Um comitê de 10 membros ofereceu uma avaliação brutal do papel da academia na criação das forças que desafiam as faculdades e universidades americanas.
Artigo de Alan Blinder, no jornal New York Times
As faculdades e universidades americanas têm grande responsabilidade pela queda na confiança pública no ensino superior, sugeriu um comitê da Universidade de Yale em um relatório divulgado na última quarta-feira.

Altos custos, práticas obscuras de admissão, padrões acadêmicos desiguais e receios quanto à liberdade de expressão nos campi, afirmou o comitê, estão entre os motivos para o crescente descontentamento com a legitimidade do ensino superior.
As conclusões refletem as preocupações que os americanos vêm expressando ao longo de anos em pesquisas e entrevistas. Mas o relatório, elaborado por um grupo de 10 professores de uma das universidades mais renomadas do país, representa uma descrição contundente do papel da academia no cultivo das forças políticas e culturais que estão remodelando o lugar do ensino superior na vida americana.
“A confiança é conquistada cumprindo o que se promete — e, idealmente, fazendo bem feito”, escreveu o comitê, descrevendo “uma incerteza generalizada sobre o propósito e a missão fundamentais do ensino superior”. O comitê observou que as universidades têm sofrido pressão para ajudar a resolver problemas sociais, afirmando que se espera que elas “sejam tudo para todos: seletivas, mas inclusivas; acessíveis, mas luxuosas; meritocráticas, mas equitativas”.
“Mas”, acrescentaram os professores, “sem uma missão e um propósito claros, torna-se difícil avaliar se as faculdades e universidades estão cumprindo seus compromissos fundamentais”.
A maioria das IES americanas está muito distante de lugares como Yale, onde o custo anual estimado para alunos de graduação ultrapassa US$ 90.000 excluindo auxílios financeiros. Administradores de muitas instituições, a maioria das quais custa muito menos e admite muito mais alunos, reclamam que suas escolas estão injustamente atreladas a universidades seletivas.
Mas essas percepções generalizadas estão impulsionando debates sobre ofertas acadêmicas, apoio financeiro do contribuinte às universidades e os ataques do presidente Trump a um sistema de ensino superior que antecede a própria nação.
O atrito em torno das faculdades não é novidade. O comitê, no entanto, apontou para uma convergência de práticas contemporâneas para ajudar a explicar por que o prestígio da academia declinou tanto e tão rapidamente. O Gallup relatou em setembro passado que 35% dos americanos consideravam a educação universitária “muito importante” — metade do número que pensava assim em 2013.
Yale encomendou seu relatório em abril passado, enquanto o governo Trump bombardeava as universidades de elite com críticas e cortes de verbas. Yale escapou do pior da ira do governo, mas sua reitora, a Profa. Maurie McInnis, afirmou que os líderes acadêmicos precisavam entender melhor o sentimento público.
Em seu relatório, o painel de Yale exaltou os objetivos do ensino superior, mas não poupou críticas ao apontar como as instituições, incluindo Yale, prejudicaram a imagem pública da educação superior.
Por exemplo, Yale e muitas outras universidades agora dependem de um modelo que dilui regularmente os altos preços das mensalidades com generosos pacotes de auxílio financeiro. Embora muitos estudantes paguem valores bem abaixo do preço de tabela, o comitê escreveu que essa abordagem teve “um impacto desastroso na confiança pública”.
“Por sua natureza, o sistema é complexo, imprevisível, sigiloso e altamente variável”, diz o relatório. “Esses fatores tendem a reduzir a confiança em vez de aumentá-la.”
(Algumas iniciativas são mais claras: Yale anunciou em janeiro que não cobraria mensalidades de alunos de graduação cujas famílias tivessem renda anual inferior a US$ 200.000.)
Os procedimentos de admissão para cursos de graduação, por mais bem-intencionados que sejam, são frequentemente opacos, acrescentou o comitê, desprovidos de padrões decifráveis para questões tão fundamentais quanto o desempenho acadêmico. Yale está entre as universidades que não exigem uma pontuação mínima nos testes.
“Quando os processos seletivos de admissão parecem tão inexplicáveis — ou, pior, tendenciosos de maneiras que beneficiam os já privilegiados — não é de se surpreender que muitos americanos não confiem no processo”, escreveu o comitê.
E o grupo alertou sobre como outras questões, como a inflação de notas e o aumento do número de funcionários nas universidades, estavam minando o prestígio da academia.
“Nosso objetivo no relatório era ter uma visão de longo prazo e reconhecer que o ceticismo e a desconfiança do público são algo que se constrói ao longo do tempo e levará algum tempo para ser revertido”, disse a Profa. Beverly Gage, historiadora e co-presidente do comitê, em entrevista. “Mas estávamos muito comprometidos com a ideia de autoanálise e estamos muito comprometidos com a ideia de que, daqui para frente, a estratégia precisa ser não apenas de mudanças na comunicação, mas de ações reais e substanciais e autocrítica.”

O comitê ofereceu dezenas de recomendações, como expandir o auxílio financeiro, reduzir as preferências de admissão, proteger zelosamente a liberdade de expressão e ajustar as políticas de avaliação. As pessoas na academia, disse o comitê, “devem estar dispostas a admitir onde erramos e onde podemos melhorar, mesmo enquanto defendemos o que é essencial sobre o ensino superior e sua missão acadêmica.”
A outra co-presidente, a Profa. de sociologia Julia Adams, disse que os membros do comitê esperavam que suas recomendações mudassem as percepções. Mas ela acrescentou que “a mudança é necessária por si só.”

Em um e-mail enviado ao campus na quarta-feira, a Profa. McInnis disse que as pessoas em Yale foram “certamente mais do que meros espectadores” enquanto a confiança pública desmoronava.
“Devemos reconhecer como falhamos”, escreveu a Profa. McInnis, que não fazia parte do comitê.
A Profa. McInnis não implementou imediatamente todas as recomendações do comitê, embora tenha se mostrado aberta a muitas delas. Em entrevista, ela afirmou que havia um interesse em debates públicos sobre o ensino superior, e esperava que o relatório os aprofundasse.

“Na verdade, em todos os lugares que frequento e em minhas interações com o público em geral”, disse ela, “este é um tema que as pessoas desejam discutir.”
Categorias:educação, gestão acadêmica
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