As nuances da pesquisa científica

Artigos publicados nesta semana nas revistas Science e Nature revelam diferentes aspectos, e levantam questões importantes, sobre o financiamento, o conhecimento de ferramentas, sobre a natureza e as consequências da pesquisa científica. Os artigos estimulam a discussão sobre temas que permeiam as atividades de cientistas e pesquisadores, muitas vezes de forma despercebida.

O editorial da Science assinado por Peter Gross, presidente da Sociedade Max Planck (em Munique, Alemanha), questiona o fato de governos dos EUA e Europa estarem financiando menos pesquisa de caráter fundamental. Este é um debate de décadas, desde que Vanevar Bush, em seu já clássico e famoso documento “Science – The Endless Frontier” (em inglês e em português) estabeleceu uma clara distinção entre ciência básica (fundamental) e aplicada. O modelo Busheriano prevaleceu durante muito tempo, mas passou a ser questionado já a partir do final da década de 1980 por estudiosos do assunto, como por exemplo Léa Velho (1999). Por isso, o editorial de Gross é surpreendente pelo fato de apresentar velhos argumentos para sustentar o financiamento da pesquisa básica. Embora atualmente seja cada vez mais evidente – e inquestionável – que existe uma relação direta entre desenvolvimento científico e tecnológico e crescimento econômico, um não necessariamente garante o outro. Tudo depende de como o conhecimento gerado é transferido para a sociedade e transformado em diferentes tecnologias e em inovação. Porém, isso não quer dizer que os governos não devam investir no financiamento da pesquisa básica – muito pelo contrário. O problema é saber como fazer esta se tornar inovação e resultar em benefícios reais para a sociedade, e não resultar somente em crescimento econômico fundamentado em desenvolvimento de tecnologias industriais, como sustentado por Gross. Tanto o financiamento da pesquisa básica como a transferência do conhecimento para a sociedade depende intrinsecamente de políticas governamentais eficazes.

Na revista Nature, um editorial e um artigo (assinado por Geoff Brumfield, jornalista sênior da Nature) discutem os usos da ciência, para bem e para mal. Este assunto já foi trazido à discussão neste blog, ainda que brevemente, na postagem “A ciência e a exploração de recursos naturais são sempre benéficos?”. O editorial da Nature mostra que vislumbrar consequências benéficas e maléficas decorrentes da pesquisa científica nem sempre é trivial. Mesmo porque a maioria dos pesquisadores honestamente sustenta uma visão positiva dos resultados decorrentes de sua pesquisa. Afinal, seria um suicídio um pesquisador escrever em uma proposta de projeto para financiamento, ou apresentar em um encontro científico, ou escrever em artigo, que o trabalho desenvolvido apresenta resultados que podem ser potencialmente problemáticos, em diferentes esferas. A questão, segundo a Nature (o editorial não é assinado), é deixar que esta avaliação seja feita por quem está de fora do processo de geração do conhecimento, fazendo com que não-especialistas e pouco conhecedores do assunto conduzam tal debate, muitas vezes de maneira enviesada. Tal fato pode resultar em consequências desastrosas, como, por exemplo, na supressão de financiamento de determinados tipos de pesquisa que podem potencialmente resultar em “consequências danosas”. Por isso, diz o editorial, é importante que os cientistas e pesquisadores tragam tais problemas à tona e os discutam com seus pares. Ainda que na maioria das vezes estes sejam capazes de identificar apenas as consequências prováveis. Segundo a Nature, tal debate deve ocorrer antes que o desenvolvimento de projetos que tenham consequências potencialmente danosas – de diferentes maneiras – sejam levados à termo.

Como ocorreu recentemente no caso da investigação de formas mutadas do vírus da gripe aviária. Depois de concluída, os resultados foram submetidos para publicação. Porém, os assessores e o corpo editorial da Science e da Nature recomendaram que detalhes da pesquisa fossem omitidos para que não pudessem ser utilizados por bioterroristas. Isso aconteceu no início deste ano, e também foi registrado aqui neste blog, na postagem “Pesquisa sobre vírus da gripe aviária é parcialmente censurada”. O artigo da Nature assinado por Geoff Brumfield comenta este e outros casos de “ciência controversa”, em que os resultados podem ser benéficos e maléficos. Além do caso da pesquisa com o vírus da gripe aviária, Brumfield usa como exemplos: a ciência desenvolvida nas tecnologias nucleares para medicina e para bombas; novas abordagens para se estudar o cérebro, ou a mente, em que nossa massa cinzenta pode ser escaneada por ressonância magnética funcional e ser utilizada para se compreender como pacientes paralíticos podem se comunicar, ou para se “ler a mente” das pessoas (Big Brother would be watching you, you know…); a geoengenharia, que está sendo proposta como uma possível ferramenta para resolver problemas climáticos, se é que estes podem ser resolvidos, e se o desenvolvimento de tais ferramentas não poderia ser utilizado como argumento para os governos relaxarem os mecanismos de implementação de políticas para minorar o aquecimento global; e ainda a análise genética de bebês em gestação para se detectar a possível ocorrência de doenças como a síndrome de Dawn, que poderia resultar em uma seleção extrema de indivíduos. Temas controversos, mas nem por isso a pesquisa associada aos mesmos deve ser proibida, diz Brumfield. De fato.

O problema é que às vezes nem mesmo a expertise científica para se discutir tais temas polêmicos resolve o problema, como bem discutido por Roger Pielke Jr. em seu blog. Mas nem por isso esta expertise deve ser deixada de lado – novamente, muito pelo contrário. Um bom exemplo de como ignorar a expertise científica pode ter consequências nefastas foi a votação do Código Florestal nesta semana pelo Congresso Nacional, que ignorou quase que completamente a avaliação da proposta do novo Código feita pelos cientistas. O texto de Jean-Paul Metzger, ontem no Jornal da Ciência, resume de certa forma a frustração dos pesquisadores:

“25 de abril de 2012 é um dia histórico para o Brasil. Marca o principal retrocesso ambiental do País e uma importante derrota para a comunidade científica, que se viu impotente diante de poderosos interesses econômicos. Ganha a democracia brasileira, pois todos os setores da sociedade puderam se manifestar livremente (apesar de nem sempre serem ouvidos).”

Leia a íntegra do texto de Metzger, aqui.

O último texto a ser comentado aqui se refere à utilização de equipamentos e ferramentas tecnológicas para as atividades científicas, que necessitam ser utilizados com critério e conhecimento, segundo David W. Piston (professor de fisiologia molecular e biofísica da Vanderbilt University, EUA). Piston relata um caso de um estudante que, sem saber, utilizou técnicas de maneira inadequada para obter medidas de seus experimentos, levando à resultados de difícil interpretação. Somente após a discussão dos resultados com pesquisador mais experiente foram detectados os erros resultantes das medidas e a análise pôde ser feita de forma fidedigna. Piston assinala que os modernos equipamentos e ferramentas tecnológicas de ponta utilizados para fazer ciência são pouco conhecidos, principalmente por estudantes de pós-graduação novatos que os utilizam nos seus experimentos. E enfatiza a necessidade de que sejam realizadas atividades de formação com estes estudantes, de maneira a que estes compreendam a fundamentação teórica envolvida na utilização destas ferramentas e equipamentos, sem o quê estes serão de pouca valia e os estudantes estarão mal formados.

Fácil de perceber que a ciência e a atividade científica estão longe de estar distantes da sociedade. Fomentar tais discussões de maneira equilibrada e consistente é fundamental para se promover o conhecimento sobre a ciência e a pesquisa científica.

ResearchBlogging.orgGruss, P. (2012). Driven by Basic Research Science, 336 (6080), 392-392 DOI: 10.1126/science.1221292
ResearchBlogging.orgNature (2012). For better or worse Nature, 484 (7395), 415-415 DOI: 10.1038/484415a
ResearchBlogging.orgBrumfiel, G. (2012). Controversial research: Good science bad science Nature, 484 (7395), 432-434 DOI: 10.1038/484432a
ResearchBlogging.orgPiston, D. (2012). Research tools: Understand how it works Nature, 484 (7395), 440-441 DOI: 10.1038/484440a
ResearchBlogging.orgVelho, L. (1999). Qualidade e Relevância da Ciência: um Falso Dilema Interciência, 24 (3), 151-156



Categorias:ciência, pesquisa científica, política científica

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4 respostas

  1. Caro Roberto

    O teu texto é quase um prólogo de uma enciclopédia, pois ele permite dezenas de discussões que quando tiver tempo tentarei colocar o meu ponto de vista sobre alguns aspectos, porém vou me situar somente sobre um ponto que fica mais claro quando se lê o artigo do Professor Jean Paul Metzger.
    No início de seu artigo ele coloca o resultado da votação do código florestal como uma vitória de grupos de pressão sobre a ciência. Acho antes de tudo uma petulância do caro professor em simplesmente não analisar o que levou esta rejeição de propostas conservadoristas no código florestal. Parece que o país está dividido entre ignorantes grupos econômicos com extrema capacidade de mobilização, e sábios grupos conservadoristas com conhecimento e propriedade da verdade, mas sem capacidade de mobilização.
    Eu faria uma análise bem diferente, a votação do Código Florestal foi uma vitória da INTOLERÂNCIA e da FALTA DE CAPACIDADE DE NEGOCIAÇÃO. Estas duas características valeram tanto para um grupo como para o outro, pois se colocaram duas correntes completamente contrapostas e impertinentes que estão levando a população a um dilema.
    De um lado temos grupos de conservadoristas, que completamente diferente que o professor tenta induzir no seu texto, tem muita capacidade política e muita capacidade de organização, que durante muito tempo quando o país não crescia impuseram legislações ambientais ambíguas e pesadas em que o ônus da prova pertencia ao réu,
    Do outro lado temos o grupo do desenvolvimento a qualquer preço, ignorando o que é um passivo ambiental ou mesmo a criação desses passivos para as gerações futuras.
    Vou dar um exemplo dentro do meu ramo que mostra a primeira parte, a parte das pressões ambientalistas, pois exemplos do segundo grupo temos aos milhares e não preciso descrever.
    Enquanto em todo o mundo, a energia hidrelétrica é considerada uma energia limpa e não geradora de CO2, no Brasil considera-se ao contrário. Veja, estou dizendo considera-se e não é ao contrário, pois até hoje não há UM ÚNICO MODELO CORRETO DE AVALIAÇÃO de impactos ambientais dos reservatórios. Os números são extremamente díspares, ou seja, há coisas na análise de geração de gases de efeito estufa que variam décadas, 1, 10 ou 100, tudo ao gosto de quem escolhe as fontes para citar.
    Em resumo, a partir de modelos extremamente incompletos, para não dizer errados, luta-se com unhas e dentes contra este tipo de energia, aliam-se grupos com diferentes objetivos para combater algo em nome de um famoso princípio, o Princípio da Precaução. Este princípio é uma verdadeira balança completamente desbalanceada, de um lado se coloca os riscos hipotéticos que deverão ser julgados algum dia e do outro lado se esquece de colocar os riscos reais que existirão caso não sejam tomadas providências. A falta de energia e seus resultados sociais nas populações mais carentes não são pesadas, alguém sem energia elétrica, ou sem possibilidade de pagar uma energia mais cara é um cidadão em risco social, mas este risco social e suas consequências nunca são contabilizadas.
    Poderia citar outros exemplos, que angustiam grande parte da população, e talvez esta é que foi esquecida pelo chamado grupo dos conservacionistas.Portadores da verdade acham que citando as palavras como “CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE” atrairão para as suas ostes milhões de pessoas. O homem comum, olha ao seu redor e vê uma Europa e um Estados Unidos da América em que o respeito a biodiversidade no passado foi negativa (nem digo nula, pois havia uma predisposição em acabá-la) como países ricos e desenvolvidos, por outro lado veem a América Latina, a África e determinadas regiões da Ásia em que grande parte desta biodiversidade foi conservada, servindo somente para atividades lúdicas de Reis e Rainhas que as caçam por diversão e para equipes internacionais de pesquisa que vão até a fonte para seu próprio proveito.
    Não é porque um homem de ciência diz que algo é bom e que devemos segui-lo que as populações os seguem. Algo mais forte deve ser oferecido em troca, pois se não a teoria do desenvolvimento a qualquer preço será sempre vitoriosa a custa do nosso futuro.

    • Caro Rogério,

      “Prólogo de uma enciclopédia”. Não sei se é bom ou ruim.

      Infelizmente eu tenho que concordar com a sua análise do artigo de Metzger. Desde o momento em que os pesquisadores e cientistas começaram a participar do debate sobre o Código Florestal, ficou claro para mim que seria quase que um debate de duas partes que não queriam se escutar. Só não concordo com a designação que você atribuiu aos pesquisadores, “grupo do desenvolvimento a qualquer preço”. Isso não é verdade. Não é desenvolvimento a qualquer preço que os pesquisadores estão defendendo, pois de outra forma não seria difícil chegar a um acordo com a bancada ruralista, certo? Justamente o que os pesquisadores e cientistas defenderam foi um código florestal que combinasse desenvolvimento agrícola e conservação do meio ambiente.

      Uma outra atribuição questionável que você faz é de colocar os pesquisadores e cientistas como ambientalistas. Cuidado, isso também não é verdade. Ambientalista é outra coisa. Nem todo pesquisadores ou cientista é ambientalista, muito pelo contrário.

      Também concordo que a adoção do princípio da precaução me parece muitas vezes questionável. Mesmo porque a capacidade de prever é ainda bastante limitada. Ou seja, se adotar o princípio da precaução quando ainda não se conhece muito bem os riscos…

      Quanto a teu último parágrafo, meu único questionamento é quando você se refere ao fato que a biodiversidade foi conservada nos países em desenvolvimento ou sub-desenvolvida. Não foi. Ainda não. O fato da biodiversidade ainda ser muito abundante é fortuita, justamente porque não houve tempo de destruí-la completamente, como quase aconteceu no caso da Mata Atlântica.

      Mas tenho que concordar que algo tem que ser oferecido em troca da conservação da biodiversidade. De outra forma, as florestas dificilmente se manterão em pé.

      Muito obrigado pelo seu longo comentário.

      abraço,
      Roberto

  2. Roberto

    Contrapus simplesmente duas visões antagônicas, uma de um grupo que quer o desenvolvimento a qualquer preço e outra que quer o imobilismo absoluto. No meio desta existem milhares de nuances. Talvez o texto não ficou bem claro, sobre este ponto, pois fiquei extremamente aborrecido, não com a tua intervenção, mas sim pelo texto que nos referimos. Muitos colegas, tentam vender uma imagem como os “cientistas” fossem criaturas virtuosas e acima de qualquer suspeitas, e para quem vive todo o dia a academia, como nós, sabemos que atrás de uma formação bem mais avançada do que grande parte da população há seres humanos com todas as imperfeições, nem melhores, nem piores.
    Nos dois últimos parágrafos, que também não ficou claro, é que para o homem comum, até com formação superior, pode ser criada uma falsa relação causa-efeito, países que torraram a sua biodiversidade, o sucesso, enquanto aqueles que a conservam, as batatas.

    Se observares com cuidado, esta relação está internalizada na mente de muitas pessoas razoáveis e não porque alguém de forma direta ou subliminar os induziu a isto, mas sim pelo desconhecimento da história do homem.

    Quanto a confusão de cientistas e ambientalistas ela é proposital, mais para provocar reações do que qualquer coisa, pois sei bem a diferença de ambos. Poderia dizer que inclusive conheci pessoalmente um dos mais famosos ambientalistas brasileiros e o desprezo que o mesmo tinha pela academia era visceral e raivoso, literalmente ele BABAVA quando falava mal da academia, era algo extremamente desagradável. Só não vou citar o nome para não falar mal de alguém que já morreu e não está aqui para se defender.

    Por fim, o resto da enciclopédia tentarei algum dia no futuro responder, talvez escrevendo outra.

    • Oi Rogério,

      Sobre teu primeiro parágrafo, com o qual concordo em parte (pois também existe um grupo de pessoas que, como eu, acredita ser possível combinar desenvolvimento e conservação do meio-ambiente), existe um livro que trata bem sobre este assunto da “imagem” dos cientistas, chamado “The Scientific Life”. Não é um livro fácil. É denso, mas muito bem escrito e fundamentado. De Steven Shapin.

      Nas tuas ponderações seguintes, vale destacar que é justamente este modelo, o do “tudo-ou-nada”, que tem que ser mudado.

      Ambientalistas, cientistas, ruralistas….

      Não escreva outra, não! Espero teus cometários sobre o resto do texto. Depois da Sibele, você é o meu comentarista mais assíduo e eu prezo muito teus comentários, Rogério.

      abraços,
      Roberto

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