FAPESP na vanguarda

O atual diretor do Instituto Nacional da Saúde dos EUA (NIH, National Institutes of Health), Francis Collins, manifestou sua preocupação sobre o início tardio de carreiras científicas independentes nos EUA, em artigo publicado no último número da revista Nature.

Collins diz que a etapa do pós-doutorado tem beneficiado a formação de muitos pesquisadores ao longo dos últimos 20 anos nos EUA, incrementando a formação destes e fazendo com que recém-doutores possam ter currículos com publicações de mais alto nível. Desta forma, torna-se mais fácil para estes pesquisadores conseguirem se inserir no meio acadêmico, após um ou vários estágios de pós-doutoramento. Contudo, a adoção desta prática de formação tem retardado a inserção de pesquisadores na carreira científica. Segundo Collins, a idade média dos pesquisadores que conseguiram seus primeiros auxílios para pesquisa do NIH em 2009 foi de 42 anos, sendo que em 1981 era de 36 anos! Tal início tardio se justifica, em parte, pela limitação de vagas disponíveis no meio acadêmico.

Preocupado com o início tardio das carreiras científicas, Collins manifesta-se em favor de uma carreira iniciada mais cedo, de maneira a estimular a criatividade, a elaboração de propostas científicas de maior risco, e ao mesmo tempo mais recompensadoras. Manifesta-se em favor de uma independência científica mais precoce, para que os jovens pesquisadores possam explorar plenamente seu potencial, bem como do estabelecimento de um período, após o doutorado, para que os jovens pesquisadores possam desenvolver suas idéias originais, antes de se candidatarem a uma posição acadêmica. Inclusive com a ajuda de pesquisadores seniores.

Collins anunciou a criação e a implementação do “Early Independence Award Program”, que será financiado pelo NIH para jovens cientistas talentosos, com um valor de US$ 250,000 por ano, durante cinco anos. Aqueles que forem beneficiados por tal iniciativa terão oportunidade de buscar se inserir em uma instituição acadêmica adequada para desenvolver seu projeto. A instituição que receber tais pesquisadores terá que fornecer, como contrapartida institucional, espaço físico e os recursos adicionais necessários, além da oportunidade de orientação equivalente à dos professores assistentes (equivalente aos professores doutores brasileiros).

Em seu artigo, Collins assinala que este programa é destinado para jovens cientistas altamente motivados e maduros, talentosos e confiantes o suficiente para iniciar seus próprios programas de pesquisa, que possa ser negociado com os administradores das instituições onde queiram estar vinculados. Já as instituições acadêmicas escolhidas devem fornecer o necessário apoio aos jovens pesquisadores. Porém, Collins ressalta que tal programa não se destina a todos jovens pesquisadores, e que o pós-doutorado ainda é muito necessário para se melhorar e aprofundar a formação científica de muitos jovens doutores.

O novo programa do NIH chama a atenção por ser, de certa forma, muito similar ao programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, criado pela FAPESP em 1995. Diz reportagem publicada pela revista Pesquisa FAPESP de maio de 2008:

O programa Apoio a Jovens Pesquisadores da FAPESP foi lançado em 1995 com a proposta pioneira de estimular a independência e o amadurecimento de doutores, naquela fase da carreira em que se enfrentam percalços como a falta de vínculo empregatício e as dificuldades materiais para liderar projetos robustos. O objetivo era criar oportunidade de trabalho para pesquisadores ou grupo de pesquisadores de grande potencial, de preferência em centros emergentes. “Entre as principais vantagens desse programa estão a fixação e a nucleação de novos grupos de pesquisa nos lugares por onde esses jovens pesquisadores passaram”, disse Sergio Salles Filho. Foram examinados 340 projetos ou 86% das pesquisas finalizadas de 1996 a 2007. A FAPESP investiu R$ 64,6 milhões na amostra, o equivalente a R$ 190 mil por projeto. Os beneficiados foram profissionais já com densa experiência em pesquisa – 72% têm pós-doutorado. A média de idade é de 42 anos. Apesar do nome do programa, não há restrição em relação à idade dos proponentes.

Os avaliadores constataram que vários propósitos do programa foram al­cançados. Um deles foi a ambição de criar novos núcleos de pesquisadores. Os dados mostram que 70% dos jovens pesquisadores criaram ou impulsionaram grupos de pesquisa ativos, na maioria, até hoje. O destaque coube aos beneficiários instalados em instituições privadas distantes dos grandes centros urbanos. As áreas que mais inspiraram a criação de grupos de pesquisa foram Ciências Exatas e da Terra, Ciências Biológicas e Engenharias. No total, 87% dos indivíduos estavam contratados no período em que o levantamento foi realizado. Cerca de 26% dos pesquisadores apoiados pelo programa já estavam contratados pelas instituições, 42% foram admitidos durante ou após o auxílio e 19% foram admitidos por outras instituições de ensino superior.

Do universo de pesquisadores e instituições entrevistados, 70% afirmaram que o auxílio teve impacto nos programas de pós-graduação, especialmente quanto à criação de novas disciplinas. A produtividade média dos jovens pesquisadores, mensurada pelos números de publicações em periódicos cientí­ficos, também cresceu consideravelmente depois do recebimento do auxílio da FAPESP.  Houve, contudo, objetivos do programa que não foram atendidos, segundo os avaliadores. Observou-se, por exemplo, que uma grande maioria de jovens pesquisadores vincularam-se a instituições públicas que já tinham programas de pós-graduação, sugerindo que a meta de estimular a criação de centros emergentes não foi propriamente alcançada. Essa conclusão desencadeou um debate durante a apresentação dos dados da avaliação, no dia 16 de abril, no auditório da FAPESP. Presente na apresentação, o professor Rogério Meneghini, um dos idealizadores do programa Jovens Pesquisadores, afirmou que a idéia inicial não era apenas criar novos centros, mas também fortalecer instituições com tradição em pesquisa ainda em desenvolvimento: “Já no ponto de partida o programa deu certo, porque as universidades com mais tradição, como USP e Unicamp, entendendo o propósito da iniciativa, apresentaram menos propostas do que, por exemplo, a Unesp, que tinha uma carência maior de desenvolver novos núcleos de pesquisa”, disse Meneghini. Entre as sugestões apresentadas pelos avaliadores para aperfeiçoar o programa, destacaram-se a melhor definição de centros emergentes e o fomento a propostas fora das instituições de pesquisa tradicionais.

Collins deveria vir até o Brasil, conhecer o programa da FAPESP, para levar esta iniciativa aos EUA. Certamente muitos jovens pesquisadores norte-americanos seriam beneficiados com tal iniciativa.

ResearchBlogging.orgCollins, F. (2010). Scientists need a shorter path to research freedom Nature, 467 (7316), 635-635 DOI: 10.1038/467635a



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1 resposta

  1. Berlinck, pq vc não manda uma Correspondence pra Nature sobre isso? Esse espaço da revista é justamente reservado pro diálogo.

    Abc!

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