Para se pensar?

Terminar/iniciar um ano é uma ocasião que mexe com o íntimo das pessoas. Muitas falam do que fizeram , ou não, tentaram e conseguiram ou falharam. O contentamento e a frustração se misturam, em um sentimento (?) ou sensação (?) que nos torna mais humanos. Não deixa de ser uma época importante por provocar uma introspecção auto-analítica, auto-perceptiva. Um buscar “uma diferença” para o ano seguinte, com auto-promessas, perspectivas e ambições, às vezes ousadas, ou cautelosas.

Em meio às reflexões usuais de fim/início de ano, caberia aos cientistas/pesquisadores uma reflexão sobre o que foi realizado e as expectativas? Tenho a impressão que muitos colegas e amigos pesquisadores/cientistas não separam, quase nada, a felicidade pessoal e a satisfação da realização da pesquisa. Será que para a maioria dos cientistas/pesquisadores isso é fato? Seria mais por uma satisfação pessoal, realização egoística (como muitos acreditam, e até mesmo criticam), ou por paixão em aprender e ensinar, em buscar respostas e conhecimento?

Levando em conta pesquisas sobre o valor da pesquisa e da tecnologia, existe certo consenso que os resultados do desenvolvimento científico e tecnológico constituem maneiras efetivas para melhorar a qualidade de vida das pessoas em geral, como, por exemplo, ter alimentação e água adequadas, bons serviços de saúde (embora seja difícil de acreditar nisso aqui no Brasil) e segurança. Sem que necessariamente isso tudo garanta felicidade para as pessoas. Mas garante a felicidade dos cientistas/pesquisadores? Afinal, a pesquisa que fazemos é importante para a sociedade?

Não pesquisei, nem irei pesquisar, na internet se existe alguma correlação direta entre a realização da pesquisa mais diretamente voltada para as necessidades sociais e a satisfação pessoal do cientista/pesquisador. A impressão que eu tenho é que, mesmo que a pesquisa científica não seja diretamente relacionada à resolução de problemas sociais de forma imediata, o pesquisador/cientista fica muito satisfeito com suas realizações.

No início deste ano de 2011 escrevi uma postagem neste blog discutindo um possível “contrato social” entre a química e a sociedade, proposto por George Whitesides (veja aqui). Ao terminar o Ano Internacional da Química, seria interessante que os pesquisadores/cientistas considerassem as propostas de Whitesides, cada um no âmbito de sua área de atuação, mas em um contexto global?

A intenção aqui não é estabelecer um conceito de valor sobre o trabalho do pesquisador/cientista, mas apenas apresentar este questionamento.

Eventualmente outras questões poderiam ocupar pesquisadores/cientistas neste período de fim/início de ano (mesmo que muitos prefiram se desligar ou esquecer completamente do trabalho). Por exemplo, se a ciência e a tecnologia contribuem para diminuir a desigualdade social e outras desigualdades (de gênero, raciais, etc.), ou riscos sociais. Ou se a ciência e a tecnologia também servem para prover equidade social, equidade no sentido das necessidades vitais básicas.

Se a resposta for SIM, seria então inevitável se considerar também o oposto? Supostamente um questionamento desta natureza pode trazer certo desconforto a nós, pesquisadores/cientistas.

Deixo, então, mais 3 perguntas para o(a) leitor(a).

– É possível se conseguir uma equidade social tendo por base resultados obtidos do desenvolvimento científico e tecnológico?

– Como as atividades de ciência e tecnologia se relacionam com o conceito e a estruturação da equidade para se buscar o conhecimento de possíveis impactos sociais da pesquisa científica e do desenvolvimento tecnológico?

– Como tais impactos podem ser vislumbrados, levando-se em conta que a ciência busca o novo, o inesperado, o desconhecido, o que é inovador?

Que 2012 seja um ano de muita reflexão e realizações para todos, cientistas/pesquisadores ou não.



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2 respostas

  1. Dom Roberto, a motivação de um cientista pode não guardar nenhuma relação com os resultados do seu trabalho para a sociedade. Einstein foi o maior gênio da humanidade. Nunca pensou sequer nos benefícios pessoais de seu trabalho, que fazia nas horas vagas do escritório de patentes em que trabalhava. Menos ainda nos benefícios para a sociedade. Era apenas movido pela curiosidade. A área de Einstein não oferecia escolhas que se relacionassem com o bem estar da humanidade. Um bioquímico já é diferente. Suas escolhas de campos de pesquisa podem ou não gerar benefícios para a sociedade.

    Eu faço parte da classe que mais mal faz à humanidade: os economistas. Nós dominamos armas de destruição em massa. É desagradável isso. A Europa está passando por um momento limite, por conta de erros de economistas. Por isso, procuro sair da minha área.

    Nas minhas horas vagas, leio sobre biologia evolutiva – tema fascinante.
    Eu tinha imensa curiosidade em saber como os mamíferos chegaram na Austrália. Isso serve para alguma coisa? Não. Na Austrália há 4 mamíferos: o homem, o dingo (um canídeo), o morcego e o rato. Os dois primeiros chegaram lá há menos de 70 mil anos. O homem levou o dingo. O morcego e o rato estão lá há pelo menos 15 milhões de anos. O morcego voa. Não vai muito longe, mas pode cruzar o mar num golpe de sorte. O rato é um mistério.

    Lendo Richard Dawkins, descobri que o rato chegou montado em árvores arrancadas por furacões. É improvável, mas em milhões de anos pode ter ocorrido um caso. Basta o êxito de uma fêmea grávida. Ele citou exemplos de casos constatados de migrações insulares dessa maneira, de lêmures que viajaram assim entre ilhas do Caribe. Tem, também, o repovoamento da ilha de Krakatoa, devastada por um vulcão. Mistério explicado, fiquei feliz com esse conhecimento que não serve para absolutamente nada. Quantas pessoas você conhece que dedicaram algum momento da sua atenção para os ratos da Austrália? Provavelmente só eu.

    Um abraço e um 2012 de muito sucesso em suas pesquisas!

    Marco Polo

    • Caro Marco,

      Não tenho tanta certeza assim que Einstein não tenha pensado nos benefícios para a sociedade de sua pesquisa. Especialmente sua pesquisa sobre movimento eletrodinâmico, que parece ter sido talvez inspirada no trabalho que seu pai realizava em uma fábrica. Einstein teria observado a interação de um ímã (magneto) com um sistema de condução de corrente elétrica. Este teria sido o ponto de partida para estas investigações. Por certo este não foi o único trabalho de Einstein, mas creio que ele devia manter um olho em possíveis aplicações de sua ciência, uma vez que trabalhava em um escritório de … pantentes! E ele não era particularmente rico. Tenho a impressão que muito do que Einstein investigou além da relatividade poderia ser relacionado ao bem estar da humanidade, como diz você.

      Os economistas não fazem mal à humanidade. O problema é como usam os conceitos de economia. John Maynard Keynes foi um grande economista, como outros, que procuram entender como os mercados funcionam, etc.

      Se como os mamíferos chegaram à Austrália pode servir para alguma coisa? Talvez. Tendo em vista que na Austrália foram introduzidas inúmeras espécies, o entendimento deste histórico e deste processo pode, eventualmente, ajudar no manejo desta biodiversidade estranha ao ambiente. Afinal, saber lidar com espécies invasoras é uma das prioridades do governo Australiano há muitos anos. Experimente viajar para a Austrália carregando animais, frutas ou plantas. Simplesmente não irão deixar você entrar. O entendimento da migração de espécies biológicas pode, sim, ser muito útil para a sociedade, economia e meio-ambiente.

      Tudo depende do objetivo da pesquisa, que pode variar muito. Às vezes a gente começa fazendo pesquisa em uma direção, e de repente já está em outra (direção)… Por isso é que é tão legal fazer pesquisa. Nos leva a caminhos inesperados, que, por acaso, podem ser de extrema utilidade para a sociedade.

      Abraço,
      Roberto

      PS – As informações sobre Einstein, acima, foram obtidas do livro “Albert Einstein – Chief Engineer of the Universe”, editado por Jürgen Renn (Wiley-VCH, 2005), páginas 80-84.

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