O professor Sergio Machado Rezende, formado em Engenharia Eletrônica (1963) e doutor pelo Massachusets Institute of Technology, além de ser pesquisador atuante, mesmo durante sua atuação como Ministro da Ciência e Tecnologia entre 2005 e 2010, iniciou sua carreira de gestão científica em 1969 no CNPq. A partir de então praticamente nunca deixou de atuar como science promoter: na implantação dos primeiros grupos de pesquisa e programa de pós-graduação do Departamento de Física da UFPE; foi membro dos conselhos da SBPC e da SBF (Sociedade Brasileira de Física); foi vice-presidente da International Union for Pure and Applied Physics; foi assessor do governo Miguel Arraes em Pernambuco; participou da criação da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco, a primeira Fundação de Amparo à Pesquisa do Nordeste brasileiro, sendo seu primeiro diretor científico; entre 1995 e 1998, foi Secretário Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do estado de Pernambuco; de 2001 a 2003 foi Secretário do Patrimônio, Ciência e Cultura de Olinda; de 2003 a 2005 foi presidente da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos). Além de sua longa e frutífera carreira como cientista e gestor científico, Sergio Rezende também teve tempo para escrever e oportunidade para publicar inúmeros textos relacionados ao desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. O seu “Momentos da Ciência e Tecnologia no Brasil” (Vieira & Lent, 2010) é uma compilação de 70 destes textos, publicados em jornais, no “Jornal da Ciência”, no Boletim da Sociedade Brasileira de Física, na forma de capítulos de livros e de documentos oficiais.
O livro apresenta a vivência do autor sobre o assunto em questão, sobre o qual sempre refletiu e expressou suas ideias. Abordando temas como os órgãos de fomento, desenvolvimento científico e tecnológico no Nordeste, propostas para a melhoria da política científica do país, interação universidade-indústria, estabelecimento de estratégias e prioridades para a ciência, tecnologia e inovação (CTI), propostas para resolução dos problemas de geração de energia, do programa espacial brasileiro e, last but not least, as propostas e metas para a CTI durante o governo Lula.
No seu livro o prof. Rezende traz uma coletâneas de textos em que expressa suas ideias de maneira cristalina e bem escrita, sem floreios nem devaneios, uma virtude para textos desta natureza. É interessante perceber como suas convicções mudaram muito pouco ao longo de 40 anos. Mostra que sempre esteve bem informado sobre o assunto, não somente no âmbito nacional. Seu pensamento crítico é digno de nota para aqueles que pensam que bons cientistas deveriam se limitar a escrever sobre sua área de atuação, já que, segundo seu Currículo Lattes, o Prof. Rezende “trabalha em pesquisa na área de Física de Materiais, com ênfase em Materiais Magnéticos e Propriedades Magnéticas, atuando em física experimental e física teórica, principalmente nos seguintes temas: magnetismo, magneto-óptica, materiais magnéticos, multicamadas magnéticas, materiais nanoestruturados e spintrônica”. Seu CV Lattes indica 214 artigos publicados, todos em revistas científicas. Nenhum dos artigos incluídos em seu livro está listado em seu CV Lattes.
O livro é dividido em oito seções temáticas, em que os textos são introduzidos cronologicamente. Desta forma o leitor pode inserir os questionamentos do autor no seu respectivo momento histórico. As seções são: “Sistema de C&T em Formação no Brasil” (1970-1981); “C&T na Redemocritzação do País” (1985-1987); “Tempos de Crise” (1989-1995); “Pernambuco Desperta para C&T” (1986-1998); “Recuos e Avanços em C&T nos Governos FHC” (1997-2002); “Propostas para C&T no Governo Lula” (1994-2001); “C,T&I no Governo Lula” (2003-2006); “Um Plano de C,T&I para Desenvolver o Brasil” (2007-2010). O livro conta com 426 páginas, e inclui um índice de siglas.
Rezende repetidamente traça históricos sobre a criação e o desenvolvimento dos órgãos de fomento federais, situando sua importância. É questionador das políticas pouco eficazes, de caráter duvidoso, bem como da ausência de políticas científicas. Critica repetidamente os governos Sarney e Fernando Henrique Cardoso como momentos de crise da ciência e tecnologia no Brasil. Reconhece a importância da política científica consistente implementada no estado de São Paulo pela FAPESP desde sua criação em 1961. Não deixa de manifestar opiniões contundentes, como de crítica ao governo FHC quando chegou a extinguir momentaneamente o MCT:
“Afinal, por que o novo Governo faria uma reforma administrativa extinguindo um ministério enxuto e eficiente, com um orçamento pequeno diante de vários outros? Por que outra marcha a ré em C&T no momento em que o Brasil mais precisa dela para aperfeiçoar a base científica e tecnológica de suas atividades produtivas? É difícil encontrar outra explicação que não a miopia daqueles que só conseguem enxergar o Brasil com a ótica de São Paulo.” (p. 129)
Ou ainda quando se manifesta sobre a aprovação dos primeiros projetos aprovados no âmbito do programa PRONEX (Programa de Apoio a Núcleos de Excelência):
“Quase 500 grupos ou conjuntos de pesquisadores submeteram projetos, dentre eles muitos que realmente não necessitam de recursos adicionais para financiar suas atividades de pesquisa e assegurar sua estabilidade, principalmente os felizardos colegas de São Paulo.” (pp. 170-171)
Muito propriamente o Prof. Rezende critica os retrocessos da política da ciência e tecnologia, momentos em que o apoio a esta era de primordial importância para o desenvolvimento nacional. E reconhece o valor da criação dos Fundos Setoriais e sua importância como estratégia alternativa para o financiamento de projetos de CTI, bem como apresenta uma avaliação positiva da gestão de Ronaldo Sardenberg frente ao MCT.
Não se ilude, contudo, com a necessidade de se implantar iniciativas para fortalecer a pesquisa aplicada em detrimento à pesquisa fundamental (básica). O Prof. Rezende valoriza igualmente ambas, pois sabe que “o sistema de pesquisa básica não pode parar de crescer, pois a comunidade científica é ainda pequena para as necessidades do país” (p. 182)
Rezende apresenta suas propostas de gestão e de política científica, senão na íntegra pelo menos no seu escopo geral, para o mais longo período democrático vivido pelo Brasil, de consistência inquestionável. Porém, algumas só puderam ser parcialmente atendidas, principalmente por falta de investimentos na infra-estrutura do país, ou foram atendidas sem que se desse a devida atenção à maneira como implementá-las, comprometendo por vezes a qualidade dos resultados obtidos. O Prof. Sergio Rezende certamente deve ter ficado bastante surprêso com o corte de quase 25% do orçamento do MCT neste ano.
Considero os capítulos mais interessantes do livro do Prof. Rezende “A evolução da política de C&T no Brasil” (p. 301), “O plano de ação em ciência, tecnologia e inovação 2007-2010” (p. 331) e “Balanço do PACTI e metas para C, T & I em 2022” (p. 390). Nestes o autor traça panoramas sobre o passado, o presente e apresenta projeções para um futuro viável do desenvolvimento científico e tecnológico de nosso país. O livro do Prof. Sergio Rezende é leitura obrigatória para aqueles que quiserem melhor conhecer e compreender a evolução do sistema de C&T no Brasil, sob a ótica daquele que certamente foi um de seus principais atores.
Categorias:política científica
Roberto,
Parabéns pela resenha. Mesmo não apresentando maiores detalhes do livro, cumpre o importante papel de convidar e estimular novos leitores para a obra. A contribuição do Prof. Rezende foi (e é) muito importante apesar de sua visão administrativa (do Prof. Rezende) contaminada (negativamente) por suas preferências políticas – partidárias.
Abraços,
Aprigio
Caro Aprígio,
Obrigado pelo comentário e por sua observação. Realmente, faltou falar um pouco sobre a estrutura do livro. Inseri um parágrafo sobre.
abraço,
Roberto
Antonio,
Você tem razão. O próprio autor inicia o livro com a célebre frase que o ex-presidente gostava de repetir: ‘nunca na história deste país..’ Entretanto, como mostra a entrevista de Israel Vargas, disponível neste blog, a realidade não é tão rósea como pinta Sérgio Rezende. O livro é prefaciado por ninguém menos que o próprio Lula, que chama Rezende de ‘ativista disciplinado’.
Reportagem publicada pela Folha de São Paulo, em 01 de maio deste ano, denuncia como o Ministèrio da Educação está distribuindo livros para os alunos do ensino fundamental com elogios ao governo passado e críticas aquele que o antecedeu. Não demora muito, FHC vai se tornar uma ‘não pessoa’, como em 1984, de George Orwell.