O Brasil no Ano Internacional da Química

Este é o tema de número especial da revista Ciência e Cultura, dedicado ao Ano Internacional da Química. A seguir, o editorial.

A decretação, pela Unesco, do Ano Internacional da Química para 2011, vem consagrar – não só dentro da comunidade científica, mas na sociedade de uma maneira geral – uma nova imagem dessa área do conhecimento de fundamental importância na preservação e na melhoria da vida do planeta e de seus habitantes. A síntese de moléculas que revolucionou o cenário mundial – em particular nas áreas farmacêutica, agrícola e militar – e as propostas mais recentes que constituem um forte apoio ao desenvolvimento dos processos sustentáveis, marcam os avanços e desafios da química, que podem ser percebidos nos artigos que compõem o Núcleo Temático deste número de Ciência e Cultura, coordenado por Roberto Berlink, mostrando a importância dessa área do conhecimento para o desenvolvimento científico, tecnológico e social.

Nessa evolução, constata-se ainda que a química é uma área cada vez mais interdisciplinar, o que retrata também uma das novas tendências postas à universidade, assunto que é tratado na seção “Tendências” que aborda a adoção de ciclos básicos abrangentes no início da formação universitária.

A seção “Artigos e Ensaios” mostra o papel do teatro na questão do negro no Brasil. As redes inteligentes, os desastres ambientais, a necessidade de avaliação das políticas públicas, a visualização de dados científicos, a participação pública em C&T são outros assuntos abordados neste número da revista que se encerra pela parte cultural, mostrando uma proposta de oficializar o Rio de Janeiro como capital mundial do samba e trazendo resenhas, publicações, prosa e poesia.

BOA LEITURA!

Marcelo Knobel, Janeiro de 2011.

Apresentação

O Brasil no Ano Internacional da Química – Roberto G. S. Berlinck

O ano de 2011 será o Ano Internacional da Química. Considerando‑se que o ano de 2010 foi o Ano Internacional da Biodiversidade, a escolha dos dois temas pode parecer um paradoxo por parte da Unesco. Mas não é. Pelo contrário, a química constitui a base dos processos bioquímicos e biológicos que constituem a vida na sua expressão mais intrínseca. Mas a importância da química extrapola em muito a compreensão dos processos que regem a vida – também é primaz para o desenvolvimento humano e para uma melhor qualidade de vida de uma forma geral.

A edição deste Núcleo Temático da revista Ciência e Cultura buscou integrar temas que tragam informações e levem à reflexão sobre a importância da química para o desenvolvimento científico, tecnológico e social. O artigo de Hamilton Varela discute a complexidade de processos físico‑químicos que são essenciais para melhor se compreender fenômenos como não‑linearidade, emergência, auto‑organização. Tais fenômenos são expressos in vitro e in vivo de maneira ainda pouco compreendida, mas tomam parte em vários sistemas químicos e biológicos. Segue‑se o artigo de Ana Maria Oliveira Battastini, Rafael Fernandes Zanin e Elizandra Braganhol que discorre sobre a importância do trifosfato de adenosina (ATP) e de enzimas que o hidrolisam (ATPases). O ATP é a principal fonte de energia dos processos bioquímicos. As enzimas do tipo ATPases exercem uma série de funções essenciais nos processos celulares, uma vez que o ATP toma parte na comunicação química intracelular, bem como em processos fisiológicos como neurotransmissão, processamento da memória, coagulação sanguínea, contração muscular e controle da pressão arterial. Não menos importantes são metais que tomam parte na química inorgânica, e na química bioinorgânica, que também explica o funcionamento de inúmeros processos biológicos. Tal é o tema do artigo de Heloísa de Oliveira Beraldo, que discute o estado da arte e as perspectivas futuras da química inorgânica, tanto em sua fundamentação como em aplicações medicinais e em ciência dos materiais. A autora mostra quão relevante e abrangente pode ser uma área de pesquisa tradicional da química, mas que apresenta vários horizontes possíveis de serem explorados. Mas a química é uma só. E, consequentemente, a separação artificial entre química inorgânica e química orgânica apenas reforça o conceito de que a química é, realmente, uma só. O Prêmio Nobel de Química de 2010 foi um reconhecimento à utilização de metais em catálise de reações orgânicas. E sobre tal assunto, Carlos Roque Duarte Correia e Caio Oliveira discorrem com muita propriedade, ilustrando aspectos de organocatálise e catálise promovida por metais, ferramentas essenciais para a síntese orgânica do século XXI. Síntese não somente de produtos naturais complexos, mas também de produtos de várias outras aplicações industriais. Em química, as técnicas de análise são absolutamente essenciais. Não há como se prescindir das ferramentas analíticas, que permitem identificar e quantificar produtos e processos amplamente utilizados em laboratório. Quezia Cass e Juliana Cristina Barreiro apresentam os avanços atuais das técnicas analíticas por cromatografia líquida, monodimensional, bidimensional e multidimensional, fazendo uso dos mais diversos detectores, para as mais variadas aplicações. A versatilidade das técnicas analíticas permite o avanço atual tanto na ciência pura quanto na aplicada, e demonstram que o conhecimento do uso dessas técnicas é extremamente importante para a profissão do químico. Finalmente, Márcia Almeida e Angelo da Cunha Pinto traçam um breve panorama da história da química do Brasil, conhecida de maneira fragmentada por muitos, mas que permite um resgate histórico sobre o surgimento e o crescimento das ciências químicas no Brasil.

Esta edição da revista Ciência e Cultura demonstra a importância da química como ciência central. Ciência esta tão importante para ser conhecida e apreciada, em sua estética e significado. As aplicações da química são virtualmente infinitas, mas apenas com conhecimento sólido disseminado será possível se promover e fortalecer o desenvolvimento da química no Brasil. Que o Ano Internacional da Química seja um momento de reflexão sobre a sua importância no contexto nacional e internacional. Que a comunidade científica brasileira possa desfrutar deste momento, que apenas se inicia com os artigos aqui publicados.

O número especial da revista Ciência e Cultura conta com os seguintes artigos:

Da parte para o todo: autoorganização dinâmica em sistemas físicoquímicos – Hamilton Varela (Instituto de Química de São Carlos, Universidade de São Paulo)

Recentes Avanços no Estudo das Enzimas que Hidrolisam o ATP Extracelular – Ana Maria Oliveira Battastini, Rafael Fernandes Zanin, Elizandra Braganhol (Departamento de Bioquímica, ICBS, UniversidadeFederal do Rio Grande do Sul)

Tendências atuais e as perspectivas futuras da química inorgânica – Heloisa Beraldo (Departamento de Química, Universidade Federal de Minas Gerais)

A evolução da química orgânica sintética. Quo vadis? – Carlos Roque Duarte Correia, Caio C. Oliveira (Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas)

Os avanços tecnológicos na química analítica: sucessos e desafios – Quezia B. Cass e Juliana Cristina Barreiro (Departamento de Química, Universidade Federal de São Carlos)

Uma breve história da química brasileira – Márcia R. Almeida, Angelo C. Pinto (Instituto de Química, Universidade Federal do Rio de Janeiro)

A edição completa deste número da revista Ciência e Cultura pode ser baixado aqui.



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2 respostas

  1. ” […] a química é uma só”.

    Parabéns, Roberto!

    E viva o Ano Internacional da Química!

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