Navalha na carne

O corte da própria carne parece ser mais fácil. É o que transparece no governo Dilma Rousseff que, pelo segundo ano consecutivo, promove cortes substanciais no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Desde a divulgação, neste início de ano, que a verba do MCTI sofreria corte de 22%, as manifestações de pesquisadores se intensificam. Em artigo na seção Tendências e Debates desta última terça feira, 6 de março, no jornal Folha de São Paulo, o físico Rogério Cesar de Cerqueira Leite manifesta sua indignação

Os cortes em ciência condenam o País ao subdesenvolvimento; a aversão dos economistas por tecnologia, preferindo fazer o País pagar royalties, é desastrosa.

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Diz-se que Mário Henrique Simonsen, o gênio, teria argumentado: “Se pagamos apenas US$ 200 mil de royalties, então para que gastar com pesquisas em ciência e tecnologia?”. Hoje, pagamos US$ 10 bilhões de royalties. Mas isso é apenas a ponta do “iceberg”.

A consequência desastrosa da aversão que os economistas tradicionalmente sentem por tecnologia é a incapacidade que tem o Brasil hoje (e, pelo jeito, continuará tendo no futuro) de competir no campo de manufaturados e outros produtos de alto valor agregado, por falta de competência tecnológica. Mantega imita Simonsen, para a desgraça do Brasil.

Segundo o Jornal da Ciência de ontem, empresários se manifestaram sobre o corte imposto pelo governo à pasta de Marco Antonio Raupp:

O presidente do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic), órgão da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Rodrigo Costa da Rocha Loures, reclamou do contingenciamento de recursos para ciência, tecnologia e inovação este ano, reforçando a opinião de cientistas sobre o corte de recursos em áreas estratégicas para o desenvolvimento do País.

“Para ter economia verde é preciso aumentar os recursos, e não cortar os recursos. Isso está passando desapercebido pelo governo”, disse Loures, fazendo um questionamento ao embaixador Luiz Alberto Figueiredo de Machado e secretário-executivo da Comissão Nacional para Rio+20, após a palestra do embaixador em evento patrocinado e organizado pela Fapesp, em São Paulo, batizado de ‘Biota-Bioen-Climate Change Joint Workshop: Science and Policy for a Greener Economy in the context of Rio+20’.

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“No Brasil não há também prioridade para a ciência, considerando o exemplo do corte no orçamento justamente nos recursos destinados à pesquisa e ao desenvolvimento”, disse ele, para emendar: “Isso é um desestímulo ao mundo empresarial, aos pesquisadores e essa iniciativa não corresponde ao discurso de que o Brasil está voltado para a economia verde e para o desenvolvimento sustentável, uma vez que sabidamente a área de ciência e inovação é o ponto central para o desenvolvimento geral e para o desenvolvimento sustentável”.

“Essa é uma queixa que se repete em todos os anos, desde que foram criados os fundos setoriais. Isso é crônico. O que evidência que não existe vontade política no governo federal a respeito desse termo. Ou, então, a ciência e tecnologia não têm uma articulação suficiente forte para fazer valer as suas necessidades”, declarou.

Segundo o presidente do Conic, o contingenciamento do governo nas áreas de ciência, tecnologia e inovação deve comprometer o alvo do governo federal de estimular os investimentos do setor privado e aumentar os investimentos desse setor na participação do Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 0,5% atuais para algo em torno de  0,9% do PIB até 2014.

“Essa decisão interfere nisso porque a competitividade não é das empresas, é do País. Na medida em que a parte pública não corresponde às necessidades, pode até atrapalhar. É o caso da política cambial [valorização excessiva do real] que tira a competitividade [das empresas] e estimula a desindustrialização que ocorre há mais de 15 anos e agonizou-se nos últimos anos”.

É muito importante a manifestação tanto de acadêmicos, os mais diretamente afetados pelo corte, como de empresários, que sentem na veia o desestímulo à inovação tecnológica no Brasil. O fato é que o governo brasileiro atua na contramão das tendências atuais, nas quais os principais países do mundo que ainda apresentam algum crescimento econômico estarem investindo mais em ciência e tecnologia. Por exemplo, segundo o US Science and Engineering Indicators 2012 Report, o dispêndio em C&T nos EUA cresceu mais do que o PIB, saltando de US$522 bilhões em 1996 para quase $1.3 trilhões in 2009 (veja aqui). Países asiáticos como Coréia e Japão não ficaram atrás, e se orgulham de ter dispendido, em 2009, tanto quanto os EUA em C&T (veja aqui). A própria FAPESP também vem aumentando seu dispêndio em pesquisa no estado de SP (veja aqui).

É realmente inacreditável que o atual governo encare o orçamento do MCTI como sendo de segunda (ou terceira?) prioridade, quando, mais do que nunca, a economia do conhecimento é valorizada. Não dá para entender o corte no orçamento do MCTI, que não é um dos ministérios de maior orçamento. Ao contrário de Aron Ralston, que fez “o corte” por absoluta necessidade, por não ter outra opção.

Atualização em 12/3/2012: como seria de se esperar, a notícia foi comentada na revista Nature. Veja aqui.



Categorias:ciência, política científica

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3 respostas

  1. Ótimo, gostei muito Roberto!

  2. Eu sempre disse em meu blog que os gastos do governo Lula em ciência (ou os aumentos constantes de gastos) eram apenas eleitoreiros, para ganhar a adesão dos pesquisadores e suas famílias – são mais de meio milhão de votos! Agora que já ganharam a eleiçao, que se danem os pesquisadores. Em 2014 a Dilma deve dar um pequeno aumento de gastos e com isso vai fazer a SBPC-chapa-branca feliz (a SBPC é a UNE dos cientistas) e reestabelecer o amor ao governo PTista.

    Meu Universal de 2010 até hoje não foi pago de forma integral. É essa a realidade da ciência no Brasil sob a batuta do governo federal. Ainda bem que o Brasil tem SP (com 20 anos de Tucanos no poder) para não deixar a peteca cair!!

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