O matemático e presidente da Academia Brasileira de Ciências, Professor Jacob Palis, proferiu conferência durante a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação intitulada “Um Olhar sobre a Ciência Brasileira e sua Presença Internacional”. O documento completo da palestra do Prof. Palis foi disponibilizado pela Academia Brasileira de Ciências (veja aqui). Alguns trechos foram transcritos a seguir.
“(…) o conhecimento científico tecnológico, criativo e renovador, é reconhecido a nível do Governo Federal como um todo e crescentemente pela mídia e a sociedade em geral, como instrumento fundamental para um desenvolvimento sócio-econômico harmônico e sustentável.”
“No final de 2009, segundo a CAPES, o sistema nacional de pós-graduação compunha-se de cerca de 2.750 programas e 4.122 cursos, aproximadamente 60% deles de mestrado, 35% de doutorado e o restante de mestrado profissionalizante, com 52.750 alunos de doutorado e cerca de 97.400 de mestrado. Da ordem de um terço dos alunos possuem bolsas de estudo, sendo 17.500 de doutorado e o número de professores é de aproximadamente 44.000.
Se mantidas as taxas médias anuais acima, titularíamos 40.000 doutores e 107.000 mestres em 2020. Teríamos um crescimento muito robusto das atividades de C&T no país e é absolutamente necessário que ai se inclua o setor empresarial, que contribuiria com boa parte dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e absorção de nossos recursos humanos nesta área. A sigla C,T&I estaria plenamente justificada. Trata-se de um grande desafio que passa por elevarmos substancialmente nossos esforços na busca de talentos, por exemplo através de olimpíadas científicas, em semelhança ao que já ocorre em matemática e o treinamento de professores de ciência para o curso fundamental.”
“(…) de acordo com os dados do Pnad 2008 do IBGE, em 2008 tínhamos no Brasil 96.378.972 de pessoas ocupadas (34.018.537 empregados com carteira), o que daria 2,19 pesquisadores / técnicos para cada 1.000 pessoas ocupadas.
Se estimarmos, com uma boa dose de otimismo, uma taxa de um crescimento médio anual de 8% do número de pesquisadores / técnicos atuando em C&T no Brasil, chegaríamos em 2020 com um contingente de 492.000. Enquanto isso a população brasileira cresceria de 190 milhões, em 2008, para 207 milhões, em 2020 (Fonte: IBGE). Assim, em 2020 teríamos 4 pesquisadores / técnico para cada 1.000 pessoas ocupadas, se o número de pessoas ocupadas subisse para 60% da população, um número bem mais próximo daqueles de países mais avançados. Observamos que a taxa de crescimento médio que utilizamos de 8% em recursos humanos para C&T é expressiva, mas bastante inferior às taxas anuais de crescimento mais recentes do número de doutores e mestres titulados a cada ano.”
“Hoje, nossos recursos para as atividades C,T&I ultrapassaram 1% do Produto Interno Bruto – PIB, estimando-se para 2010 que eles fiquem entre 1,2%, e 1,3%, com o setor empresarial participando com cerca de 50% deste esforço, em atividades de pesquisa e desenvolvimento.”
“(…) propomos que o Brasil atinja 2% de seu PIB em investimentos em C,T&I em 2020, com crescimento anual de cerca de 5,5% em nossos investimentos em C,T&I nos próximos 10 anos.
Isto é de grande importância para o país, pois C&T, é um dos mais importantes símbolos de progresso de uma nação. Também é classificada como diplomacia do bem. Difícil? Não é impossível, mas exige muito esforço e entusiasmo. A 4ª CNCTI mostrou que estamos dispostos a levar adiante esta nobre missão.
Observamos que em recente reunião dos BRIC em abril do corrente ano em Brasília, um dos representantes da China declarou que a meta do país é investir 2,5% de seu PIB em Pesquisa e Desenvolvimento em 2020.”
O artigo do Prof. Palis é extremamente interessante, não somente pelas informações que apresenta, mas também pelas perspectivas apresentadas pelo Presidente da Academia Brasileira de Ciências.
Poderia-se fazer algumas observações sobre este artigo. O primeiro trecho destacado infelizmente vai contra fatos recentes, que evidenciaram a desconsideração dos parlamentares brasileiros de trabalhos científicos que demonstram os problemas que deverão ser decorrentes de uma eventual aprovação do novo Código Florestal Brasileiro, da construção da hidrelétrica de Belo Monte e da transposição do Rio São Francisco. Seria muito bom se o governo, além de promover a ciência e tecnologia no Brasil, também considerasse a opinião de cientistas brasileiros em questões essenciais, de maneira a melhor justificar a implantação de determinadas iniciativas.
A tabela 5 do artigo de Palis (página 8) apresenta uma classificação dos países, presumivelmente em termos de número de artigos publicados em 2008. Seria interessante relativizar estes números absolutos, em termos de números de artigos per capita, ou pelo número de pesquisadores, ou pelo PIB, por exemplo. Uma análise de tal natureza levaria a uma alteração significativa na classificação do Brasil com relação aos outros países.
Na página 9 de seu artigo, Palis afirma que “É importante observar que as áreas de Engenharia e Matemática, assim como Biologia Marinha e Oceanografia, estão dentre aquelas que mais devem crescer no país nos próximos anos.”, mas não indica as razões pelas quais o crescimento destas áreas deverá ser mais significativo.
O artigo de Palis demonstra o atual crescimento da ciência e tecnologia no Brasil. Que este crescimento continue, de maneira consistente e inovador, sobretudo em termos de qualidade, independentemente do(a) candidato(a) que for eleito(a) presidente nas próximas eleições.
O positivismo ainda é o ariete pelo qual todos somos formados. Eis a razão da preponderância da matemática e da engenharia. Convém salientar que a ciência não é especialista. Ipso fato deixa de ser ciência, para ser tecnologia de dominação. Infelizmente aos ciorruptos, ineptos, paternalistas, patrimonialistas, e golpistas governos brasileiros só interessa formar os peões ao seu jogo dinástico, mas o rei frequentemente é suicida.