A reforma da pós-graduação – IV

O quarto artigo da série sobre PhDs publicados na Nature, intitulado “Seven ages of the PhD”, achei meio fraquinho, por isso não o comento aqui. O último é mais interessante: “What is a PhD really worth?”. Comento este combinando informações do artigo com minhas considerações.

Tudo indica que a atual situação econômica está jogando um balde de água fria na formação de doutores. O mercado de trabalho está bem desaquecido tanto na América do Norte como na Europa. Os BICs são exceção (não incluo a Rússia na sigla porque a situação lá também não está nada boa). Por isso, existe um excesso de doutores no mercado de trabalho. Excesso de oferta. E o Brasil não está sabendo aproveitar esta oportunidade. Os concursos para as universidades brasileiras são fechados para concorrentes de línguas estrangeiras. Imagine-se se conseguíssemos contratar uma parte do excesso de doutores formados nos EUA e na Europa. Certamente isso iria dar um impulso considerável na ciência brasileira, pois sabemos que, infelizmente, muitos concorrentes às vagas de professor/pesquisador nas universidades públicas brasileiras tem perfil muito ruim e/ou não tiveram uma boa formação de base.

Mas os empregos na academia não são os únicos que existem para doutores. Também na iniciativa privada, em órgãos do governo e até em organizações sem fins lucrativos. Antes de mais nada é necessário que os estudantes de pós-graduação possam se localizar no contexto do mercado de trabalho. Alguns já tem uma escolha muito bem definida. Outros precisam de uma bússola. Outros mais precisam de um GPS para se localizar. Cabe ao orientador exercer alguma influência sobre seus orientandos. Mas não muita. Na verdade, deveria ser mínima.

É necessário se estabelecer uma nova cultura de valorização dos doutores fora da academia. A iniciativa privada tem que reconhecer que são profissionais muito bem capacitados, muito bem formados, que devem, no mais das vezes, ser treinados para adquirir o “espírito da iniciativa privada”. Mas pessoalmente acredito que isso não deve ser um problema para muitos destes. A incorporação de doutores na iniciativa privada fará com que as empresas brasileiras adquiram um knowhow diferenciado. Foi o que aconteceu nos EUA a partir o início do século XX. Para citar um único exemplo, Irwin Langmuir se associou à General Eletric desde muito cedo em sua carreira (cerca de 1909; veja aqui). O prêmio Nobel por ele recebido em 1932 se deve a um trabalho desenvolvido essencialmente na General Eletric. Os EUA criou um novo paradigma da atuação de pesquisadores na indústria que até então havia sido muito pouco explorado. Consequentemente, as maiores e melhores empresas de tecnologia foram durante um bom tempo as norte-americanas. Este modelo de trabalho dos pesquisadores foi posteriormente exportado para os países da Europa e para o Japão.

Vários fatores devem ser levados em conta para a formação dos doutores. O primeiro, e o mais importante, é a qualidade da formação destes. Embora existam argumentos de que é necessário se formar doutores a qualquer preço, para depois o mercado fazer a seleção dos melhores, este é um argumento bastante questionável por uma razão muito simples: no Brasil 100% dos doutores são formados com recursos públicos. É uma formação longa e cara. Será que a sociedade está disposta a pagar pela formação de doutores a qualquer preço?

Como dito no primeiro texto desta série, o modelo da pós-graduação brasileira é bastante tradicional. Neste sentido, a institucionalização da avaliação dos programas de pós-graduação pela CAPES teve um papel extremamente importante. Mas não seria o momento de se avaliar se todas as instituições devem adotar o mesmo modelo de pós-graduação? A uniformização dos programas de pós-graduação pode ser válida para a avaliação destes, mas não necessariamente é a melhor opção para a formação de doutores com diferentes perfis.

Outro ponto importante é o valor das bolsas de estudo, que está defasado com os salários do mercado de trabalho. A recente aprovação de cláusula que permite o bolsista de mestrado e doutorado também trabalhar seria para compensar a perda do poder aquisitivo das bolsas? Foi afirmado que seria desejável que os bolsistas adquirissem experiência de trabalho. Mas há que se considerar que muitas vezes é praticamente impossível se desenvolver um projeto de mestrado ou de doutorado de qualidade trabalhando-se ao mesmo tempo. Estes pesquisadores têm que ser adequadamente remunerados. Se não é possível se remunerar tantos estudantes com valores mais altos, seria necessário se rever critérios de distribuição de bolsas. Somente desta forma os estudantes estarão mais motivados para prosseguir em seus estudos de pós-graduação e também serem cobrados por um melhor desempenho.

A aquisição de conhecimento, habilidades, espírito crítico e capacidade de enfrentar problemas de natureza diversa deveriam ser premissas básicas dos programas de pós-graduação. Atualmente existe uma pressão muito grande para a produção científica por parte dos alunos. Outros fatores são considerados na avaliação dos programas de pós pela CAPES, mas é muito difícil se avaliar a real formação dos recém-doutores. Os programas deveriam se debruçar realmente sobre este problema e buscar formas de avaliação interna para rever abordagens, procedimentos, prioridades, estabelecer critérios de credenciamento dos orientadores e valorizar a formação do profissional mais qualificado do mercado de trabalho na última etapa de sua formação.

A formação em programas mais abrangentes, inter-mutlti-transdisciplinares, é altamente desejável, mas as iniciativas nesta direção são ainda tímidas. Tais iniciativas devem ser muito estimuladas. O tempo de titulação deveria ser cuidadosamente avaliado, em cada área do conhecimento. Na área de química, por exemplo, 2 anos para o mestrado e 4 anos para o doutorado parece ser um pouco exíguo. Gostaria de saber a opinião de colegas a este respeito. Uma maior interação com profissionais do mercado de trabalho, como das áreas de comunicação, gestão, marketing, empresariado, inovação, etc., seria altamente desejável. Porém é importante que os estudantes não tenham que cumprir um número excessivo de disciplinas para a sua formação. Equilíbrio e bom senso parecem ser termos essenciais na re-avaliação contínua do sistema da pós-graduação brasileira.

Um maior envolvimento dos estudantes de pós-graduação nesta avaliação seria essencial. Afinal, são estes estudantes os mais interessados em que o sistema seja robusto, eficiente e de boa qualidade. E almejar a excelência acadêmica não é pecado. Tampouco empregos que valorizem adequadamente estes profissionais.

Por fim, cabe aos professores/pesquisadores um maior envolvimento na elaboração dos programas de pós-graduação. Criticar os programas, a CAPES, as instituições, o governo é fácil. Trabalhar para uma real contribuição para a melhoria do sistema de pós-graduação é que são elas.

ResearchBlogging.orgFiske, P. (2011). What is a PhD really worth? Nature, 472 (7343), 381-381 DOI: 10.1038/nj7343-381a



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12 respostas

  1. Roberto

    Não há críticas a CAPES, ela está fazendo o papel dela. A crítica que deve ser feita é à Academia como um todo, que transforma a CAPES como o único padrão de qualidade da Universidade.

    Por exemplo, conheço um curso nota 7 da CAPES, que fica todo satisfeito por sua nota, mas não consegue formar mais de cinco alunos de graduação por ano. E na área faltam graduados.

    • Caro Rogério,

      Existem, sim, críticas à CAPES, algumas pertinentes (no meu ponto de vista), outras nem tanto. De qualquer maneira, como você diz, quem faz a CAPES somos nós, acadêmicos.

      Este exemplo que você dá eu também conheço.

      abraço,
      Roberto

  2. O “paper”, o “paper” é o centro de tudo, se ele vai servir a população que o está pagando, isto é detalhe, o importante é a publicação na boa revista.

  3. Caro Roberto,

    O problema é dos mais complexos, alguns aspectos são comuns a qualquer país (como a crise econômica) e em teu post apontas vários nós terríveis que enfrentamos especificamente aqui no Brasil, tais como o processo esquisito de seleção de novos docentes (pouco capaz de selecionar competência, muito capaz de selecionar quem tem certos pedaços de papel). Piaget não conseguiria entrar na Pedagogia em universidade pública, Freud seria impedido de lecionar para Psicologia e por aí vai. (“Será que há algo errado no sistema?”). Há honrosas exceções – usualmente, programas/departamentos de alto nível que querem e conseguem se dar ao luxo de selecionar os melhores.

    Outro conceito que acho esquisitíssimo é o impedimento de “trabalho” aos bolsistas pós-graduandos. Claro que é pouco produtivo fazer doutorado com bolsa e ao mesmo tempo ser caixa de banco, mas a docência e a atividade profissional na área de estudo não apenas ajudam; são essenciais. Temos professores de cálculo estrutural (eng. civil) que nunca assinaram uma planta como responsáveis, professores de psicologia que não sabem dar diagnóstico porque só leram sobre o assunto etc. etc. Não servem para a iniciativa privada e também são fracos para a academia se tiverem que lecionar. Isso é especialmente danoso nas áreas aplicadas. Portanto, a meu ver, a decisão de deixar os pós-graduandos “trabalharem” sob certas condições foi muito acertada.

    A imposição rígida dos prazos para mestrado e doutorado também é coisa que pode funcionar dentro de limites estritos (por exemplo, se todos recebessem bolsa com dinheiro público, até que seria razoável cobrar a conclusão naqueles prazos), mas é irracional porque pune justamente os orientadores e programas que conseguem financiamento privado vinculado a projetos – que não seguem a agenda da Capes, têm prazos diferentes. É mais um exemplo de preferência por papéis e números cabalísticos em detrimento dos Resultados.

    No post, dizes que “A formação em programas mais abrangentes, inter-multi-transdisciplinares, é altamente desejável, mas as iniciativas nesta direção são ainda tímidas.” São tímidas porque o sistema universitário brasileiro trabalha contra (tudo é rigidamente departamentalizado, até os comitês da Capes e CNPq e só se admite valor na pesquisa disciplinar) e porque em si a coisa é difícil, dá muito trabalho e o retorno é duvidoso. Como docente de um programa interdisciplinar, me vi na situação de ter que estudar coisas que não vi na minha formação (e pouquíssima gente vê), mas são essenciais para o trabalho interdisciplinar, em especial um conhecimento de espectro amplo sobre visões de mundo na filosofia da ciência. Para um químico, a visão de mundo é positivista (ou pelo menos positivista-like), mas há áreas do conhecimento em que a visão de mundo estabelece coisas como “a molécula é uma construção social”. Não adianta só declarar que essa visão é absurda (talvez eu tenha usado um exemplo extremo); é preciso ouvir as correntes que têm essa base filosófica e buscar compreender, buscar dialogar. Não quero dizer que é possível sempre, mas assumir posições dogmáticas não ajuda a construir pontes entre as disciplinas.

    Obrigado por manter um excelente blog. Sou leitor “de carteirinha”.

    Abraço,

    Vinícius Kern
    UFSC/Ciência da Informação

    • Oi Vinícius,

      Obrigado pelo longo comentário, e me restringirei ao ponto do trabalho em paralelo com a pós-graduação. Durante muito tempo isso foi proibido por razões legais. Recentemente o trabalho em paralelo com a pós-graduação foi considerado legal do ponto de vista jurídico, e os alunos podem trabalhar. A questão é: até que ponto, em determinadas áreas do conhecimento, é possível se trabalhar ao mesmo tempo em que se desenvolve um projeto de pesquisa? Ou, ainda mais, um projeto de pesquisa “de ponta”, como é o que se deseja hoje em dia para a ciência brasileira? No mais das vezes, deve haver um acordo entre o estudante e o orientador. São questões interessantes, e que merecem ser discutidas.

      Cordialmente,
      Roberto

  4. Prezado Roberto,

    Sou da opinião que é importante produzir PhDs de qualidade. Dos BICs citados, China e India estão “cranking out” PhDs a qualquer custo – o que importa é a quantidade. Veja esse artigo na Nature News http://www.nature.com/news/2011/110420/pdf/472276a.pdf

    Embora a formação de doutores seja feita com dinheiro público, espero que a sociedade veja que esse é um uso justificado de seus tributos. Para melhorar o retorno no investimento, acho que devemos despertar o espírito empreendedor desses jovens, já que a economia do futuro será baseada em ciência e conhecimento, e não somente na exploração de atividades primárias, como fazemos ainda hoje. Uma empresa tecnológica bem sucedida gera riquezas para a sociedade na forma de bons empregos e impostos.

    A grande questão para mim é: os orientadores acadêmicos estão preparados para despertar o espírito empreendedor desses alunos?

    Obrigado,

    Fabio

    • Caro Fabio,

      Acredito que na maioria das vezes o dinheiro público está sendo bem empregado na pós-graduação. Mas isso não significa que não possamos discutir formas de aprimorar a formação dos alunos, por várias razões, inclusive para justificar o uso do dinheiro público.

      Quanto a sua pergunta, acredito que bem poucos, poucos mesmo, orientadores estão preparados para despertar o espírito empreendedor de seus alunos.

      abraço,
      Roberto

    • Para todos:

      http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=77250

      Em tempo, me parece que a opinião da Profa. Elizabeth Balbachevsky, da Faculdade de Educação da USP, é mais lúcida do que a do secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação (MEC), Luiz Cláudio Costa. Esse negócio de aumentar o número de alunos matriculados no ensino superior, indiscriminadamente e a qualquer custo, não me agrada nem um pouco.

  5. Caro Roberto,
    Concordo com os comentários acima sobre a fraca formação do doutorado no Brasill. Houve uma degradação do ensino de forma geral, não vejo como poderia ser diferente com o “doutorado”.

  6. Roberto

    Que publicar é importante, mas o mais importante é publicar o que importa!

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