Belo Monte: quem tem razão?

A usina hidrelétrica de Belo Monte é atualmente objeto de muita discussão e polêmica. A mais recente é a produção de um vídeo de alunos da UNICAMP (veja aqui), em que questionam vídeos anteriores nos quais participaram atores da Rede Globo defendendo a não construção da usina (veja aqui).

Será que a questão aqui não é saber quem está com a razão, e sim de saber se esta é uma questão de opinião ou uma questão que deve ser discutida com base em fatos concretos, bem fundamentados, como avaliações de impacto ambiental, social e cultural, de custo/benefício, de retorno do investimento realizado, da necessidade real em se construir a usina, e se haveriam outras alternativas melhores, ou não?
Na falta de todas estas informações, qualquer discussão sobre o assunto não vai chegar a lugar nenhum, que claramente não é uma questão de opinião.



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8 respostas

  1. Caro Roberto

    Várias vezes tenho entrado em seu site para mais para aprender do que qualquer coisa, considero muito o conhecimento de pessoas como tu que procura o aperfeiçoamento através do trabalho e estudo.
    Neste momento, alguém que sabe da importância deste longo caminho, vem a perguntar:

    Em quem devo acredita quanto a relação de custo/benefício de uma obra da importância da Usina de Belo Monte?

    Devo acreditar nas palavras de estudantes de engenharia de uma das melhores Universidades da América Latina orientados por um professor doutor do ITA e certamente a partir de tudo que apreenderam na escola com o brilhante quadro de professores da UNICAMP? Ou devo acreditar nos Artistas Globais, orientados pelo apelo mediático?

    Eu como Mestre em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, não precisaria de pesquisar muito para verificar que nossos jovens estudantes, cheios de idealismo e despido de preconceitos, são uma fonte mais confiável do que pessoas que por profissão fazem propagandas de desodorante, sabão em pó ou qualquer coisa que lhes dê dinheiro ou mais celebridade.

    Eu com o conhecimento que tenho de trinta e tantos anos de trabalho em hidráulica e saneamento ambiental, e desses tantos anos quase duas décadas no início de minha carreira, dedicados ao setor hidrelétrico, que por outras oportunidades não trabalho mais. Poderia com um breve estudo da documentação de Belo Monte, olhando não só um lado da moeda, mas também a o pretenso lado contrário que seriam os indígenas da região, ter a certeza que esta obra se trata de uma das obras com maior respeito ao meio ambiente e maior compensação ambiental que se está se fazendo no MUNDO atualmente.

    Ou seja, eu teria condições de sem precisar acreditar em ninguém dizer da conveniência de Belo Monte. Entretanto fico extremamente triste quando vejo um acadêmico do teu porte ainda tendo dúvidas sobre quem fala a verdade.

    A suspeição levantada por ti, no momento que colocas estes jovens acadêmicos, idealistas e bem formados no mesmo nível do que figuras Globais, que podem estar até equivocados ou mal informadas (julgando-os da forma mais doce possível), mas certamente sem a mínima formação técnica, mostra um grande preconceito contra os engenheiros e a engenharia.

    Se fosse colocado dois vídeos sobre um problema de saúde pública em que num deles aparecesse uma série de acadêmicos de medicina orientados por um professor de uma excelente faculdade de medicina, e que num segundo aparecesse curandeiros ou outra espécie de leigos no assunto preconizando algo inverso ao primeiro, eu sem a mínima formação em medicina não teria a menor dúvida em quem acreditar.

    Mas engenharia é diferente, os engenheiros são uma categoria profissional que já apreende a não ter ética desde os bancos escolares. Estudantes de engenharia produzem um vídeo a favor de uma dada obra e não de outra, pois no fundo eles querem é destruir a natureza e se locupletar das benesses de uma determinada grande empresa. Talvez até estas dezenas de estudantes de engenharia estejam até fazendo isto para pagar uma viajem na sua formatura?

    Como a engenharia é uma profissão corrupta, é um erro quando não se mostra nos nossos jornais televisivos as centenas de malfeitos desses profissionais!

    Roberto, realmente penso que deves refletir mais quando propor comparações de coisas que são comparáveis, pois fazendo isto como um professor estás colocando dúvidas sobre a qualidade da academia que frequentas e a própria tua capacidade de formar homens e profissionais, não artistas globais.

    • Caro Rogério,

      Eu estava esperando que alguém se manifestasse a respeito da minha postagem.

      Bem, talvez eu não tenha sido muito claro no meu texto. O ponto que eu levanto é que tal assunto não é passível de discussão com base em opiniões. E sim somente com base em uma análise de fatos.

      Qual é o ponto de partida para uma discussão do assunto? O ponto de partida é que a matriz energética do Brasil é deficiente. Principalmente na região norte/nordeste/centro-oeste. Logo, este é o problema tem que ser enfrentado.

      Quais parecem ser as melhores alternativas para a produção de energia na região? Hidroelétricas ou termoelétricas. Isso porque não há na região vento suficiente para se mover um sistema (que necessitaria ser gigantesco) com base em energia eólica para a geração da quantidade de energia necessária. Já a transformação de energia solar em elétrica é pouco eficiente, e também precisaria de uma enorme área (que só seria possível se desmatando). Uma outra alternativa seria uma usina nuclear. Porém, o grau de rejeição de usinas desta natureza atingiu seu máximo com o recente acidente de Fukushima. Além disso, a infra-estrutura necessária para se construir uma usina nuclear na região é deficiente.

      Ou seja, restam usinas termoelétricas e hidroelétricas. Destas, a primeira, além de consumir combustíveis fósseis, é altamente poluente. A segunda causa impacto ambiental, social e cultural. Se descartarmos as termoelétricas como alternativa (por causa do consumo de combustíveis e da poluição), resta somente a hidroelétrica.

      Neste ponto são necessárias as análises mencionadas na postagem, para se conhecer os dados e se julgar a pertinência ou não da construção da usina.

      Note que eu não estou questionando o vídeo dos estudantes da UNICAMP. O que eu digo é que o problema não pode ser abordado por opiniões “eu acho que”, ou “eu acredito que”, ou “eu prefiro que”, etc. O que eu digo é que existe um problema, e o problema precisa ser resolvido. Nada melhor do que a ciência e o conhecimento muito bem fundamentado para fazer as necessárias análises e se estabelecer se a usina de Belo Monte deve ser construída ou não. Neste ponto, eu concordo plenamente com você.

      Veja um debate realizado por especialistas sobre o assunto na USP, inclusive o Prof. José Goldenberg (aqui).

      abraço,
      Roberto

      PS – Na época da construção de Itaipu muito se questionou a formação da represa de proporções gigantescas, que, se não me engano, na época era a maior represa do mundo, e cobriu o parque de sete quedas. Apesar do problema da distribuição da energia elétrica (que é de outra natureza), está mais do que evidente que se Itaipu não tivesse sido construída, este país não teria se desenvolvido da forma como se desenvolveu. E a matriz energética nacional ainda é deficiente.

  2. Olá, Roberto:

    É preciso que se diga também que, mesmo no meio universitário, no caso da própria UNICAMP, não há um consenso a respeito de Belo Monte. Existem professores, como Osvaldo Sevá, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) que não são a favor da obra, e mostram porque, através de farto material de pesquisa. Aliás, eu também procurei pesquisar bastante para ver se chegava a uma posição. Se quiser saber a conclusão a que cheguei, vai o link aí embaixo deste comentário. Nos comentários do meu blog, teve um colega, que mora no Japão, condenando as hidroelétricas e defendendo as nucleares ( isso imediatamente antes do acidente de Fukushima), e teve outro que defendeu a construção de Belo Monte.

    Quanto aos dois vídeos na internet, sou da opinião de que os atores globais seriam, no meu entender, os últimos que teriam argumentos convincentes, afinal de contas eles são ATORES. Além disso, fico pensando: Será que por trás disto não haveria uma intenção de desmoralizar o governo de Dilma, pelo qual, certamente eles, atores, e a Globo não simpatizam? Então, acho que esta jogada da emissora cheira mal, ou seja, para mim, as intenções políticas estão sendo encobertas por uma aparente preocupação ambiental, o que seria lamentável. Pode ser que eu esteja imaginando coisas, mas em se tratando de Rede Globo, não dá pra descartar esta hipótese muito provável.

    De qualquer forma, acho que você faz bem em colocar o tema aqui no seu blog. Vejo que já provocou reações um tanto exacerbadas, como a do colega do comentário anterior, mas pior do que isso seria ficarmos indiferentes a esta questão.

    Abraço.

    http://raiosinfravermelhos.blogspot.com/2011/02/belo-monte-um-mal-necessario.html

    • Prezado Jairo,

      Como você diz, não há consenso sobre a construção de Belo Monte. Porém, a discussão deve se ater aos aspectos técnicos que eu mencionei na postagem e os que você mencionou na sua. Alguns são técnicos e outros nem tanto, mas deveriam ser tratados como tal em uma discussão deste tipo. São muitos aspectos diferentes. Não é uma discussão que deve ser conduzida levando-se em conta valores, que são muito pessoais. Se não existe o “consenso técnico”, então é necessário se analisar com cuidado todos os aspectos, pró- e contra-, de cada um dos lados para se chegar a uma conclusão. De outra forma, não se chegará a lugar algum.

      A colocação do Prof. Sevá é extremamente pertinente. Se a distribuição da energia elétrica fosse muito mais eficiente, e se a rede de distribuição (eficiente) fosse ampliada, possivelmente não haveria necessidade de construção da usina. Mas:
      a) quanto tempo se levaria para ampliar o sistema de distribuição?
      b) quanto tempo se levaria para melhorar o sistema de distribuição?
      Será que estes aspectos não foram analisados por aqueles que estão levando o projeto adiante?
      De novo, eu não estou defendendo a construção da usina, nem sou contra a construção, mas apresento algumas perguntas que devem ser feitas.

      Note que você colocou a parte final do texto do teu blog na forma condicional. O que foi muito sábio de sua parte.

      Muito boa a discussão sobre este assunto no teu blog.

      abraço,
      Roberto

  3. Caro Jairo

    Projetos de melhoria do sistema de distribuição como de ampliação já estão sendo feitos, e se não há apagão neste momento é exatamente devido a isto. Também é possível ampliar a produção de algumas usinas hidrelétricas com a substituição de turbinas, porém todos estas atividades são meramente paliativas e transferem o problema para mais alguns anos.
    Também há o problema que com o processo de privatização uma série de usinas passaram para mãos de investidores e qualquer tentativa de obrigar estes produtores de energia cria quebras de contratos, que farão com que se pague caro por isto.
    A situação da geração de energia está quase no limite é só observar no verão que o consumo anda atingindo quase que a capacidade do sistema em gerar energia.

    • Oi Rogerio,

      Voce que é engenheiro me corrija se eu estiver errado, mas a impressão que se tem é que a capacidade preditiva do governo em épocas passadas era muito ruim (melhorou?). Que a sociedade brasileira em geral é ruim de planejamento, em particular os governos, parece ser de consenso (embora eu tenha a impressão de isto estar mudando).

      De qualquer forma, a matriz de geração de energia do Brasil é deficiente. E infelizmente não existem muitas alternativas. A construção de Belo Monte parece ser inevitável. Se tal for o caso, temos que exigir que seja bem feita, sem os “necessários” superfaturamentos, e que a geração e distribuição de energia sejam as mais eficientes. E que sejam oferecidas compensações condizentes com as necessidades daqueles que deverão ser removidos daquela região. Afinal, se é para ter algum prejuízo, de qualquer tipo, que este seja o menor possível.

      Muito obrigado pela sua presença e do Jairo também. É muito bom discutir assuntos tão importantes com gente bem informada e de alto nível.

      Abraços aos dois,
      Roberto

  4. Roberto

    A resposta a tua pergunta é simples, é só olhares na tua própria área e verificar qual era a “massa crítica” de pesquisadores e profissionais especializados há quarenta anos!

    Os governos passados dispunham de um número de profissionais e informações muito menor do que hoje em dia, a academia era muito mais pobre em termos de recursos de todos os tipos e os recursos tecnológicos infinitamente menores.

    Para dar um exemplo concreto dentro da área hidrelétrica, para se fazer um inventário da capacidade hidrelétrica do Brasil, era necessário esforços altíssimos, hoje em dia com recursos de sensoriamento remoto o que duas centenas de profissionais demorariam dois ou três anos para fazer em 1960, poderá ser feito com o mesmo grau de detalhamento por duas dezenas de profissionais em meses (com um custo infinitamente menor).

    Podemos dizer sem medo de errar, que o potencial para a predição é infinitamente maior (não estou utilizando superlativos só para impressionar, é uma realidade). Posto isto podemos dizer que há hoje em dia é uma miopia dos setores políticos em não aproveitar de forma correta este potencial. Além disto, uma das críticas técnicas que se pode ser feita da tendência liberal dos governos Collor e FHC, é ter achado que o “Mercado” regularia o setor energético, isto pode ser mais ou menos considerado certo para países em que a matriz energética é baseada em termoelétricas, pois estas não são condicionadas a limitantes geográficos (em parte, precisam água para a refrigeração) e o tempo entre o início do projeto e o início de funcionamento é aproximadamente um terço.

    Acho que os últimos governos tem pecado um pouco na falta de planejamento, não que seja favorável a “soluções técnicas” (soluções políticas mascaradas de solução técnica), mas o governo teria que ter um menu de obras que deveriam ser escolhidas pela sociedade.

    • Caro Rogério,

      Obrigado pelo seu comentário. Em relação à utilização da massa crítica por parte de órgãos do governo, veja minha última postagem (de ontem).

      abraço,
      Roberto

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