Pouco barulho por tudo

A notícia da descoberta de fósseis de bactérias em meteorito, no último dia 6, rendeu muito menos divulgação na mídia do que a notícia do ano passado sobre bactérias que sobreviveriam à base de arsênico.

Notícia do jornal O Estado de S. Paulo:

Cientista da NASA descobre fóssil alienígena em meteorito, diz site – Richard B. Hoover, que estuda o tema há mais de dez anos, diz que campo ‘está quase intocado’

O Dr. Richard B. Hoover, astrobiólogo da NASA especializado no estudo de formas de vida microscópicas, afirma ter encontrado o fóssil de uma bactéria alienígena dentro de um tipo de meteoro muito raro, indicou nesta sexta-feira, 5, o site Digital Trends. Segundo Hoover, sua descoberta demonstra a existência de vida alienígena. As bactérias foram encontradas dentro de meteoritos do tipo Condritos Carbonáceos C1. Seu estudo foi publicado no Journal of Cosmology, publicação norte-americana dedicada à ciência. “Eu interpreto isso como um indício de que a vida está distribuída de maneira mais ampla do que se estivesse apenas restrita ao planeta terra”, disse.

O cientista, que estuda meteoritos há mais de dez anos, disse à TV norte-americana que esse campo de estudo “está quase intocado, porque francamente muitos cientistas diriam que é impossível”.

Hoover descobriu os fósseis ao dividir os meteoritos e analisar seu interior com um microscópio especial. Segundo ele, muitos dos fósseis encontrados são bastante similares a outros que podem ser encontrados no planeta Terra. “A coisa excitante é que eles são em muitos casos reconhecíveis e podem ser associados de perto com as espécies genéricas que existem na Terra”, disse. Outros fósseis, porém, são incomuns. “Existem alguns que são simplesmente muito estranhas e não se parecem em nada que eu fui capaz de identificar, e eu os mostrei para diversos outros especialistas que também ficaram surpresos.”

Para superar a incredulidade de muitos colegas da comunidade científica, Hoover disponibilizou seu estudo para outros cientistas antes da publicação do trabalho, visando dar uma oportunidade para críticas e observações. “Nenhum outro trabalho na história da ciência passou por um exame tão completo.”

Notícia do jornal Folha de S. Paulo:

Cientistas contestam descoberta de bactérias extraterrestres

Um artigo controverso assinado pelo astrobiólogo da Nasa Richard Hoover, que diz ter descoberto evidências de bactérias extraterrestres fossilizadas em três meteoritos que atingiram a terra, está sendo contestado por especialistas da comunidade científica. Divulgado na última sexta-feira (4) na publicação científica americana “Journal of Cosmology”, o estudo afirma que, durante uma análise da estrutura dos meteoritos, foram encontradas evidências de organismos similares às cianobactérias. No entanto, a composição destes organismos seria diferente das bactérias terrestres. Segundo Hover, isto seria uma das provas de que eles não se infiltraram no meteorito na Terra, mas vieram do espaço.

O Journal of Cosmology recebeu duras críticas da comunidade científica, que alegam que a publicação não tem credibilidade –ela é independente e dá livre acesso aos artigos na internet– e que a pesquisa de Hoover não reuniu as evidências necessárias para comprovar suas afirmações.

As alegações do cientista são baseadas na investigação microscópica da estrutura interna do grupo de meteoritos do tipo Condritos Carbonáceos C1, que continha materiais supostamente originários do início do nosso sistema solar. Dentro dos meteoritos, ele teria encontrado fibras que diz terem semelhanças com cianobactérias terrestres. Mas, segundo o cientista, o tamanho, a estrutura e a composição química dos filamentos encontrados no meteoro não são consistentes com o que existe na Terra. Ele também descartou a possibilidade de que as estruturas sejam resultado da contaminação local depois que os meteoritos caíram no planeta, dizendo que a quantidade mínima de nitrogênio encontrada neles mostra que são fósseis realmente antigos.

Em um comunicado, o astrofísico da Universidade de Harvard Rudolph Schild, editor do “Journal of Cosmology”, disse ter convidado cem especialistas para comentar o estudo polêmico. “Por causa da natureza controversa de sua descoberta [de Richard Hoover], convidamos cem especialistas que enviaram um convite geral a mais de 5.000 cientistas para revisarem o estudo e apresentarem suas análises críticas.” Segundo Schild, os comentários devem ser enviados até esta segunda-feira e serão publicados até o dia 10 de março. O astrofísico disse ainda que o estudo é “profundamente importante” e que nenhum outro trabalho na história da ciência terá sido submetido a uma análise tão completa.

Se as conclusões do trabalho de Hoover forem consideradas corretas, elas seriam uma forte sugestão de que a vida não é exclusividade da Terra e pode ter tido origem em outros lugares do universo. Há décadas o conceito de panspermia – de que a vida não é exclusividade da Terra e teria chegado ao planeta por meio de, por exemplo, um meteorito – é defendido por alguns dos cientistas ligados ao “Journal of Cosmology”. O repórter de ciência da BBC Neil Bowdler diz que as afirmações de Hoover ainda devem ser bastante discutidas.

“Se Hoover estiver certo, ele terá provado que a vida não é exclusividade da Terra. Mas isso é uma grande incerteza. É a primeira vez que tais afirmações foram feitas.” “Os cientistas ainda debatem as sugestões feitas por uma pesquisa em 1996, de que um meteorito continha evidências de bactérias fossilizadas de Marte”, diz Bowdler.

Detalhes interessantes sobre esta descoberta, pouco divulgada por aqui: a revista científica na qual o artigo foi publicado é, aparentemente, de qualidade muito questionável. O artigo em questão não foi submetido à análise por pares. Novamente vários blogs de ciência, inclusive de uma pesquisadora (Rosie Rosenfeld), analisaram o artigo, e o criticaram severamente (vejam aqui, aqui, aqui e aqui). Muito possivelmente a mídia tomou muito mais cuidado na divulgação desta notícia do que na da “bactéria de arsênico”. Boas lições levamos para toda a vida.

Provavelmente o filme “Muito barulho por nada”, baseado na obra de Shakespeare, deve ser melhor do que o artigo publicado divulgando os fósseis de bactérias alienígenas.



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6 respostas

  1. Não sei se a mídia tomou tanto cuidado assim… Teve veículo que até publicou fotos de bactérias verdadeiras (que estavam no meio do artigo de Hoover) como se fossem os “fósseis”.

    []s,

    Roberto Takata

    • Caro Roberto,

      Não vi notícia na TV, por exemplo. No caso das “bactérias de arsênico”, a notícia foi veiculada em quase todos os telejornais. A notícia da Folha não divulgou nem a notícia do “achado”, mas já publicou a contestação por parte de outros pesquisadores. Acho que a editoria de Ciência da Folha foi mais cuidadosa neste caso.

      abraço,
      Roberto

  2. Mas acho que as circunstâncias são bem diferentes. A revelação da GFAJ-1 teve conferência de imprensa da NASA – que divulgou um comunicado antes dizendo que tinha uma noticia importante sobre a vida – e foi publicada na Science. Então acho que jornalista não tinha mesmo muito como ter cuidado, a não ser confiar no hype todo da NASA. E até onde sei, o paper não foi nem retratado nem confirmado, então tá meio na sombra da dúvida ainda…

    Agora, esse artigo do Hoover já nasceu sem credibilidade. Os blogueiros foram rápidos pra escrachar a publicação, e é só entrar no Journal of Cosmology pra perceber que a revista é uma piada. Parece aqueles sites sci-fi dos anos 90, hehe. Além do que a ‘credibilidade’ da NASA foi um pouco abalada por causa mesmo da GFAJ-1, porque a imprensa tb cobriu as opiniões contrárias.

    Mesmo assim, quando saiu esta notícia do meteorito da Folha tava na capa do UOL “Cientistas da Nasa…” o que acho que leva à entender que tinha o dedo da agência. Sendo que é uma publicação independente do Hoover.

    Aliás, alguém sabe o que deu a bactéria do arsênico?

    • Oi Erico,

      Pelo que eu li, o artigo sobre a bactéria que apresenta o metabolismo com arsênico em vez de fósforo só deverá ser re-avaliado por experimentos independentes, feitos por outros pesquisadores. Enquanto não houver uma contestação formal, aprovada por revisão por pares, o artigo deverá ser mantido publicado, sem problemas. Como deve ser, neste caso.

      O editor do Journal of Cosmology convidou 5.000 pesquisadores para verificarem os dados do artigo. A questão é: se o artigo reporta dados fidedignos, como é de praxe em revistas científicas, porque os autores não submeteram a uma revista melhor conceituada? Talvez com medo de que o artigo fosse rejeitado?

      Não vi a capa do UOL. Talvez a mídia tenha feito uma cobertura da publicação tão extensa quanto a da “bactéria de arsênico”. Eu assisto aos telejornais, nos quais a divulgação da notícia da bactéria que vive com arsênico teve ampla repercussão. Por isso tive a impressão que a mídia teve um pouco mais de cuidado no caso dos fósseis de bactérias alienígenas.

      cordialmente,
      Roberto

      • Segundo a própria Nasa, o artigo *foi* submetido a uma revista com um padrão um pouco melhor – a International Journal of Astrobiology. Mas foi, claro, rejeitado.

        Pelos comentários publicados pelo Journal of Cosmology (pena que um nome tão bom tenha sido capturado por uma publicação tão ruim), tenho uma boa ideia de pra que tipo de cientistas foram enviadas as tais 100 cópias.

        Pior que Chandra Wickramasinghe até tem bons trabalhos em astrofísica, Penrose tem trabalhos importantes em física quântica… Mas é uma confraria de doidos essa revista. Ok, tem uma função a desempenhar de manter a mente aberta – porém necessitam desse olhar bastante crítico pra limitar a viagem deles.

        []s,

        Roberto Takata

  3. Se esse artigo foi primeiro submetido ao International Journal of Astrobiology, e rejeitado, e depois publicado nesse “Journal of Cosmology” (belo nome, de fato!), então podemos pensar no papel de publicações alternativas, como essas que aceitam artigos rejeitados por outras. Já existe a Rejecta Mathematica (ver esse post do sumido Moc, no Ideias Cretinas).

    “Ok, tem uma função a desempenhar de manter a mente aberta – porém necessitam desse olhar bastante crítico pra limitar a viagem deles”.

    E como exercitar esse “olhar bastante crítico” se não tivermos acesso a esses artigos, que de outro modo ficariam no limbo, Roberto (Takata)? As publicações tradicionais baseadas em peer-reviewing dificilmente dão acesso aos artigos rejeitados – o Roberto (Berlinck) já tratou disso por aqui e ainda são incipientes as iniciativas, como a do The EMBO Journal de publicar o artigo juntamente com as cartas trocadas entre entre autores e revisores. É uma nova prática muito promissora, por conferir transparência ao processo de revisão por pares.

    Mas vejam: mesmo no The EMBO Journal, tal prática é para artigos aceitos e publicados. E os rejeitados, como ficam? Como o Moc bem lembrou no seu post sobre a Rejecta Mathematica:

    Ao que tudo indica, o Rejecta vai ser um periódico dedicado mais aos meios que aos fins: se um argumento interessante leva a um resultado inválido, do ponto de vista do novo journal, o trabalho vale, seja como advertência ou como desafio para outros pesquisadores“.

    “Mas é uma confraria de doidos essa revista.”

    Os Físicos levam fama de doidos, mas graças à eles quanto avanço aconteceu! Adoro esses doidos!!! 😀

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