Os problemas associados à formação dos doutores podem ser de vários tipos. O primeiro pode ser a educação das etapas anteriores, que infelizmente todos carregamos para o resto de nossas vidas. Se não for de qualidade, terá um reflexo evidente na formação do doutor. Depois, problemas associados à própria formação durante a pós-graduação. Uma das principais deficiências é não saber trabalhar em equipe e redirecionar objetivos, quesitos fundamentais para o trabalho empresarial. O artigo na Nature de autoria de Alison McCook analisa tais problemas e mostra alternativas para contorná-los.
Excelência
Quando o número de doutores formados procurando por empregos na academia é muito grande, os programas de pós-graduação deveriam fazer uma melhor seleção e admitir estudantes melhor preparados para o doutorado, e formar estes doutores com as melhores qualificações para ingressar no mercado de trabalho acadêmico. A heterogeneidade na formação dos doutores não parece ser uma preocupação das universidades dos EUA e do Reino Unido (UK). No UK, várias instituições não exigem que o estudante tenha um artigo publicado como primeiro autor, e vários cursos não permitem uma extensão de além de 4 anos. Michel Leonardo, imunologista do NIH (National Institutes of Health, EUA) criou um programa de pós-graduação no NIH denominado de NIH Oxford-Cambridge Scholars Program para formar doutores de alto nível. O programa admite somente 12 estudantes/ano de cerca de 250-300 postulantes. Os aprovados devem escrever seus próprios projetos de pesquisa, não realizam cursos de pós-graduação e iniciam sua pesquisa a partir do momento de ingresso. Mas a publicação de artigos como primeiros autores é essencial. Os estudantes dividem seu tempo entre os EUA e o UK. Devem ter 2 orientadores, um em cada país. Os estudantes aprendem como atuar de maneira independente, e viajar reforça sua autonomia e garante a formação sob a supervisão de pesquisadores de altíssimo nível. Em 10 anos foram formados 60 doutores, cada um em pouco mais de 4 anos. A média de publicações foi de 2,4 artigos/aluno (provavelmente nas melhores revistas das especializações, suposição minha). O programa considera que a aquisição de independência profissional para a formação acadêmica é absolutamente essencial.
Preocupado em formar doutores que pudessem atuar não somente na academia, professores investiram na melhoria do mestrado profissionalizante da Keck Graduate Institute e desenvolveram um programa de doutorado para formar estudantes com know-how industrial e formação para pesquisa. O programa exige pelo menos 1 orientador da indústria. Os estudantes aprendem não somente o método científico, mas também como preparar um plano de negócios e apresentá-lo a investidores, como realizar uma pesquisa de mercado, bem como a lidar com patentes. São oferecidos cursos de marketing e de comunicação. Desde seu início em 2006, 3 estudantes de formaram e têm salários anuais médios de US$ 73.000. A formação deve incluir a interação com profissionais da iniciativa privada, de maneira a fortalecer a capacidade de inclusão do formado no meio empresarial.
Fronteiras do conhecimento
A Arizona State University (ASU) criou um programa de pós-graduação que envolve professores de muitas faculdades diferentes. Funcionou tão bem que atualmente todos os novos programas da ASU apresentar estrutura transdisciplinar. Alguns exemplos de novos programas de pós-graduação da ASU: Dimensões Humanas e Sociais da Ciência e Tecnologia, Planejamento Biológico e Ecologia Urbana. A ideia inicial veio da iniciativa lançada pelo National Science Foundation (o CNPq dos EUA) chamada de IGERT: Integrative Graduate Education and Research Traineeship. Esta iniciativa provê auxílios de US$ 3 milhões durante 5 anos para instituições estruturarem programas que propiciem aos alunos de pós-graduação adquirir habilidades para enfrentar problemas reais. Desde 1998 o IGERT já financiou cerca de 5.000 estudantes. Os resultados mostram que os estudantes egressos do programa IGERT são em geral melhor preparados para o mercado de trabalho, sabem trabalhar em equipe, sabem se comunicar com profissionais que não são experts e gastam menos tempo procurando empregos.
Iniciativa similar foi estabelecida pelo Canadá, chamada de Collaborative Research and Training Experience, que promoveu a criação de um programa de doutorado em Bangalore, na Índia, para formar engenheiros, químicos, cientistas da computação e físicos para atuar de maneira interdisciplinar em profissões relacionadas às ciências da vida. Os estudantes aprendem como utilizar ferramentas das ciências físicas para resolver problemas biológicos.
Tanto no caso do IGERT como do programa canadense, a premissa básica é que, embora uma formação mais ampla seja necessária, a especialização também é importante e é necessário que os formados tenham um conhecimento aprofundado na sua área de atuação.
Muitos estudantes de pós-graduação podem não dispor de muito tempo durante o dia para realizar suas atividades de especialização. O surgimento de cursos de pós-graduação à distância permitiu que estes estudantes aprimorassem sua formação. Um dos programas à distância foi criado por uma das faculdades da University of Maryland (EUA). No final do curso, os estudantes devem preparar projetos reais para empresas reais – investigando, por exemplo, competidores de novas tecnologias – projetos estes que podem ter de 100 a 200 páginas. Embora à distância, os cursos oferecidos procuram forjar interações, de maneira a suprir a deficiência mais comum que os estudantes de pós-graduação apresentam: trabalhar em equipe.
Doutorado? Para quê?
Muitas profissões não requerem um grau de doutor. E fazer um doutorado pode ser extremamente frustrante para estudantes que buscam trabalhar com problemas da vida real. Existem profissões e profissões, que devem ser valorizadas de acordo com a necessidade de mercado, para as quais se requer uma formação coerente, mas não necessariamente muito especializada. Muitos estudantes de pós-graduação terminam seu doutorado com a sensação de ter perdido seu tempo. Por isso, uma experiência no mercado de trabalho antes da pós-graduação pode ser uma opção inteligente, principalmente para aqueles que não se interessam pela carreira acadêmica. O mito do título de doutor pode ser até mesmo constrangedor para aqueles que não se identificaram com seu doutorado, e o realizaram apenas para ter uma fonte de renda (bolsa de estudos).
Enquanto tiver um mercado de trabalho aquecido, o Brasil ainda oferece muitas opções de empregos para recém-formados. Mas a maldita inflação está de volta. E outro mito também: a alta taxa de juros. O mito que se estabeleceu aqui é que é necessário uma alta taxa de juros para controlar a inflação. Contudo, quem leu a coluna de Clóvis Rossi ontem no jornal Folha de S. Paulo deve ter achado muito interessante a história que ele contou.
Em maio de 2003, resumi alentado estudo do FMI, enviado pelo leitor Jacques Dezelin, que desmonta a sabedoria convencional sobre o efeito de aumentos na taxa de juros.
O FMI examinou 1.323 casos de 119 países no período 1982/98. Na maioria dos casos examinados, a inflação caiu, tenha o respectivo Banco Central aumentado, diminuído ou mantido a taxa de juros.
Em 62,18% dos 476 casos examinados, o juro caiu e a inflação também. Em apenas 50,75% de 398 situações, deu-se o que a sabedoria convencional espera, a queda da inflação após aumento dos juros.
O leitor tirou a lógica conclusão de que há um “caráter meramente aleatório na relação (ou melhor, na ausência de relação) entre a variação da taxa de juros fixada pelo Banco Central e a inflação”.
Publicado o texto, vieram dois telefonemas. Um do então ministro da Fazenda Antonio Palocci, que queria saber quem era o leitor que compilara os dados. O outro de Antonio Delfim Netto, então deputado e sempre tido como grande mestre da economia, que pediu as tabelas do FMI e acabou chamando Dezelin para conversar.
Ou seja, tanto um semileigo em economia, como Palocci se confessava, como um mestre mostraram interesse em saber mais sobre um desafio à sabedoria convencional, em evidência cristalina de que economia não é ciência exata, ao contrário do que querem fazer crer certos economistas.
Alias, Delfim Netto nunca disse outra coisa, sejamos justos.
Conto tudo isso para dizer que não há ciência nas críticas ao BC por ter aumentado 0,25% a taxa de juros, em vez do 0,50% exigido pelos mercados. Ninguém pode decretar o efeito que terá o 0,25% ou que teria o 0,50%.
Senta, pois, leitor, que o leão pode ou não ser manso, mas ninguém sabe antecipadamente.
Confesso que fiquei curioso em saber qual a formação do leitor Jacques Dezelin que peitou Antonio Palocci e provocou Delfim Netto. Qualquer analogia do texto de Clóvis Rossi com o sobre a pós-graduação, acima, não é mera coincidência.
McCook, A. (2011). Education: Rethinking PhDs Nature, 472 (7343), 280-282 DOI: 10.1038/472280a
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E você descobriu a formação de Dezelin? 🙂
E x c e l e n t e série, Roberto! Que belo retorno! Parabéns!