Caiu me às mãos um exemplar da última edição de “Os parceiros do Rio Bonito”, tese de doutoramento defendida pelo professor Antonio Candido de Mello e Souza, ou simplesmente Antonio Candido (como é melhor conhecido), em 1954 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Aproveito aqui para transcrever algumas partes da introdução que me chamaram a atenção.
“Este livro teve como origem o desejo de analisar as relações entre a literatura e a sociedade; e nasceu de uma pesquisa sobre a poesia popular, como se manifesta no Caruru – dança cantada do caipira paulista – cuja base é um desafio sobre os mais vários temas, em versos obrigados a uma rima constante (carreira), que muda após cada rodada.
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E assim foi que tendo partido da teoria literária e do folclore, o trabalho lançou uma derivante para os lados da sociologia dos meios de vida; e quando esta chegou ao fim, terminou pelo desejo de assumir uma posição em face das condições descritas.
As investigações foram iniciadas em 1947. Devido aos encargos de ensino, que tomam a maior parte das férias, processaram-se com irregularidade, e mesmo aos pedaços. Assim se fez a colheita do material em algumas áreas caracteristicamente caipiras do estado, durante os anos de 1947, 48, 49, 52, 53, 54. Trabalhei em curtos períodos de cada vez, nos municípios de Piracicaba (7 visitas), Tietê (2 visitas), Porto Feliz (1 visita), Conchas (2 visitas), Anhembi (1 visita), Botucatu (3 visitas) e sobretudo Bofete. Neste, residi num agrupamento rural cerca de vinte dias, de fevereiro a março de 1948, e, novamente, quarenta dias, de janeiro a fevereiro de 1954, quando a redação, iniciada em agosto de 1953, tornou necessária a volta ao campo de estudo, para reforçar o material e verificar certas hipóteses, à luz da passagem do tempo. Com o intuito de estabelecer comparações dentro da área de formação ou influência histórica paulista, visitei alguns municípios limítrofes em Minas, no ano de 1952, e no de 1954 (…) pude conhecer aspectos da vida rural teuto-brasileira em Santa Catarina e Rio Grande do Sul (1951, 52 e 53). Não foi possível ir a Goiás, e só em 1957-58, depois do trabalho encerrado, tive um primeiro contacto com o Nordeste (sobretudo o Ceará), cuja terrível situação agrária faz parecer relativamente amena a miséria descrita neste livro.
Terminado em setembro de 1954, este trabalho foi apresentado como tese de doutoramento em Ciências Sociais à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde fui durante dezesseis anos Assistente de Sociologia II.
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Mas esta não é uma tese de Economia nem pretende fornecer dados recentes. Visa a descrever um processo e uma realidade humana, característicos do fenômeno geral de urbanização no estado de São Paulo.
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Entre as partes que desejaria ter podido encorpar e melhorar está a referida Conclusão: O Caipira em face da civilização urbana. Ela deveria ser mais sólida, para se tornar mais convincente e poder, como desejei, servir de introdução ao estudo da reforma agrária, que de lá para cá se tornou assunto banal.1”
O autor cita como influências intelectuais sobre sua tese a obra de Karl Marx, em particular a parte inicial do livro A ideologia alemã; The Folk-Culture of Yucatan, de Robert Redfield; Hunger and Work in a Savage Tribe e Land, Labour and Diet in Northern Rhodesia de Audrey Richards; Les Structures Élémentaires de la Parenté, de Claude Lévi-Strauss; Monções e Índios e Mamelucos na Expansão Paulista, de Sergio Buarque de Hollanda.
O Professor Antonio Candido agradece a Fernando Henrique Cardoso e a Renato Jardim Moreira pela revisão dos originais datilografados; à Florestan Fernandes por uma leitura atenta, crítica e construtiva; bem como às correções e sugestões de sua banca de doutorado, formada pelos professores Aroldo de Azevedo, Egon Schaden, Paul Arbousse-Bastide, Roger Bastide e Fernando de Azevedo. A data da publicação original é de 1964. A edição de consulta para este blog é a 11ª, deste ano, lançada pela editora Ouro sobre Azul. Foi objeto de lançamento na Livraria da Vila, em São Paulo, nesta última semana. É uma edição com fotografias de autoria do autor, e inclui ainda anotações de campo. Conta com 334 páginas, que incluem uma Parte Complementar (Intitulada “Vida Familiar do Caipira”), apêndices, bibliografia e um índice de nomes.
A obra é considerada um clássico no gênero, ainda que tal reconhecimento não seja unânime.
Para uma análise mais aprofundada do livro “Os parceiros do Rio Bonito”, indico o artigo de Luiz Antonio C. Santos, “A radicalidade de Os parceiros do Rio Bonito“, publicado na Revista Brasileira de Ciências Sociais (de acesso livre, aqui).
Nota
1. A conclusão a que Antonio Candido se refere apresenta seus argumentos finais em quase treze páginas.
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