A ciência e a divulgação científica

Você, leitor deste blog, é um leitor incomum. Você sabia disso? Incomum porque procura informações relacionadas à pesquisa científica, ou à ciência.

Muitos dos que visitam este blog o fazem procurando informações para fazerem trabalhos escolares. Isso fica evidente por muitos comentários deixados aqui. Outros procuram informações úteis para resolver problemas pessoais. Outros ainda buscam informações pontuais sobre assuntos relacionados à sua atividade de pesquisa.

Mas quantos lêem este blog porque realmente se interessam por química de produtos naturais, ou por ciência em geral? E lêem o blog apenas por uma curiosidade legítima?

Segundo o físico Marcelo Gleiser, pouca gente se interessa por ciência. Em sua coluna dominical na Folha de S. Paulo, Gleiser publicou no dia 29 de janeiro um texto em que discute este assunto.

Quem deve se ligar na ciência?

Para muitos leitores da minha coluna, a pergunta do título tem uma resposta óbvia. Mas esse não é o caso da maioria das pessoas. Basta entrar em uma livraria e tentar encontrar a parte de ciência. Ou checar as listas dos livros mais vendidos da Folha ou de outras editoras. Claro, volta e meia um livro sobre ciência entra na lista e fica por lá durante um tempo. Mas, em geral, são títulos que combinam ciência e religião ou ciência e política. A mesma coisa acontece no caso dos documentários sobre ciência.

Ninguém espera que a população brasileira se ligue nas últimas descobertas da ciência como se liga em novelas ou no “Big Brother”. Mas o que me preocupa é a distância cada vez maior entre a ciência que as pessoas consomem e a ciência que conhecem. Cada vez mais, a tecnologia se torna uma “caixa preta” em que celulares e GPSs não são tão diferentes de objetos mágicos, importados do mundo do Harry Potter. Isso sem incluir questões científicas mais fundamentais – como a origem do Universo ou a da vida – e seu impacto cultural, por extensão, na nossa visão de mundo.

Podemos separar os modos de interação da ciência com o público em duas vertentes principais. A primeira lida com os usos da ciência, suas aplicações tecnológicas na eletrônica, na medicina ou na exploração e no uso de diferentes formas de energia. A segunda lida com questões mais metafísicas como “origens” ou o fim do Universo ou o que existe dentro de um buraco negro.

Em ambos os casos, a educação tem um papel crucial: tanto formal, nas escolas em todos os níveis, quanto informal por meio de livros, documentários, palestras e jornais.

 Algo curioso ocorreu a partir do início do século 20: quanto mais a ciência progrediu, mais ela se afastou dos fenômenos do dia a dia, tornando-se progressivamente mais abstrata e até mesmo bizarra. Para uma pessoa do século 18, não há dúvida de que muitas descobertas foram estarrecedoras. Por exemplo, a descoberta de Urano e de centenas de nebulosas por William Herschel expandiram dramaticamente as dimensões do Cosmo. Mesmo assim, eram descobertas “palpáveis”, que necessitavam de um telescópio que podia ainda ser montado num jardim – embora tivesse de ser bem poderoso.

No entanto, para se “ver” uma molécula de DNA ou um quasar a 5 bilhões de anos-luz são necessários instrumentos altamente especializados, fora do alcance de um cidadão comum. A distância entre os objetos e métodos da ciência e a maioria das pessoas só tende a aumentar. Talvez seja por isso que um leitor outro dia me disse que, para ele, acreditar em Deus ou no que os cientistas dizem sobre a teoria do Big Bang era a mesma coisa. Algo similar acontece com o aquecimento global: sem evidências concretas e imediatas, as pessoas acham difícil “acreditar” no assunto – mesmo que ninguém precise acreditar em asserções científicas, apenas examinar a evidência disponível e chegar a uma conclusão.

Se mais cientistas se engajarem no ensino da ciência nas escolas e na sua popularização por meio da mídia, a distância entre as descobertas da ciência e a sua compreensão pelo público não especializado diminuirá. Cada vez mais, quem não se ligar na ciência ficará para trás.

Concordo com Gleiser no atacado, mas discordo no varejo. Ou seja, embora eu considere que o público em geral não se interessa muito por ciência, ou se interessa pouco, acho que o quadro que Gleiser pintou não é muito exato. Isso porque, por exemplo, qualquer BOA livraria terá uma sessão de livros científicos. Eu sou frequentador de livrarias, e afirmo isso com certeza. Até a única livraria no centro (tem uma no Shopping Center Iguatemi da cidade) de São Carlos tem uma sessão de livros científicos! Isso sem falar nas boas livrarias de São Paulo. Mas, há que se excluir as livrarias dos aeroportos (que não são muito boas, mesmo).

E, ainda mais, o público em geral está cada vez mais se interessando por ciência. Basta ver o número de publicações de divulgação científica em bancas de jornais: aumentou significativamente nos últimos 10 anos. A variedade de revistas deste tipo, principalmente de história, aumentou, e muito, de uns anos para cá. Será que as pessoas compram apenas por necessidade? Ou por prazer?

Seria interessante fazer uma pesquisa sobre o acesso a páginas de sites e blogs de divulgação científica na internet. Sites e blogs deste tipo são incontáveis. E tenho certeza que a maioria é utilizada para fins práticos: fazer dever de casa. Mas… as pessoas em geral estão buscando cada vez mais informação de qualidade para entender o mundo à sua volta. Há um ano atrás, editorial do mesmo jornal Folha de S. Paulo atesta sobre este fato (veja aqui).

Mas concordo com Gleiser que parece que existem dois tipos de ciência: um mais “palpável” e outro mais abstrato. Quando escovamos os dentes e lemos aquelas letras minúsculas sobre a composição química da pasta de dente, sabemos que o que ali está listado tem um propósito: de limpar os dentes (sem contar as substâncias responsáveis pelo aroma e o sabor, claro). Quando vestimos uma roupa de determinada cor, sabemos que uma tinta foi utilizada para tingir o tecido. No entanto, entender minimamente porque determinados pássaros vivem em certas regiões e não em outras está muito distante da nossa realidade. Mas não sei se essa diferença entre a ciência mais “palpável” e a mais abstrata mudou muito em pouco mais de 100 anos. Tenho a impressão que, se houve uma mudança, foi para uma diminuição das diferenças. Afinal, hoje se fala em teste de DNA até em novelas – mesmo sem que se saiba muito bem como é feito o teste de DNA, ou o que seja o DNA, mas sabe-se que tem as informações genéticas que são transmitidas através de gerações. Quando ocorre um acidente de avião, atualmente a mídia tenta apresentar as informações do porque o acidente aconteceu. E as pessoas se interessam, e querem entender. Logo, penso que a distância entre os dois tipos de ciência mencionados por Gleiser esteja, na verdade, diminuindo.

Por fim, imputar somente aos cientistas a responsabilidade de fazer mais divulgação científica é uma responsabilidade mal atribuída. No meu ver, é necessário que existam cada vez mais profissionais que trabalham com informação – jornalistas, principalmente – que tenham um bom conhecimento científico de base para fazer divulgação científica de qualidade. E que estes profissionais não tenham medo de conversar com os cientistas – e vice-versa – sobre assuntos mais especializados. Também seria legal se os programas de divulgação científica na TV fossem em horários mais vistos do que aos sábados de manhã. E fossem programas bacanas, bem feitos, inteligentes, divertidos, interessantes, como “O Mundo de Beakman”. A mídia tem um papel fundamental a desempenhar na educação científica das pessoas, no sentido de mostrar como a ciência é interessante, e importante, para as nossas vidas. Afinal, imputar mais uma resposabilidade aos cientistas… Não basta todas as que já temos…



Categorias:ciência, divulgação científica, educação, informação

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4 respostas

  1. Olá, muito boa a matéria. Acredito que falte um pouco de educação científica para a população em geral para que assimilem com maior facilidade o conhecimento produzido pela Ciência.

    Compartilhei essa matéria na página do meu blog no Facebook: http://www.facebook.com/nanomacro

    Abraços…

  2. Meus conhecimentos de ciência sao bastante limitados mas sei pelo menos que sem ela nada do que ha no mundo existiria.

  3. Caro Roberto
    Estou bem mais próximo a tua visão do que a do Maecelo Gleiser, porém é importante chamar a atenção que vulgarização científica (não gosto do termo divulgação científica, depois explico) é bem mais difícil e complexo de fazer do que dar uma aula ou simplesmente procurar divulgar uma novidade científica.
    Talvez aí esteja a diferença, a vulgarização científica é algo que tenta fazer uma leitura mais simples dos conceitos científicos atuais ou passados, enquanto a outra procura divulgar uma nova conclusão obtida nos últimos tempos.
    Um programa de TV de vulgarização científica é extremamente complexo de se realizar, pois necessita além da base correta científica de produtores e diretores da área de comunicação que saibam trabalhar sobre o assunto. Aí vejo o maior problema, para falarmos de mecânica (Newtoniana, relativística ou quântica) precisamos de pessoas que entendam do assunto (isto não é difícil de conseguir) mas que consigam elaborar um roteiro interessante para prender a atenção do espectador.
    Hoje em dia com os recursos da computação gráfica é possível gerar programas de vulgarização científica extremamente atraentes, desde que não apareçam muitos “cientistas atores” no programa.
    Agora vem a pergunta, se é atraente porque se passa mais BBB do que ciência? Simplesmente porque colocar vinte pessoas semi-nuas numa casa e filmá-las por horas a fio é muitas vezes mais barato do que produzir um programa científico com qualidade.
    Na nossa TV temos alguns bons e maus exemplos de programas de vulgarização científica, os bons exemplos são programas importados que sofrem uma pós produção aqui no Brasil, os maus exemplos são programas da Globo sobre ciência. Não sei porque, os programas nacionais insistem em cada programa em meia hora explicar tudo e não explicar nada, ou seja, se for feito um programa sobre química os produtores locais não procurarão fazer algo que explique de forma inteligente e interessante um dos aspectos da química, provavelmente eles começarão por Lavoisier e vão terminar nas mais recentes descobertas da química, tudo isto em meia hora.
    Para um bom problema de vulgarização científica deve-se ter o foco sobre determinado assunto e desenvolvê-lo com cuidado.
    Acho que os produtores de TV brasileiros são é ignorantes sobre ciência, e talvez por isto é que eles não saibam o que fazer para divulgá-la.

  4. Roberto, compartilho de seu otimismo! Me parece que a divulgação de ciência vem melhorando muito, decorrente tanto de divulgadores mais especializados, que conseguem contar boas histórias tendo a ciência e/ou o cientista como personagens, quanto de maior interesse por parte do chamado “público leigo”. Que há muito ainda a melhorar, especialmente no campo da educação científica, não há dúvida. Pode ser que estejamos caminhando a passos mais lentos do que o ideal ou desejável, mas estamos indo 🙂 Abração!

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