Dispêndio estadual em ensino superior público: quanto é muito?

Em todo o mundo, a educação de nível superior é a etapa mais cara na formação dos estudantes, porque envolve um aprendizado altamente especializado, muitas vezes com atividades de pesquisa, em laboratórios sofisticados e com acesso à informação de forma ampla, sendo necessários um corpo docente bem qualificado e recursos diversificados para o aprendizado. O sistema público de ensino superior depende, ao menos em parte, de recursos públicos, que por vezes podem ser consideráveis. Sendo para a educação, poderia-se pensar que os recursos públicos devem ser aplicados de maneira crescente. Porém, estes são limitados. Levando-se em conta o alto custo do ensino superior, outras fontes de recursos devem ser consideradas para seu financiamento.

Uma avaliação dos custos do ensino superior público pode ser feita a partir de dados recentemente disponibilizados pela National Science Foundation, que apresentam os dispêndios médios dos estados dos EUA com ensino superior público em universidades de pesquisa ao longo de 9 anos (http://www.nsf.gov/statistics/seind12/c8/interactive/table.cfm?table=29). Os indicadores norte-americanos mostram que em 2010 os estados com universidades pouco tradicionais aplicaram mais no ensino superior público/estudante do que estados com universidades de excelência. O estado de Wyoming foi o que mais dispêndios teve: US$ 18.901/aluno. O estado de Nova York foi o 5º que mais recursos aplicou no ensino público superior em 2010: US$ 15.017/aluno. No mesmo ano o estado da Califórnia, em 7º lugar, dispendeu US$ 12.495/aluno. Os Estados Unidos da América, como um todo, ficaram em 24º lugar, tendo aplicado, em média, US$ 9.082/aluno com receitas estaduais em 2010. O estado de Massachusetts dispendeu US$ 8.101/aluno do ensino público superior em 2010, tendo ficado em 31º lugar. O estado de Michigan aplicou US$ 7.666/aluno em 2010, ficando em 35º lugar.

Ao se analisar o dispêndio estadual no ensino superior público dos EUA, verifica-se que o montante global pode variar significativamente de estado para estado. O estado de Wyoming, por exemplo, tem apenas uma universidade pública estadual, a Universidade de Wyoming. O estado de Nova York inclui 14 campi do sistema estadual “City University of New York”, além de Centros Universitários, instituições de pós-graduação, faculdades universitárias (“university colleges”) e tecnológicas. Ao todo, o sistema estadual de Nova York congrega quase 50 instituições distintas de ensino superior. O sistema “University of California” inclui, dentre outras, os campi de Berkeley, San Francisco, David, Irvine, Santa Barbara, Los Angeles e San Diego. A Califórnia também conta com outro sistema universitário, o “California State University”. No cômputo geral a Califórnia tem 34 instituições de ensino superior com designações distintas. Já o estado de Massachusetts tem 14 instituições de ensino superior público estadual, 5 da University of Massachusetts e 9 da State University of Massachusetts. Michigan tem 12 universidades estaduais, além do sistema “University of Michigan”, que inclui os campi de Ann Arbor, Dearborn e Flint.

Apesar do dispêndio estadual significativos, a University of Wyoming não está incluída em nenhum dos principais rankings mundiais das melhores universidades. Já as instituições do sistema “University of California” receberam menos dispêndios estaduais (US$ 12.495/aluno), apesar de algumas universidades estaduais da Califórnia estarem muito bem colocadas nos rankings mundiais, como Berkeley, por exemplo (tabela 2). Entre 2008 e 2009 a receita de Berkeley foi de US$ 1,79 bilhões, dos quais 28,3% oriundos de financiamento estadual, 18,5% de anuidades estudantis, 30,4% de verbas federais para pesquisa, 8,4% de financiamento da iniciativa privada e 14,4% de outras fontes e de atividades extra-institucionais, sendo que a anuidade escolar de Berkeley foi de US$ 31.655 para o ano letivo 2009-2010 e US$ 33.819 para 2010-2011. Considerando-se que o dispêndio médio/aluno do estado da Califórnia foi de US$ 12.495 em 2010, isso corresponde a cerca de 37-39% do valor da anuidade de Berkeley. Já o estado de Michigan teve um dispêndio/aluno em 2010 de US$ 7.666. Levando-se em conta que a anuidade estudantil da University of Michigan(campus Ann Arbor) foi de US$ 34.937 em 2009-2010 e US$ 36.001 em 2010-2011, o dispêndio do estado corresponde a cerca de 21-22% da anuidade daquela universidade (tabela 1). Grosso modo, verifica-se que o dispêndio estadual/aluno em 2010 oscilou entre 1/2 a 1/4 do custo para estudar em universidades estaduais de excelência nos EUA. Os custos das anuidades não incluem gastos como alojamento estudantil e alimentação. Os dados mostram que, apesar dos consideráveis dispêndios no ensino superior por parte de alguns estados dos EUA, o custo do ensino superior ultrapassa em muito o investimento estadual, considerando-se o dispêndio total por aluno, oriundo não somente de fontes estaduais mas também de fontes federais, privadas e dos pagamentos das anuidades por parte dos alunos (tabela 1). Mesmo com dispêndios consideráveis, apenas uma minoria das universidades estaduais norte-americanas, em particular aquelas do sistema “University of California”, surgem bem classificadas nos rankings mundiais. Nem mesmo as universidades estaduais de Nova York aparecem classificadas nos mais seletivos rankings mundiais, como o QS World Universities (QSWU, tabela 2) ou do Times Higher Education (THE).

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No Brasil o dispêndio/aluno do sistema público estadual de ensino de São Paulo é de longe o mais significativo dentre os estados da federação: US$ 18.000/aluno em 2008. Este montante é comparável ao dos estados dos EUA com maior dispêndio desta natureza em 2010 (Wyoming e Alaska), mas que não surgem nos principais rankings de universidades. Tanto a Universidade de São Paulo (USP) como a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) estão incluídas no ranking QSWU 2011 das 500 melhores universidades do mundo (http://www.topuniversities.com/university-rankings/world-university-rankings/2011): a USP em 169º lugar e a UNICAMP em 235º lugar.

O dispêndio de recursos do estado de SP em 2010 cobre o custo integral, pois o ensino nas três universidades estaduais paulistas é público e gratuito. O dispêndio estadual de SP no ensino superior público inclui, além de laboratórios de ensino e pesquisa muito bem equipados, boa infra-estrutura, moradia estudantil para muitos alunos, um forte subsídio para a alimentação nos restaurantes universitários, atendimento em hospitais de excelente qualidade, e um acervo de acesso livre de dezenas de milhares de revistas científicas, que inclui assinaturas institucionais e do Portal CAPES de Periódicos, além de centenas de milhares de livros disponibilizados em rede para acesso por qualquer aluno do sistema estadual de ensino superior. O valor estadual aplicado nas universidades de São Paulo também inclui dispêndios consideráveis em pesquisa, adicionalmente à verba das agências de fomento FAPESP, CAPES, CNPq e FINEP. O dispêndio mais importante é o salário dos professores e funcionários, que corresponde a cerca de 65% do orçamento das três universidades estaduais paulistas, descontando-se gastos com aposentadorias.

Os R$ 5,526 bilhões aplicados em 2008 pelo governo do estado de São Paulo nas universidades estaduais paulistas USP, UNICAMP e UNESP inclui os custos integrais com a formação dos estudantes. É um dispêndio significativo, garantido pela legislação estadual, que traz resultados imediatos para a sociedade na formação dos melhores profissionais do mercado em muitas áreas de atuação, bem como na geração de conhecimento científico básico, voltado para aplicação, ou em inovação tecnológica. Comparando-se o dispêndio total de recursos nas universidades estaduais dos EUA/aluno com o dispêndio total de recursos nas universidades estaduais paulistas/aluno, verifica-se que este é ainda modesto.

Recursos adicionais seriam bem vindos para incrementar ainda mais o ensino, a pesquisa, a extensão e a gestão das universidades do estado de São Paulo. Levando-se em conta que em SP o dispêndio estadual é próximo ao valor máximo do dispêndio estadual em universidades norte-americanas, talvez seja bastante difícil aumentar o valor do dispêndio/aluno das universidades estaduais paulistas. Desta forma, é desejável que recursos adicionais significativos para as universidades de São Paulo venham da iniciativa privada. Estes são ainda limitados, mas podem ser muito mais importantes, pois este é um investimento seguro, em educação, em pesquisa, em capacitação profissional de excelência, em formação de lideranças e no fomento da economia do conhecimento, essencial para a sociedade brasileira.

Artigo publicado na edição de hoje do Jornal da Ciência e-mail.



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6 respostas

  1. Muito bom artigo, Roberto!

    Esclarecedora essa comparação do dispêndio entre instituições dos EUA e do Brasil – dá uma boa ideia do quanto se investe nas IES públicas, e ainda indicando uma forma (parcial e indireta, é verdade) de verificar os resultados desse investimento, através do posicionamento dessas instituições em rankings.

    E sim, recursos adicionais seriam mesmo bem-vindos para incrementar ainda mais o ensino, a pesquisa, a extensão e a gestão das IES, mas será que é mesmo desejável que tais recursos adicionais venham da iniciativa privada?

    Uma melhor gestão dos recursos existentes não proporcionaria esse incremento? O texto afirma que o dispêndio mais importante nas três universidades estaduais paulistas é o salário dos professores e funcionários, que corresponde a cerca de 65% do orçamento, descontando-se gastos com aposentadorias. Sobra então menos de 35% (considerando os tais gastos com aposentadorias, certo?) para as demais dispesas. Seria interessante fazer outra comparação: a relação professores/funcionários/alunos – mostrando como é essa estrutura e se o peso desse dispêndio se justifica.

    Fora outras questões de gestão de recursos públicos, como mau uso, desvios, etc… e então, de fato, cabe a pergunta: é mesmo necessário o aporte de recursos adicionais pela iniciativa privada?

    • Sibele,

      Você não explicou porque considera a forma de verificar os resultados do dispêndio (investimento é outra coisa) como sendo “parcial e indireta”, quando considerada a posição das universidades no ranking QSWU.

      Melhor gestão dos recursos existentes? Mas será que a gestão dos recursos existentes na USP, UNICAMP e UNESP é ruim? Existem indícios claros disso, documentados? Mau uso, desvios… existe alguma notícia desta natureza sobre os dispêndios alocados para as 3 universidades paulistas? Não que seja de meu conhecimento.

      Sempre é possível se melhorar o que já está bom. Mas quanto mais é possível melhorar? Será que os professores e funcionários estão satisfeitos com seus salários? Será que o aporte de recursos da iniciativa privada não seria bem vindo para melhorar ainda mais os salários, infra-estrutura, custeio, etc.?

      Roberto

    • Oi Sibele,

      Veja que a relação não tem nada de parcial ou indireta:

      Roberto

      • Oi, Roberto!

        Vamos lá! 🙂

        “Você não explicou porque considera a forma de verificar os resultados do dispêndio (investimento é outra coisa) como sendo ‘parcial e indireta’, quando considerada a posição das universidades no ranking QSWU”.

        E depois vc colocou o gráfico “Classificação Ranking QSWR x Dispêndio Total/aluno”. Muito bom.

        Bem, eu ainda considero o aporte de recursos na educação como investimento. A palavra “dispêndio” quer dizer “gasto”, e tem como sinônimo “prejuízo”. Como colocado, “Os R$ 5,526 bilhões aplicados em 2008 pelo governo do estado de São Paulo nas universidades estaduais paulistas […] traz resultados imediatos para a sociedade na formação dos melhores profissionais do mercado em muitas áreas de atuação, bem como na geração de conhecimento científico básico, voltado para aplicação, ou em inovação tecnológica. Tais resultados indicam que os recursos não são, então, a fundo perdido, concorda? E se investimento envolve retorno, então parece que os retornos indicados acima (para a sociedade) são bem significativos, não? Fico com a palavra investimento, portanto.

        E porque considero a posição das universidades no Ranking QSWU (e na verdade, em qualquer ranking) como forma “parcial e indireta” de verificar tais resultados do investimento?

        Simplesmente porque esses rankings, por si só, são parciais. Existem inúmeros rankings atualmente, com grande diversidade metodológica e variedade de critérios de classificação – valorizando em geral aspectos de produção científica e tecnológica, e levando em conta quase exclusivamente o universo linguístico anglo-saxão-europeu. A própria USP, em um determinado ranking, encontra-se bem posicionada, sendo a primeira num plano regional, e já em outro, sua posição desce, com classificação abaixo das 400 primeiras. Isso só se explica pelas distinções de enfoque e ênfase nas diversas atividades acadêmicas avaliadas pelos diferentes rankings.

        E mais: os critérios eleitos pelos principais rankings não contemplam as diversidades mundiais e os contextos específicos nacionais das IES, excluindo grande número delas. Os rankings mais populares – ARWU, QS, THE-Thomson-Reuters, U.S. News & World Report Ranking (USNWR), HEEACT, entre outros, incluem somente cerca de 1% a 3% (200-500 universidades) de cerca de 17 mil instituições de nível superior do mundo todo, desconsiderando a maioria das IES existentes (mesmo, como apontado no texto, as universidades estaduais de Nova York e a University of Wyoming, essa que é a única pública do estado inteiro! Pode estar fora dos principais rankings, mas com certeza cumpre uma função social inestimável, que não é considerada nos tais rankings!).

        E também tem gráfico! 😀 Olha só:

        <img src= "https://docs.google.com/open?id=0B6-rgBvG4nSBYWEyMmZkMjQtMGIzOC00NWRjLThhY2UtMjIyYmRiMDJiZjM3&quot;.

        Fonte: Rauhvarger, 2011

        Ou seja, enquanto essa abordagem pode muito bem servir ao objetivo de produzir "listas" das melhores universidades mundiais, levanta a questão de que cria uma enxurrada de atividades em torno desses rankings, afetando toda a comunidade educativa devido à tendência de avaliar as instituições de ensino superior de acordo com critérios que são apropriados apenas para as universidades de ponta, provocando vieses e preconceitos entre as instituições. Recente relatório elaborado pela Associação Universitária Europeia (European University Association – EUA) analisando as principais classificações existentes recomenda cautela na interpretação de rankings, desaconselhando que decisões políticas e de financiamento da educação superior sejam baseadas exclusivamente em dados dessas listagens. São sim, parciais, portanto.

        O relatório:

        Rauhvarger, Andrejs. Global university rankings and their impacts. Brussels: European University Association, 2011. (EUA Report on Rankings 2011). Disponível em: http://www.eua.be/pubs/Global_University_Rankings_and_Their_Impact.pdf.

        ——–

        A outra questão: “Melhor gestão dos recursos existentes? […] Mau uso, desvios… existe alguma notícia desta natureza sobre os dispêndios alocados para as 3 universidades paulistas? Não que seja de meu conhecimento.” Não especifiquei as universidades estaduais paulistas quando me referi a mau uso e desvios de recursos. Mas notícias dessa natureza, as há. Infelizmente. Melhor gestão (incluindo mecanismos de controle) faz sim, parte da solução.

        ——–

        E por fim, “Sempre é possível se melhorar o que já está bom”. De fato. O discutível é essa melhoria advir de recursos da iniciativa privada. Carece mesmo?

        Um ótimo carnaval para vc, Roberto! 🙂

        Abraço!

      • Oi Sibele,

        “Dispêndio” se relaciona com gasto nesta situação, não necessariamente de maneira negativa. Gastamos dinheiro para viver, não necessariamente de forma negativa. Depende de como se gasta.

        “Parcial” significa analisar parte das universidades de um jeito e parte de outro jeito. No caso dos rankings, são analisadas as universidades melhor classificadas: 200, 500, 2.000, que seja, com os mesmos critérios em cada ranking. Qual a importância de se incluir nesta análise aquelas que estão abaixo da posição 2.000, por exemplo? Nenhuma. Não acrescenta nada à análise. O que interessa são as que estão no topo, pois são estas a que tem diferenciais: porque estão no topo?

        Não é interessante se verificar que, com algumas variações, as mesmas universidades estão no topo, independentemente do ranking?

        Considerando somente as 20 primeiras:

        no QWRU: Harvard University; University of California, Berkeley; Stanford University; Massachusetts Institute of Technology (MIT); University of Cambridge; California Institute of Technology; Princeton University; Columbia University; University of Chicago; University of Oxford; Yale University; Cornell University; University of California, Los Angeles; University of California, San Diego; University of Pennsylvania; University of Washington; University of Wisconsin – Madison; The Johns Hopkins University; University of California, San Francisco; The University of Tokyo.

        no QSWU: University of Cambridge; Harvard University; Massachusetts Institute of Technology; Yale University; University of Oxford; Imperial College London; UCL (University College London); University of Chicago; University of Pennsylvania; Columbia University; Stanford University; California Institute of Technology (Caltech); Princeton University; University of Michigan; Cornell University; Johns Hopkins University; McGill University; ETH Zurich (Swiss Federal Institute of Technology); Duke University; University of Edinburgh.

        no THE: California Institute of Technology; Harvard University; Stanford University; University of Oxford; Princeton University; University of Cambridge; Massachusetts Institute of Technology; Imperial College London; University of Chicago; University of California, Berkeley; Yale University; Columbia University; University of California, Los Angeles; Johns Hopkins University; ETH Zürich – Swiss Federal Institute of Technology Zürich; University of Pennsylvania; University College London; University of Michigan; University of Toronto; Cornell University.

        no USNWR: University of Cambridge; Harvard University; Massachusetts Institute of Technology (MIT); Yale University; University of Oxford; Imperial College London; UCL (University College London); University of Chicago; University of Pennsylvania; Columbia University; Stanford University; California Institute of Technology (Caltech); Princeton University; University of Michigan; Cornell University; Johns Hopkins University; McGill University; ETH Zurich (Swiss Federal Institute of Technology); Duke University; University of Edinburgh.

        Os critérios dos rankings são diferentes mas, levando-se em conta que estão avaliando o mesmo universo (universidades), não podem ser tão diferentes assim, não é mesmo?

        Os critérios não contemplam as diversidades mundiais. OK, mas se você quiser avaliar as universidades em um contexto mundial, não dá para você ficar especificando as diferenças de região para região, ou de cultura para cultura, não é mesmo? Universidades são universidades, e, levando-se em conta que, pelo menos em princípio, devem ter os mesmos objetivos básicos: ensino, pesquisa e extensão. A partir daí se elaboram critérios para avaliar os elementos deste tripé. Tentar contextualizar demais parece coisa de quem está tentando justificar coisas muito diferentes, ou seja: “Veja, minha universidade não está bem classificada nos rankings mundiais, mas, em se considerando que atende à comunidade local…”. Bom, dessa forma jogamos todas as avaliações no lixo: de universidades, de restaurantes, de linhas aéreas, de pneus, de livros de matemática, de shampoos, do que você quiser.

        Quanto ao fato de se utilizar as classificações destes rankings como parâmetro, bom, isso fica a critério das instituições. Se estas querem estar bem classificadas nos rankings, tem que se trabalhar para conseguir atingir os índices que colocam as universidades “do topo” no topo. Ou esquecer isso, e simplesmente ignorar os rankings. Da mesma forma, você pode ignorar completamente os guias de melhores restaurantes, ou dos melhores CDs de música clássica, ou dos melhores notebooks, o que quer que seja. Mas muita gente faz uso de rankings quando seleciona escolas para os filhos, computadores para comprar, os melhores softwares para diferentes propósitos, etc. Normal, não é mesmo? Qual o problema de se avaliar as universidades? Que eu saiba, nenhum, muito pelo contrário. Nenhuma universidade é obrigada a seguir as tendências dos rankings mundiais. Mas, se não seguir, fica feio depois dizer que os rankings são parciais e não servem para isso. Aqui no Brasil apenas algumas estão bem classificadas e, mesmo as melhores classificadas ainda têm que melhorar para estarem entre as melhores do mundo.

        No ranking HEEACT a USP aparece em 78o lugar, a UNICAMP em 341o
        No USNWR a USP aparece em 169o lugar, a UNICAMP em 235o
        No THE a USP aparece em 178o, a UNICAMP entre 276o e 300o
        No QSWU a USP fica em 169o, a UNICAMP em 235o
        No ARWU a USP fica entre 100 e 150, a UNICAMP entre 201 e 300

        Ao que tudo parece, existe uma tendência bem clara, não tão díspar assim.

        Não é interessante que justamente a European University Association recomende não utilizar os critérios dos rankings? Se observa que na Europa as universidades que se destacam são as da Inglaterra, Alemanha e dos países escandinavos, algumas da França, Espanha e outras poucas. Quem a European University Association representa mesmo? Acho que aqui é que existe um viés: quando as coisas funcionam a meu favor, eu recomendo; quando não, não recomendo. É interessante sua observação que a EUA desaconselha “decisões políticas e de financiamento da educação superior sejam baseadas exclusivamente em dados dessas listagens”. O problema é que, como disse no meu artigo, os recursos são limitados, e são mesmo. Se for para financiar todas as universidades da mesma forma, as melhores serão prejudicadas! Não é irônico? Jogamos o trabalho duro daquelas que se empenham na lata do lixo. Para que serve a meritocracia, não é mesmo?

        E porque não recursos da iniciativa privada? Porque o estado deve ser a única fonte de recursos para o ensino superior? Se é investimento em educação, em pesquisa, etc, qual o problema de se receber recursos da iniciativa privada?

        Roberto

  2. Oi, Roberto!

    Voltando à discussão (estava em modo Carnaval, rs!)…

    A EUA (European University Association) apenas aconselha que os rankings não sejam os critérios exclusivos a balizar as decisões referentes às políticas e financiamentos das IES.

    E quanto à sua questão “Qual a importância de se incluir nesta análise aquelas que estão abaixo da posição 2.000, por exemplo? Nenhuma. Não acrescenta nada à análise. O que interessa são as que estão no topo, pois são estas a que tem diferenciais: porque estão no topo?” – precisamos lembrar que os rankings cumprem uma agenda específica, diretamente relacionada com a globalização e a internacionalização da educação superior, com fins mercadológicos. Não é à toa que o primeiro ranking a surgir em nível mundial foi o ARWU, da Shanghai Jiao Tong University, e muito menos que hoje são os estudantes asiáticos que inundam as universidades ocidentais, principalmente as mais bem posicionadas, dos EUA e Europa, reforçando a atual percepção geral sobre a China como principal propulsora do desenvolvimento econômico mundial.

    Os rankings então promovem uma competição ferrenha entre as instituições pelo melhor posicionamento, pois isso reverte em prestígio e mais recursos – inclusive em número de estudantes, num momento de crise tanto nos EUA como na Europa.

    A questão que é que a ciência como um todo está iniciando um novo movimento, contrário à esse modelo competitivo baseado na concorrência e numa espécie de “canibalismo acadêmico” que vigora na comunidade científica, pautando as instituições onde, majoritariamente, as pesquisas se desenvolvem: as universidades. Veja que tal modelo competitivo se desdobra em praticamente todas as atividades acadêmicas, influenciando até mesmo a comunicação científica dos resultados das pesquisas: o velho publish or perish, o afã da publicação na revista com maior FI (este também um indicador parcial e questionável para avaliação da produtividade científica) e mesmo criando situações esdrúxulas como o monopólio das grandes editoras comerciais de periódicos ditando as regras (e os preços) do acesso ao conhecimento científico que, em primeira instância, é criado nas universidades. Todo esse barulho que está ocorrendo contra a editora Elsevier (http://thecostofknowledge.com/) tem sua raiz nessa dinâmica de mudança – cujo pontapé inicial foi o surgimento do Open Access Movement nos anos 90 e que desde então só faz crescer, com tudo o que surgiu depois (ArXiv, PLoS, BioMed Central, etc.), convergendo nesse movimento chamado Open Science (http://www.ted.com/talks/lang/en/michael_nielsen_open_science_now.html).

    Nesse novo movimento não importa mais quem está no topo: o que interessa é o ganha-ganha. E nesse novo modelo (ainda incipiente, é verdade, mas crescente), surgem projetos colaborativos onde várias instituições se engajam, justamente num esforço para maximizar a alocação de recursos para a pesquisa, que como lembrado por vc, são escassos. Vemos redes colaborativas sendo criadas e se expandindo (vide os consórcios para sequenciamento do Genoma. Outro bom exemplo na sua área: o projeto de Open Source Drugs capitaneado pelo químico orgânico Matthew Todd – no Twitter, @MatToddChem – da University of Sydney: http://openwetware.org/wiki/Todd – na Nature: http://www.nature.com/news/2010/100204/full/news.2010.50.html e já com resultados: http://www.plosntds.org/article/info:doi%2F10.1371%2Fjournal.pntd.0001260 ).

    Eu sinceramente me pergunto qual a vantagem, para nós, brasileiros, de termos indefinidamente, ranking após ranking, apenas uma, duas ou no máximo três instituições nacionais, sempre a mesmas, classificadas nessas listagens. Acho que seria mais útil um novo modelo de avaliação onde clusters de universidades se destacassem por seus projetos colaborativos, ao invés de distinções individualizadas que criam/facilitam desigualdades intra-institucionais e inter países. Isso sem contar a importantíssima função social das instituições de ensino superior, que não é, repito, devidamente considerada nos tais rankings, como a University of Wyoming citada por vc no texto. É sabido que o acesso à educação superior é elemento de mobilidade social e econômica, e quanto mais instituições de nível superior fossem destacadas, mais socialmente relevante seria para a expansão (e não concentração) desse acesso pela sociedade. Nisso, os rankings internacionais realmente não nos ajudam.

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    Por fim: “E porque não recursos da iniciativa privada? Porque o estado deve ser a única fonte de recursos para o ensino superior? Se é investimento em educação, em pesquisa, etc, qual o problema de se receber recursos da iniciativa privada?“. A princípio, nada contra. Contando que a iniciativa privada não paute os rumos das IES.

    Essa notícia no The Guardian resume essa questão: AAAS’ president “scared to death” by the anti-science attacks paid for by big business: http://gu.com/p/35hzg/tw

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    Abraço!

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