Impressões sobre Otto Richard Gottlieb

Minhas impressões e recordações sobre o trabalho e o próprio Dr. Otto R. Gottlieb são bastante fortes. Isso porque, mesmo não tendo tido nenhuma ligação direta com o mesmo e sua obra, tanto um quanto a outra permearam diretamente minha formação. As razões disso foram duas: em primeiro lugar porque muito antes de ingressar no curso de química da UNICAMP meu interesse por plantas medicinais era intenso, e depois por que minha iniciação científica sob a orientação do Prof. Lauro E. S. Barata no Instituto de Química da UNICAMP versou sobre a síntese de análogos e derivados de neolignanas 8.O.4’. As neolignanas foram descobertas pelo grupo do Prof. Otto Gottlieb em 1972,1 e Lauro Barata foi um dos pesquisadores que trabalhou com este grupo de compostos quando isolou a virolina e a surinamensina de Virola surinamensis. Tanto meu projeto de iniciação científica quanto os relatórios das bolsas da FAPESP continham, obviamente, referências ao trabalho de Gottlieb. Lembro-me do primeiro trabalho que li de sua autoria, publicado na revista Química Nova,4 bem como de sua extensa revisão sobre neolignanas.5

Portanto, desde cedo na minha formação tive a influência indireta de Gottlieb no meu trabalho de pesquisa e, consequentemente, não pude deixar de comprar seu livro Micromolecular Evolution, Systematics and EcologyAn essay into a novel botanical discipline.6 Livro que, confesso, tentei ler por diversas vezes, mas sempre o considerei por demais difícil. Mesmo assim, tentei entender o que dizia um livro sobre química de produtos naturais escrito em inglês por um pesquisador brasileiro, fato este que me causou profunda impressão por sua importância. Por isso mesmo, fiz questão de levar o livro comigo à Reunião Anual sobre Evolução, Sistemática e Ecologia Micromoleculares, realizada na FCFRP (USP), em 1987, pois tinha certeza que lá encontraria o autor e tentaria conseguir uma dedicatória no meu valioso exemplar. O Prof. Otto Gottlieb ficou bastante surpreso quando confessei ser estudante de iniciação científica e ter comprado um exemplar do seu livro, o qual muito gentilmente me autografou. Difícil de esquecer tal reunião científica, durante a qual pela primeira vez assisti não somente ao próprio Gottlieb como também a seu ilustre questionador, Prof. Keith Brown, do Instituto de Biologia da UNICAMP. Lembro-me deste, em sua palestra, dizer que “alguns estudam plantas como uma pessoa tateia elefantes com olhos vendados, descrevendo estes como se fosse somente suas pernas, ou tromba, ou rabo”, mas na ocasião não entendi o que o Prof. Brown queria dizer com isso. Nesta mesma RESEM conheci Massuo Kato e Maysa Furlan (eles se lembram).

Pouco tempo depois, li a revisão Chemical Systematics, publicada na revista Natural Product Reports por Waterman and Gray,7 na qual os autores questionavam Gottlieb da seguinte maneira:

Unfortunately, in practice Gottlieb’s systems are often very complex and difficult to follow, they are rigid in their definitions, and they tend to divorce chemical from other systematic data. The taxonomic value of his approach has also been questioned, particularly on two counts. First, in reality not all compounds warrant the equal weighting that is assigned to them in non-discriminatory systems. It is necessary to decide just what components are of taxonomic value, and these alone should form the basis of the numerical computation. These will usually be the components that accumulate in major amounts and as end-products of biosynthetic pathways. To arrive at a score for all of the compounds that are present and then to divide by the total number of compounds is no substitute for the correct interpretation of data for focal compounds. Secondly, account has to be taken of the fact that biosynthetic pathways are often reticulate; that is, it is possible to arrive at a given profile of secondary metabolites by more than one biosynthetic route.

Na época fiquei bastante surpreso por ler sobre o trabalho de Gottlieb questionado, afinal ouvia o nome dele sempre como sendo o de alguém que detinha um enorme conhecimento e entendimento sobre o trabalho que desenvolvia. Mas eu ainda não sabia que o questionamento constitui a essência da ciência, e, como tal, deve ser considerado para ser verificado se procedente ou não.

Durante vários anos as ideias do Dr. Gottlieb permaneceram no meu inconsciente, navegando entre as moléculas marinhas. Por isso, surpresa foi descobrir que duas substâncias diferentes tinham sido batizadas com o mesmo nome: variabilina. O hoje já falecido (em 2002) Prof. Faulkner isolou o sesterterpeno variabilina de Ircinia variabilis, uma esponja marinha, em 1973,8 enquanto que artigo de Gottlieb relatou o isolamento da pterocarpana variabilina a partir de Dalbergia variabilis.9 Como na época não existiam ferramentas de busca eletrônicas, certamente nomes iguais devem ter sido utilizados para substâncias diferentes muitas vezes. Me pergunto se, ao descobrir que o nome variabilina havia sido utilizado por Gottlieb para nomear a pterocarpana, Faulkner não teria escrito a este, chamando sua atenção ao fato, e o Dr. Gottlieb, por sua vez, teria entrado em contato direto com a química dos organismos marinhos, e, intrigado e estimulado, teria sugerido a algum(a) de seus(suas) alunos(as) tentar fazer um pós-doutorado com o Prof. Faulkner.

variabilina da esponja Ircinia variabilis

variabilina de Dalbergia variabilis

Voltando a Gottlieb, depois da variabilina li muito ocasionalmente trabalhos de caráter mais “filosófico”, como o seu livro “Biodiversidade”.10 Quando em 1998 voltei de pós-doutorado na University of British Columbia, tive a oportunidade de apresentar meu trabalho na XXa Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química, em Poços de Caldas (1999). Para meu grande prazer o Dr. Gottlieb assistiu à minha palestra e, à tarde, no parque central da cidade, encontrei com ele e Renata Borin. Ele, muito gentil, me disse que tinha gostado de minha apresentação porque eu tinha feito os desenhos das moléculas em tamanho grande, fácil de serem vistas. Confesso que achei muita graça nesta observação, e retribuí com uma valiosa informação: a de que eu havia encontrado pelo menos um exemplo na literatura de química de produtos naturais marinhos que ia contra sua proposta de evolução do metabolismo secundário de plantas, na qual os metabólitos mais oxidados estariam presentes em espécies vegetais que teriam surgido mais recentemente ao longo da história evolutiva. Ele achou o exemplo muito interessante, me pediu a referência do artigo (não sei se enviei ou não; não me lembro). Em 2001, quando da XXIIa Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química, tive a inusitada oportunidade de jantar com Gottlieb, que estava sozinho à mesa. Durante a longa conversa sobre vários assuntos, meu reconhecimento da perspicácia do Dr. Gottlieb aumentou ainda mais.

Em 2002 ou 2003, solicitei à Renata Borin cópia de alguns artigos de Gottlieb que julguei serem importantes para um melhor entendimento de uma visão geral sobre o metabolismo secundário de plantas:

Gottlieb, O.R., Kubitzki, K., Ecogeographical Phytochemistry – A Novel Approach to the Study of Plant Evolution and Dispertion, Naturwissenschaften, 1983, 70, 119-126.

Kubitzki, K., Gottlieb, O.R., Phytochemical Aspects of Angiosperm Origin and Evolution, Acta Bot. Neerl., 1984, 33, 457-468.

Gottlieb, O.R., Phytochemistry and the Evolution of Angiosperms, An. Acad. Bras. Ciênc., 1984, 56, 43-50.

Kubitzki, K., Gottlieb, O.R., Micromolecular patterns and the evolution and major classification of Angiosperms, Taxon, 1984, 33, 375-391.

Gottlieb, O.R., The Role of Oxygen in Phytochemical Evolution Towards Diversity. Phytochemistry, 1989, 28, 2545-2558.

Gottlieb, O.R., Phytochemicals: differentiation and function. Phytochemistry, 1990, 29, 1715-1724.

Além de mais complexos, tais artigos ilustram a erudição e o conhecimento aprofundado do professor que dedicou-se quase toda sua vida profissional à investigação de um tema principal.

No meu entendimento particular, de quem nunca foi aluno de Gottlieb, mas sempre acompanhou seu trabalho à distância, penso que dois aspectos se destacam na trajetória daquele que certamente foi um dos mais importantes cientistas que o Brasil já teve: a de formação de recursos humanos e a da busca pelo entendimento de aspectos associados à evolução dos vegetais, como seu interesse científico central. O primeiro é por demais chocante, no bom sentido, quando se observa o número de pesquisadores de química de produtos naturais no Brasil. A divisão de química de produtos naturais é a maior, em número de associados, da Sociedade Brasileira de Química. Certamente isso se deve, pelo menos em parte, ao legado do Dr. Gottlieb, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade. TODOS os principais grupos de pesquisa desta área no Brasil têm profissionais formados sob a orientação do Dr. Gottlieb. É uma realidade que ilustra a importância da contribuição do Dr. Gottlieb para a constituição deste quadro de pesquisadores que se debruça sobre um dos aspectos do estudo da biodiversidade brasileira. O segundo, o da ciência Gottlibeana, é contundente por sua contribuição seminal na descoberta de uma nova classe de metabólitos secundários e na proposição de uma teoria que mostra o vigor e a profundidade de sua dedicação científica. Tenho a impressão que Gottlieb nunca foi muito afeito à participação em comitês, órgãos, etc., que tomam tanto tempo de pesquisadores brasileiros notórios e acabam por suprimir o impulso criativo destes pesquisadores. Tendo se dedicado intensamente à sua pesquisa, minha impressão é que Gottlieb nunca perdeu o foco, nunca se preocupou com a aplicabilidade dos resultados de suas investigações, ou com o impacto de suas publicações, ou com a visibilidade de seu grupo de pesquisa. A sensação que tenho é que Gottlieb era um homem preocupado com a ciência e com a educação. Mas são apenas conjecturas de alguém que sempre esteve distante da real convivência com o Dr. Gottlieb. Outros poderão dizer que eu estou completamente enganado.

Resta então conjecturar sobre as lições que ficam do legado de Gottlieb. Sua obra científica e a sua gigantesca contribuição para a ciência do Brasil, que se reflete na constituição dos inúmeros grupos de pesquisa em química de produtos naturais deste país, não poderão jamais ser esquecidos.

Penso que a primeira lição que Gottlieb ensina é a da importância da geração do conhecimento. Ao buscar conhecer a química das plantas, Gottlieb certamente estava buscando conhecer estas cada vez mais profundamente, e entender qual o real significado do metabolismo secundário vegetal. Tenho a impressão que Gottlieb gostaria de ter vivido mais 90 anos para esmiuçar sua pesquisa até o último detalhe. Quando consideramos nosso tempo para a pesquisa, percebemos como este é curto. Principalmente em decorrência do tempo gasto com inutilidades, que abundam em nossas atividades acadêmicas. Novamente, tenho a impressão que Gottlieb soube gerenciar muito bem seu tempo, e perdeu muito pouco deste com bobagens. O que ilustra mais uma de suas várias virtudes. Virtude esta tão essencial para que se possa aprofundar na busca, geração e disseminação do conhecimento, o que Gottlieb fez tão bem.

Também, ao estudar o metabolismo secundário das plantas, imagino que Gottlieb devia ser apaixonado pela VIDA, em toda sua riqueza de expressões, tanto vegetais quanto humanas. Tendo se dedicado tantos anos estudando plantas e formando estudantes e pesquisadores, a vida do Dr. Gottlieb foi permeada de VIDA, com uma intensidade talvez difícil de ser mensurada. E valorizando tanto a VIDA, certamente teria ficado chocado com o atual desprezo por esta por parte de nossos políticos. Não sei se tomou conhecimento do novo Código Florestal. Sinceramente, espero que não. Também não sei o quanto esteve ciente, ao longo dos últimos 10 anos, dos problemas associados à obtenção de autorizações para a pesquisa sobre a biodiversidade brasileira. Espero que pouco. Afinal, são duas diretrizes político-administrativas do Brasil que vão completamente contra o significado da vida e obra do Dr. Gottlieb. Não deixa de ser irônico, para não dizer trágico.

Para concluir, não posso deixar de manifestar minha profunda admiração pelo homem, pelo cientista e pelo educador. Como todos nós, certamente com suas idiossincrasias. Porém, muito além de nós, com sua enorme capacidade de buscar entender o mundo a sua volta.

Referências

1. Lima, O.A., Magalhães, M.T., Gottlieb, O.R., Chemistry of Brazilian Lauraceae. 20. Burchellin, a neolignan from Anibaburchelli. Phytochemistry, 1972, 11, 2031.

2. Barata, L.E.S., Baker, P.M., Type Lignans from Virolasurinamensis. An. Acad. Bras. Cienc., 1977, 49, 387-388.

3. Barata, L.E.S., Baker, P.M., Bottlieb, O.R., Ruveda, E.A., Neolignans from Virola surinamensis. Phytochemistry, 1978, 17, 783-786.

4. Gottlieb, O.R., Yoshida, M., Lignóides – Com Atenção Especial à Química das Neolignanas. Quim. Nova, 1984, 7, 250-272.

5. Gottlieb, O. R., Neolignans. Progress In The Chemistry Of Organic Natural Products. 1978, 35, 1-72.

6. Gottlieb, O.R., Micromolecular evolution, systematics and ecology An essay into a novel botanical discipline, Springer-Verlag, Berlin, Heidelberg & New York, 1982, 170 pp., 80 Figs.

7. Waterman, P.G., Gray, A.I., Chemical systematics. Nat. Prod. Rep., 1987, 4, 175-203.

8. Faulkner, D.J., Variabilin, an antibiotic from sponge, Ircinia variabilis. Tetrahedron Lett., 1973, 39, 3821-3822.

9. Kurosawa, K., Ollis, W.D., Sutherland, I.O., Gottlieb, O.R., Isoflavonoid constituents of Dalbergia and Machaerium species. 1. Variabilin, a 6a-hydroxypterocarpan from Dalbergiavariabilis. Phytochemistry, 1978, 17, 1417-1418.

10. Gottlieb, O.R., Kaplan, M.A.C., Borin, M.R.M.B., Biodiversidade – Um enfoque químico-biológico. Editora UFRJ, 1996.



Categorias:química, química de produtos naturais

Tags:, ,

6 respostas

  1. Li emocionado o texto sobre o trabalho científico do meu pai e as conjecturas a respeito de suas lições e de seu estilo de vida. Posso dizer que o Roberto chegou muito perto da visão que eu tenho a respeito da trajetória do meu pai.

  2. Que belo depoimento, Roberto!

    Um testemunho vivo da influência que um grande cientista na trajetória de pesquisa de outro cientista!

    Gostei muito!

    • Parabéns, professor, por fazer das palavras de todos nós pesquisadores da área de produtos naturais e, de certa forma, discípulos do professor Otto, as suas. É difícil encontrar palavras para descrever o ser humano e o pesquisador OTTO R. GOTTLIEB.

      Só tenho a agradecer ao homenageado e ao homenageador!

      Fabíola Dutra Rocha

  3. Belíssimo texto! O professor Otto era realmente apaixonado por todas as formas de vida. Tive a oportunidade de ve-lo alimentando religiosamente todos os animais da UFF todas as manhas. Desde a parte de baixo, subia o morro do valonguinho até o Instituto de química, com sua mochila, dando comida aos gatos, cachorros e pombos. Praticamente um messias pra aqueles que o esperavam todas as manhas!
    Se notava de longe sua consciencia plena e elevada. Grande homem da ciência e educador por natureza. Muito bem definido em seu texto por sinal, Berlinck.

    • Oi Bruno,

      Obrigado por você ter gostado do texto. Eu sempre tive a impressão que o Prof. Otto Gottlieb esteve em estado de graça com a natureza, a pesquisa que realizava e com os alunos com os quais interagia.

      abraço,
      Roberto

Deixar mensagem para Bruno Cancelar resposta