Enzima cataliza reação de cicloadição [4+2]

As reações de cicloadição pertencem a uma classe de reações “especiais” por seguirem regras muito particulares – as chamadas regras de Woodward-Hoffmann. Estas regras se fundamentam na teoria dos orbitais de fronteira, uma teoria extremamente elegante, proposta ao mesmo tempo por Hoffmann e Fukui. Embora pareçam difíceis de serem compreendidas, as regras de Woodward-Hoffmann são relativamente simples, e explicam a formação de ligações químicas através da interação de orbitais moleculares maior energia ocupados por elétrons – os orbitais chamados de HOMO, highest occupied molecular orbitals – com orbitais moleculares de menor energia que não estão ocupados por elétrons – orbitais chamados de LUMO, lowest unnoccupied molecular orbitals1.

Dentre as reações de cicloadição, a reação do tipo [4+2] é considerada a mais comum. Porque se chama “do tipo [4+2]”? Porque resulta da interação de um reagente com 4 elétrons em ligações π com outro reagente que possui 2 elétrons em uma ligação π. Daí o nome [4+2]. Também é conhecida como sendo reação de Diels-Alder, em homenagem a seus dois descobridores (que ganharam, por isso, o prêmio Nobel de química em 1950).

A reação de cicloadição do tipo [4+2] é extremamente versátil, e muito utilizada em síntese de moléculas orgânicas. Porém, o mais interessante é que se suspeita que muitos produtos naturais originários de organismos vivos sejam formados bioquimicamente por uma etapa envolvendo uma reação deste tipo2. Porém, até uma semana atrás não se conhecia um processo enzimático específico que fosse responsável por promover uma reação de cicloadição [4+2].

No primeiro artigo do número da revista Nature da semana passada os autores apresentam evidências de que um produto natural isolado de uma bactéria, Saccharopolyspora spinosa, é formado por um processo catalizado por uma enzima que promove uma reação de cicloadição [4+2]. Uma descoberta e tanto. A enzima responsável pela reação do tipo [4+2] atua no processo de biossíntese da spinosina A.

A siposina A (estrutura 1 no esquema a seguir; clique na figura para ampliar) é um componente ativo de vários inseticidas utilizados comercialmente. Muito já se especulou como sua estrutura complexa seria formada. Principalmente o anel do tipo ciclohexeno presente na estrutura 1 (destacado em vermelho). Diferentes autores já propuseram que este ciclo seria formado por uma reação do tipo cicloadição [4+2], catalizada por uma enzima do tipo “Diels-Alderase”.

De maneira a investigar a rota biossintética da formação da spinosina A, os autores do trabalho da Nature tentaram descobrir a função dos produtos de quatro genes de S. spinosa, denominados spnF, spnJ, spnL e spnM3. No seu conjunto, tais genes são responsáveis pela transformação do macrociclo 2 no composto tetracíclico 4. O gene spnJ já havia sido previamente estudado, e observou-se que codifica a formação de uma enzima do tipo desidrogenase dependente de flavina, responsável pela oxidação do grupo H-C-OH da posição 15 da substância 2 dando origem ao grupo C=O do mesmo carbono na substância 3.

Os genes spnF, spnL e spnM foram heterologamente super-expressos pela bactéria Escherichia coli4, e seus produtos foram purificados. Cada uma das proteínas biossintetizadas foram testadas sobre o substrato 3. A transformação da substância 3 foi observada após 2 h de incubação com a proteína SpnM, dando origem à substância 8, passando pela formação da substância 5. Ou seja, o processo catalizado por SpnM compreenderia duas etapas: a desidratação-1,4 da substância 3 seguida da cicloadição transanular do tipo [4+2] entre os carbonos da substância 5 situados nas posições 4 e 7 por um lado e 11 e 12 por outro lado. Porém, verificou-se que a enzima SpnM é responsável somente pela etapa de desidratação. Por isso, os autores pensaram que a reação de cicloadição ocorreria espontaneamente, sem a necessidade de uma enzima catalizadora. Todavia, quando a substância 5 foi incubada na presença de SpnF observou-se a formação do produto 8. E a formação de 8 mostrou ser dependente da concentração de SpnF, que apresenta um atividade enzimática de kcat 14 +/- 1,6 min-1, correspondendo a um aumento estimado de taxa  de conversão de 5 para 8 de 500 vezes (ou seja, a conversão de 5 em 8 é cerca de 500 vezes mais rápida na presença de SpnF).

A função de SpnG mostrou estar associada à transformação da substância 8 para formar a substância 10. Esta última substância é, por sua vez, o substrato da enzima SpnL que dá origem ao composto 13, o precursor imediato da spinosina A.

A maneira como a enzima SpnF realiza a conversão de 5 em 8 parece indicar que atua favorecendo uma reação do tipo Diels-Alder. Porém, o mecanismo de formação de 8 não pôde ser totalmente confirmado. É necessário que se confirme que a reação ocorre em uma só etapa, com um estado de transição ilustrado pelo composto 6. Os autores argumentam que no estágio atual da investigação do mecanismo da formação de 8 não se pode descartar uma outra possibilidade: que a reação ocorra através da formação de um intermediário dipolar do tipo 7. Fato interessante, outros pesquisadores que realizaram a síntese química da spinosina A utilizaram reações análogas àquelas atribuídas às enzimas SpnF (cicloadição [4+2], tipo Diels-Alder) e SpnL (reação de Rauhut-Currier).

A enzima SpnF é a primeira que cataliza especificamente uma reação de cicloadição do tipo [4+2]. Outras enzimas já foram obtidas de outros microrganismos que catalizam reações do tipo cicloadição [4+2] e outras reações, não sendo, assim, específicas. Caso se verifique que a reação de conversão de 5 em 8 seja realmente uma reação de Diels-Alder, a enzima SpnF deverá ser o primeiro exemplo de uma Diels-Alderase.

Notas e referências

1. Para uma explicação sobre as regras de Woodward-Hoffmann e sobre a teoria dos orbitais de fronteira, veja aqui.

2. Uma excelente revisão bibliográfica sobre este tópico: Oikawa, H. and Tokiwano, T. Enzymatic catalysis of the Diels–Alder reaction in the biosynthesis of natural products. Nat. Prod. Rep., 2004, 21, 321-352.

3. Na notação atual, spnF, spnJ, spnL e spnM são genes que codificam a formação de proteínas SpnF, SpnJ, SpnL e SpnM.

4. A expressão heteróloga de um gene consiste em transferi-lo do organismo do qual toma parte no genoma para outro organismo, em geral uma bactéria. Uma vez transferido, deverão ser encontradas condições necessárias para a expressão do gene pelo organismo que o recebeu. A vantagem da expressão heteróloga de genes por Escherichia coli é que esta bactéria é muito bem conhecida, podendo ser facilmente manipulada e crescida em meio de cultura.

ResearchBlogging.orgKim, H., Ruszczycky, M., Choi, S., Liu, Y., & Liu, H. (2011). Enzyme-catalysed [4+2] cycloaddition is a key step in the biosynthesis of spinosyn A Nature, 473 (7345), 109-112 DOI: 10.1038/nature09981



Categorias:biossíntese, química de produtos naturais

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6 respostas

  1. Muito interessante a postagem. Gostei bastante. Não sabia da possível existência desse tipo de enzima.
    Parabéns Prof.

    • Oi Isac,

      Dê uma olhada na referência Nat. Prod. Rep. que eu deixei na postagem. Existem muitos exemplos de PN que podem, teoricamente, ter uma rota de biossíntese com uma etapa de cicloadição [4+2].

      abraço,
      Roberto

  2. Olá prof.!

    Achei bastante chamativa esta “descoberta”, não tinha nem noção que poderia existir uma enzima específica pra DA…irei apresentar um seminário por esses dias desse assunto, vou mencionar o trabalho com certeza…

  3. Bela postagem. A descoberta desta enzima específica para cicloadição [4+2] abre um importante precedente para um melhor design racional de enzimas com esta finalidade, que pode até a vir a encontrar utilidade na indústria. Quem sabe?
    Curiosamente, e de forma resumida, em 1982 um pesquisador da divisão de Produtos Naturais da Eli Lilly que se encontrava no Caribe curtindo as férias, visitou uma destilaria de rum abandonada e aproveitou para coletar amostras do solo. Três anos mais tarde, os produtos de fermentação destas amostras mostraram ter atividade inseticida no laboratório. Surgia assim um exemplo de origem natural de um inseticida chamado Spinosad que é a mistura da Spinosina A e D.

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