normativa da universidade). Sua forma de organização é incompatível com a produção científica.” (leia o restante do texto, aqui)



Categorias:ciência do Brasil

8 respostas

  1. Olá, Roberto.

    Gostei de sua análise. Seu texto é importante, porque faz, justamente, um contraponto às posições de Nicolelis. Lendo-o, confesso que fiquei um pouco mais consciente das limitações da crítica de Nicolelis. De fato, Nicolelis confunde gestão científica e modelo administrativo; talvez, porque sua crítica seja fundamentalmente política. Ele quer bater de frente com CNPq, CAPES e outros órgãos de fomento.

    Minha simpatia no atacado pela crítica de Nicolelis tem o seguinte motivo, independentemente do seu conteúdo: está na hora de se discutir publicamente como se organiza a ciência no Brasil – principalmente, as universidades públicas. Nicolelis é cientista e uma figura pública. Mesmo discordando, sua crítica é um ponto de partida interessante.

    Acho o modelo administrativo das federais, em particular da minha universidade (UFPB), incompatível ou de difícil adequação com a produção científica. É um modelo que interfere na realização da gestão científica (esse é um problema que Nicolelis poderia ter enfatizado, livrando-o, inclusive, da confusão entre gestão da ciência e gestão da universidade). Acho tb que uma gestão científica é uma política – por isso, critico nossa política científica “nacional” que não incorpora um problema óbvio na ciência brasileira: a desigualdade na produção da ciência no Brasil. As federais são diferentes e, principalmente, são desiguais, acompanhando a desigualdade regional brasileira – certo, a situação está mudando: é só olhar os editais e suas cotas, mas ainda insuficiente (na minha opinião, não há uma política nacional, propriamente dita).

    Outra questão: tivemos dois governos tucanos e dois petistas: necas de pitibiriba de uma reforma universitária. Como discutir concretamente e politicamente gestão científica e modelo administrativo sem uma reforma?

    Abração. Artur Perrusi.

    • Caro Artur,

      Antes de mais nada, muito obrigado por seu comentário. Não posso deixar de concordar com você em vários pontos, mas nem todos. Quando você diz, por exemplo que a política científica nacional não leva em conta a desigualdade da produção científica no Brasil, acho que leva sim. Hoje em dia isso é evidente e se assume que este é um problema que deve ser enfrentado. A importante iniciativa estabelecida no governo Lula que 30% dos recursos de editais federais devem ser obrigatoriamente destinados às regiões norte, nordeste e centro-oeste é um exemplo disso. Talvez não seja o suficiente, mas acho que contempla, pelo menos em parte, a discrepância a que você se refere. Obviamente que existem muitos outros pontos que devem ser levados em consideração também. Mas pelo menos a iniciativa do governo anterior mostrou que é possível se buscar maneiras de se enfrentar tais problemas.

      Por fim, creio que é preciso antes se discutir gestão científica e modelo administrativo, para depois se propor uma reforma. Ou não?

      abraço,
      Roberto

  2. Roberto

    O principal problema de toda a crítica é quando esta procura num só texto generalizar as suas conclusões. A pesquisa na área das ciências da saúde tem problemas totalmente diferenciados de pesquisas na área das ciências da engenharia, por exemplo. Quando ele generaliza, necessariamente ele erra, não há como comparar como medir o impacto de pesquisas em neurociências como pesquisas na parte de hidráulica e estruturas hidráulicas. Por enquanto que uma é de ponta em países do norte, a segunda foi abandonada na mesma região por seus recursos hídricos estarem completamente esgotados.

    Qual a conseqüência disto? Publicações na área de estruturas hidráulicas no chamado primeiro mundo são meramente diletantes ou aplicadas para casos fora de seus países, logo secundárias e de baixo impacto na ciência desses países. Agora estudar escada para peixes num país que ainda tem centenas de barramentos a serem construídos é extremamente importante.

    Em resumo, colocar um crítica genérica para toda a produção de C&T no Brasil, é necessariamente ir por um caminho que logicamente levará ao erro.

    • Prezado Rogério,

      Suas observações são extremamente pertinentes. Quando se avalia por comparação, é imprescindível que se compare o que é comparável. Senão, a comparação perde seu valor.

      Obrigado pelo comentário.
      Roberto

  3. “As colocações do Professor Nicolelis causaram agitação na internet e no meio acadêmico. Inúmeros sites e blogs da internet reproduziram a entrevista de Nicolelis. Poucos, porém, se dignaram a fazer uma análise das colocações de Nicolelis, tanto globalmente como em aspectos mais específicos.

    Por que será? Desconfio que, por vir de quem veio – um luminar acadêmico
    brazuca reconhecido e afamado no exterior, suas opiniões são aceitas sem muitas contestações e questionamentos… mesmo sendo elas equivocadas.

  4. Oi Roberto
    mais um texto excelente seu. Particularmente achei a entrevista do Nicolelis um horror. Ele fala como celebridade, como um super-star, ** que não precisa justificar nada **.

    A entrevista dele tem tom “profético”, como se ele fosse Moisés, que vai dar liberdade aos pesquisadores escravizados pelo “faraó” CNPq e/ou Capes.

    Ele certamente detesta o reitor da USP pois o mesmo é conservador “de direita” e o Nicolelis é um ultra-esquerdista que inclusive é amigo do reitor da UnB, o Zé do MST (professor com ZERO papers e apoiador do MST).

    Nicolelis entende muito de pesquisa em si, mas é nota zero em política. Deus me livre este cara presidindo o CNPq ou Capes (prefiro o veterinário Jorge Guimaraes a ele !)

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