Em 1948 Rachel Carson, bióloga marinha, já sabia das consequências potencialmente devastadoras do acúmulo de defensivos agrícolas tóxicos (chamados de “biocidas” por Carson) em animais e plantas. Convencida da importância em tornar público o conhecimento sobre o perigo do acúmulo destas substâncias em plantas e animais, inclusive no homem, Carson procurou colegas para escrever um livro sobre o assunto. Mas não encontrou quem se dispusesse a fazê-lo. Buscou apoio financeiro, mas também teve dificuldade em conseguir. Decidiu, assim, assumir a responsabilidade em escrever e publicar o livro que seria considerado o marco inicial para o surgimento do movimento ambientalista: Silent Spring (“Primavera Silenciosa”), que neste ano completou 50 anos de publicação em 27 de setembro.
No seu livro Rachel Carson retrata um panorama bastante completo e complexo das consequências da utilização indiscriminada de defensivos agrícolas como o DDT, o DDD, o BHC, organofosforados e outros. Assim que foi publicado, seu livro foi também divulgado semanalmente pela revista The New Yorker, na forma de episódios. Embora a revista não tenha publicado a obra completa, nem foi preciso. O livro causou furor entre as empresas químicas e de defensivos agrícolas, como a Monstanto e a Dow Química. Muitos criticaram Carson como sendo uma histérica, que havia escrito um livro sem fundamento algum. A obra dividiu opiniões da sociedade americana, entre aqueles que acreditavam ser absolutamente necessário o uso de defensivos agrícolas tóxicos, e os que pediam a regulamentação severa, e até mesmo o abandono, do uso de vários agrotóxicos extremamente nocivos.
O livro de Carson levanta questionamentos importantes quando aparentemente tudo parecia certo sobre a necessidade em se produzir e utilizar substâncias químicas para melhorar a produção de alimentos, sem saber ou prever as consequências de se fazer uso das mesmas. A autora trabalhou durante 5 anos para escrever o livro, período em que esteve cada vez mais doente, tendo sido vítima de câncer de mama. Carson investiu toda sua energia para tentar esclarecer a sociedade sobre o problema da utilização massiva dos agrotóxicos, sendo extremamente objetiva, com uma persistência exemplar, realizando uma pesquisa extremamente detalhada buscando dar uma visão de longo alcance para sua obra. Sua pesquisa incluiu troca de correspondência diária, por carta, com pesquisadores de todo o mundo. Além de apresentar informações de forma extensa, Carson escreveu seu livro em um estilo pouco comum. Ao invés de ressaltar pontos e argumentos científicos para sustentar uma defesa contra o uso dos defensivos agrícolas tóxicos, apresentou questionamentos, inclusive sobre as evidências, levando o leitor a se envolver com o assunto. Não assumiu uma posição pelo leitor, mas amplificou as incertezas para que o público se envolva, participe e tome suas próprias decisões sobre o assunto. Mostrou, assim, ser uma questionadora extremamente honesta.
Rachel Carson praticamente previu a repercussão de sua obra, uma vez que buscou apoio, juntamente com sua editora Houghton Mifflin, de pesquisadores do assunto que estivessem dispostos a se pronunciar favoravelmente sobre o tema antes que o livro fosse publicado. Contudo, não viveu até que o uso do DDT fosse banido nos EUA em 1972. Seu livro serviu de ponto de partida para a implementação de políticas governamentais dos EUA, como a criação da Environmental Protection Agency em 1970, a publicação do Clean Water Act em 1972 e do Endangered Species Act em 1973. Além disso, em 1966 foi criado o Environmental Defense Fund por membros da sociedade civil, que serviu de ponto de partida para o surgimento do movimento ambientalista.
O livro vendeu mais de 2 milhões de cópias, graças a seu estilo didático e também pela divulgação feita pela The New Yorker. Em 1970, apenas 8 anos após a publicação do Silent Spring, os americanos elegeram a poluição como sendo o principal problema do país, à frente da Guerra do Vietnã e dos Direitos Civis. O sucesso do surgimento do movimento ambientalista se deveu, ao menos em parte, pela participação da população mais simples que vivia nos subúrbios das cidades. Perceberam que o ambiente e seus problemas estavam diretamente relacionados às suas vidas.
Algumas das principais consequências da publicação do Silent Spring:
– A Versicol, produtora do DDT, ameaçou processar tanto a editora do livro de Carson quanto a revista The New Yorker.
– Rachel Carson foi acusada de ser simpatizante do comunismo, por se presumir estar colocando em risco a alimentação do povo norte-americano.
– Carson teve o apoio público de John F. Kennedy, que estabeleceu um comitê nacional para investigar as consequências do uso excessivo de pesticidas.
– O uso do DDT foi banido nos EUA. Porém, com o consentimento que as empresas fabricantes continuassem exportando o produto.
– Carson foi acusada da morte de milhões de pessoas em todo o mundo por causa da malária, que é transmitida por picada de insetos que não podiam ser mais eliminados utilizando-se o DDT.
– Em todo o mundo foram implementadas regulamentações ambientais sobre as atividades industriais que geram resíduos tóxicos.
Após a publicação de Silent Spring o movimento ambientalista ganhou força política, e se expandiu em todo o mundo. Hoje as questões ambientais, que foram o principal tema da ECO-92 no Rio de Janeiro, parecem ter sido deixadas de lado, em decorrência do atual quadro econômico e por questões políticas de importância questionável face às necessidades urgentes da conservação da biodiversidade e das mudanças climáticas que afetam o planeta de maneira cada vez mais preocupante. Rachel Carson, dedicada e engajada como era, não iria gostar nada deste atual panorama.
Artigo publicado no Jornal da Ciência e-mail de 5/12/2012.
Atualização às 21:46 de 19-12-2012: para aqueles que se interessarem em ler uma análise sobre os questionamentos a respeito do livro Silent Spring de Rachel Carson, sugiro a leitura do capítulo sobre o mesmo tema, do livro “Merchants of Doubt”, de Naomi Oreskes e Erik M. Conway (aqui).
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Caro Roberto
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Vejo que estás voltando a atividade, e voltando a atividade num assunto polêmicos que me é muito grato.
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O caso do banimento internacional do DDT, inseticida de baixo custo, com a patente vencida e que permitia o avanço do combate a malária em todo o terceiro mundo, é algo enigmático. Muitos pensam que a vitória de Rachel Carson foi contra a perigosa indústria química, mas a criação de novos inseticidas, mais caros e muitas vezes inviáveis para países pobres do terceiro mundo, com o aumento a cada dia do poder desta indústria, me parece que foi exatamente ao contrário.
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Voltarei a comentar este artigo com maiores dados, porém sugiro que leiam um forte contraponto a esta imagem romântica e épica que foi criado em torno de Rachel Carson em
http://www.nytimes.com/2007/06/05/science/earth/05tier.html?_r=0
Caro Rogerio,
Como vai?
Não precisa se preocupar em fomentar tal debate. Este artigo já foi devidamente rebatido. Veja no fim da postagem do blog.
abraço,
Roberto
Caro Roberto.
Se achas que o assunto é algo definitivamente encerrado sugiro que leias “Pesticides and Breast Cancer Risk: A Review of DDT, DDE, and Dieldrin” de Suzanne M. Snedeker, publicado em Environmental Health Perspectives • VOLUME 109 | SUPPLEMENT 1 | March 2001.
Me parece que está bem longe de se encerrar o assunto, agora não vejo com tanta insistência nenhum artigo científico que tenha calculado quantos milhões de pessoas que morreram depois do ressurgimento da malária, causada principalmente por pressões internacionais contra o uso do DDT e substituição deste por outros pesticidas “menos letais” e por coincidência mais caros e menos efetivos no combate ao vetor desta doença.
Sei que para químicos e bioquímicos é instigante e interessante a pesquisa de novos compostos, como também sei que esta pesquisa paga pelas grandes indústrias químicas é fonte de recursos pequenos para os pesquisadores e imensos para as indústrias.
A defesa emocional procurando misturar coisas claras e inequívocas com assuntos em que as dúvidas são maiores do que a certeza, por exemplo, o fumo com o DDT, a poluição gerada pela combustão de combustíveis fósseis com a emissão pura e simples de CO2, é uma estratégia bem manipulada por muitos, inclusive pelo livro que colocas como sugestão de leitura, esta defesa emocional e pouco leal procura dicotomizar as opiniões, os corruptos vinculados aos grandes trustes (fumo, indústria química, petróleo) e os outros, vestais e idealistas que só pensam no futuro da humanidade (diga-se de passagem, a humanidade neste caso não inclui as vítimas da malária, porque eles são sem voz e estão de qualquer forma poluindo o mundo com sua miséria).
Não deu certo. Não sabia que o wordpress limitava o número de caracteres por comentário. Não irei fazer o levantamento novamente, mas quem fizer, verá que existem estudos inconclusivos, vários que sugerem efeitos deletérios em aspectos da súde humana relacionados a cancer, e todos recomendam mais estudos. Logo, o princípio de precaução é perfeitamente válido neste caso, como defendeu Rachel Carson.
Roberto.
Estou olhando atentamente um por um dos abstracts, como tu sabes a minha formação em bioquímica é extremamente limitada, logo demorarei algum tempo para dar uma resposta ao assunto, pois mesmo somente 33 artigos me darão muita dor de cabeça.
Só posso concluir, produto de uma leitura na diagonal dos 13 primeiros, que as conclusões são extremamente fracas e algumas, como a #12, não parecem ter muito relação com o assunto.
A única conclusão que cheguei até o momento que a persistência desses compostos no corpo humano é grande, algo que já era mais ou menos concesso. Agora quanto a correlação direta e inequívoca entre câncer e DDT (em concentrações razoáveis), não é tão clara assim. E veja, estes artigos que estás colocando são artigos que foram feitos no momento que não há o mínimo interesse da indústria química em ressuscitar o DDT como arma para combate a malária.
Poderias me enviar somente o título e o periódico, que tratarei de olha-los, aguardo as restantes referências.
Agora Roberto, voltando ao princípio da precaução, quantas pessoas morreram a mais com o abandono do uso do DDT, temos que ver o seguinte, o princípio da precaução deveria servir também para os povos que pressionados pelos organismos internacionais, abandonaram o uso do DDT e por não possuírem dinheiro para inseticidas mais caros deixaram que a Malária avançasse de novo.
Oi Rogerio,
Não estão todos artigos aí. Como disse, eu queria colocar todos, mas o wordpress só permite um número limitado de caracteres nos comentários. Eu não sabia, e fiz direto aqui. Ou seja, perdi boa parte do meu trabalho, que mostra os resultados que assinalei no meu comentário anterior.
OK quanto a seu último argumento. Porém, se o DDT realmente causar doenças, as mesmas pessoas não terão dinheiro para se tratar destas doenças. Ou seja, resolve-se (?) o problema da malária, mas não o de outras doenças potenciais. O cobertor é curto. Além disso, o DDT acumula-se na cadeia alimentar. Ou seja, afeta-se não somente as populações mais diretamente afetadas pela malária, mas também outras.
Quais as opções?
Algumas:
1. Não usar o DDT, ao qual os mosquitos transmissores já apresentam, há anos, resistência, mas outros inseticidas, menos tóxicos para mamíferos.
2. Não usar inseticidas, e sim remédios para tratar a malária, aos quais o Plasmodium (parasita causador da doença) também já apresenta resistência.
3. Melhorar as condições de vida, higiene, ambientais onde vivem as pessoas mais pobres e que são mais severamente afetadas pelas doenças.
4. Todas as alternativas de 1 a 3.
Alguma outra racional?
O DDT não é a única solução.
abraços,
Roberto
Roberto.
Vou inverter o problema, se a malária fosse uma doença típica de países frios e industrializados, e o DDT só acumulasse em africanos e nestes causassem câncer, certamente este inseticida estaria em uso até que ela fosse erradicada nos países do Norte!
Veja, depois de erradicada a malária no sul dos USA, e em outras regiões mais desenvolvidas, pensou-se simplesmente pelo princípio da precaução (já que não é claro e inequívoca a relação entre a presença de pequenas concentrações de DDT com carcinomas).
Para encurtar o assunto, vou colocar aqui uma parte do texto que pode ser retirado do site de nada mais nada menos da Organização Mundial de Saúde. de julho de 2009, que ratifica o uso do DDT para combate da malária, chamo a atenção que experts de todo o mundo na convenção de Estocolmo conseguiram evitar que o DDT fosse declarado veneno e se retomou o controle da malária pelo DDT:
(http://www.who.int/malaria/publications/who_ddt_malaria_control-june.pdf).
“The WHO position on the use of DDT for malaria control remains unchanged. WHO still supports the use of DDT for malaria control, wherever this choice of insecticide is justified by considerations of cost-effectiveness and insecticide resistance, and provided that WHO guidelines are followed strictly. DDT is still needed and used for disease vector control simply because in some places there is no alternative of equivalent efficacy and operational feasibility……
…..
Scientific evidence on the toxicity of DDT and its metabolites is kept under review by WHO and is currently being assessed formally3. To date, no change has been warranted in the existing WHO recommendations on the use of DDT for indoor residual insecticide spraying3 (IRS) for vector control
……”
Em outras publicações a Organização Mundial da Saúde, deixa claro que a malária tem os seguintes índices de morbidez 985 000 em 2000 baixando para 781 000 em 2009 (após ter sido retomado em muitos países o uso do DDT em pulverização de casas), sendo que em anos anteriores a estes atingiu-se uma taxa de mortes de 1,5 milhões de crianças por ano em todo mundo (especialmente na África).
Veja, se esta senhora não tivesse feito a sua campanha contra o DDT, atrasando a campanha de erradicação da malária por mais de 30 anos, talvez tivéssemos economizado a vida de algumas dezenas de milhões de pessoas em nome dos falcãozinho norte-americanos e talvez (digo, claramente TALVEZ) algum aumento de incidência do câncer em países em que a malária já havia sido erradicada.
Ou seja, provavelmente Rachel Carson, tenha conseguido matar mais gente do que Hitler e Stalin juntos, mas para felicidade de muitos, estas pessoas mortas não foram nos grandes países do Norte.