Maria Leptin é diretora do grupo de publicações EMBO (EMBO é sigla de European Molecular Biology Organization, Organização Européia de Biologia Molecular – veja aqui o que já foi escrito neste blog sobre a EMBO). Leptin publicou, no último dia 16 de março, artigo na revista Science discutindo os problemas (e quase que exclusivamente os problemas) das publicações do tipo “acesso aberto” (open access).
Em seu artigo, Leptin diz que a maioria dos autores apóia as publicações de acesso aberto. No entanto, me pergunto se estes pesquisadores já publicaram em revistas de acesso aberto, para ver o quanto custa esta bagatela. Algumas revistas chegam a cobrar a ninharia de US$ 10.000,00 (dez mil dólares) – isso mesmo, dez mil dólares! – pela publicação de um artigo, segundo Leptin. O preço varia de acordo com a proporção entre artigos submetidos/artigos publicados. Por exemplo, segundo a autora, se uma revista recebe 100 artigos e publica todos a um preço de US$ 1.000,00, irá ganhar US$ 100.000,00 (óbvio). Mas, se a revista for muito seletiva, e aprovar somente 15% dos artigos submetidos, irá ganhar apenas US$ 15.000,00. Segundo Leptin, na ausência de suporte financeiro externo, das duas uma: ou a revista será seletiva e cara, ou menos seletiva e barata. E, se for menos seletiva publicará mais, e ganhará mais… mas, e a qualidade da ciência publicada?
Esta nova vertente das publicações – a de acesso aberto – parece ter sido criada pelas editoras comerciais para ganhar dinheiro – muito dinheiro – às custas dos fundos de financiamento da pesquisa e da boa vontade de assessores (peer reviewers) que trabalham de graça. Bom, não é mesmo?
O ponto levantado por Leptin é que o lucro não deixa de existir – muito pelo contrário – se o pagamento da assinatura é trocado por aquele pago pelo autor. A sociedade paga do mesmo jeito, seja a assinatura, seja através do autor (financiando sua pesquisa). A diferença é que o dinheiro do acesso aberto vai para editoras e seus proprietários – que se aproveitam da ciência – enquanto que as assinaturas das editoras de sociedades científicas, como a American Chemical Society e a Royal Society of Chemistry, vai para as sociedades científicas – que promovem ciência. Pequena diferença.
Infelizmente, fazer ciência e publicar requer dinheiro. E não é pouco. Mas, com certeza vale a pena. É graças ao desenvolvimento da ciência que estamos aqui, escrevendo este texto e o compartilhando neste blog. Quanto de ciência foi necessário para que isso acontecesse? Você, leitor, pode imaginar? Você sabia que o texto que você digita no seu computador não existe fisicamente? Digitar é totalmente diferente do que escrever à mão.
Segundo Leptin, a EMBO publica 4 revistas, duas de acesso aberto. Para tornar as outras duas de acesso aberto será mais difícil, pois requer mais dinheiro. E, segundo a autora, este dinheiro deverá vir do financiamento estatal. De outra forma, o risco da perda de qualidade nas revistas científicas é muito grande – e isso eu já estou observando.
Embora as publicações de acesso aberto sejam muito importantes, não são, e nem podem ser a única forma das publicações existirem. O mais importante, contudo, é a qualidade das publicações científicas. Boa ciência, de alto nível, de impacto, que reverbera no meio científico por muito tempo, não tem valor.
Pense nisso, leitor, antes de submeter seu artigo para qualquer revista de acesso aberto.
Em tempo: publicar na revista Química Nova e no Journal of the Brazilian Chemical Society, editadas pela Sociedade Brasileira de Química, não é fácil. São revistas de acesso aberto, de boa qualidade, as quais devem ser muito valorizadas pela comunidade científica, pois também são gratuitas. A comunidade científica deve agradecer aos órgãos financiadores por isso. Mas deveria agradecer também à sociedade, que é quem está pagando a conta destas publicações (e de muitas outras do Scielo).
Leptin, M. (2012). Open Access–Pass the Buck Science, 335 (6074), 1279-1279 DOI: 10.1126/science.1220395
Categorias:publicações científicas
Deixe um comentário