Usar telefone celular faz mal à saúde?

Há duas semanas, foram veiculadas notícias nos meios de comunicação, que mencionavam o fato de estudos indicarem a possibilidade de desenvolvermos (nós, humanos) câncer, devido ao fato de estarmos vivendo cada vez mais próximos a antenas de retransmissão de sinais de telefones celulares. Por exemplo, no jornal Folha de S. Paulo on-line

Pesquisa liga proximidade de antena a maior risco de câncer – Débora Mismetti (editora assistente de “saúde” do jornal Folha de S. Paulo)

Quem vive a até 100 m de antena de celular tem 33% mais risco de morrer de câncer do que a população geral, diz pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. A engenheira Adilza Condessa Dode, 52, cruzou dados sobre mortes por tumores entre 1996 e 2006 em Belo Horizonte com áreas onde essas pessoas moravam e a localização das antenas de celular. Ela elegeu tumores já associados esse tipo de radiação: próstata, mama, pulmão, intestino, pele e tireoide. Em um raio de até mil metros das antenas, o risco foi maior. ” O celular você desliga. A antena, não.”

O médico Edson Amaro Jr., professor de radiologia da USP, pondera que o estudo não é fechado. Isto é, não foram controlados os hábitos de quem morava perto das antenas. “Esse tipo de estudo não é o ideal, mas também não há muitas alternativas.” O engenheiro Alvaro Augusto Salles, professor de telecomunicações na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, criou um modelo do cérebro baseado na tomografia de uma criança para simular efeitos da radiação.

Ele explica que as ondas têm efeitos térmicos (por isso a orelha esquenta quando se usa o celular) e não térmicos. Esses podem causar quebras nas fitas que formam a dupla-hélice do DNA, levando a mutações e a tumores. Os riscos são maiores nas crianças, cujos tecidos estão se reproduzindo mais rápido. Salles diz que, quando usamos o celular encostado na orelha, 75% da energia que seria usada na conexão é absorvida pela cabeça. Para o engenheiro, se os celulares usarem antenas que direcionem a energia para o lado oposto ao da cabeça, o risco cairá muito. “O futuro é essa tecnologia, mas está demorando. São 5 bilhões de usuários. Mesmo que o risco seja pequeno, muitos podem ser afetados.”

No mesmo dia foi publicada uma segunda reportagem, na verdade uma entrevista, no mesmo jornal, pela mesma jornalista.

“Vamos esperar os cadáveres para agir contra o celular?”, questiona pesquisadora – Débora Mismetti (editora assistente de “saúde” do jornal Folha de S. Paulo)

A epidemiologista Devra Davis lidera uma cruzada para fazer as pessoas deixarem o celular longe de suas cabeças. Convencida de que a radiação emitida pelo aparelho lesa a saúde, ela escreveu “Disconnect” (sem edição no Brasil), cuja base são pesquisas que começam a mostrar os efeitos dessa radiação no organismo. Nesta entrevista, ela também perguntou: “Vamos esperar as mortes começarem antes de mudar a relação com o celular?”.

Folha – Quais os riscos para a saúde de quem usa celular?

Devra Davis – Se você segurá-lo perto da cabeça ou do corpo, há muitos riscos de danos. Todos os celulares têm alertas sobre isso. As fabricantes sabem que não é seguro. Os limites [de radiação] definidos pelo FCC [que controla as comunicações nos EUA] são excedidos se você deixa o celular no bolso.

Folha – Quais os riscos, exatamente?

O risco de câncer é muito real, e as provas disso vão se avolumar se as pessoas não mudarem a maneira como usam os telefones. Trabalhei nas pesquisas sobre fumo passivo e amianto. Fiquei horrorizada ao perceber que só tomamos atitude depois de provas incontestáveis de que danificavam a saúde. Reconheço que não temos provas conclusivas nesse momento (o grifo é meu). Escrevi o livro na esperança de que meu status como cientista tenha peso (o grifo é meu) e as pessoas entendam que há ameaça grave à saúde e podemos fazer algo a respeito.

Folha – Mas há estudo em humanos que dê provas categóricas?

Quando você diz “provas”, você quer dizer cadáveres? Você acha que só devemos agir quando já tivermos prova? Terei que discordar. Hoje temos uma epidemia mundial de doenças ligadas ao fumo. O Brasil também tem uma epidemia de doenças relacionadas ao amianto. Só recentemente vocês agiram para controlar o amianto no Brasil, apesar de ele ainda ser usado. Ninguém vai dizer que nós esperamos o tempo certo para agir contra o tabaco ou o amianto. Estou colocando minha reputação científica em risco, dizendo: temos evidências fortes em pesquisas feitas em laboratório mostrando que essa radiação danifica células vivas.

Folha – Qual a maior evidência disso?

A radiação enfraquece o esperma (o grifo é meu). Sabemos por pesquisas com humanos. As amostras de esperma foram dividas ao meio. Uma metade foi mantida sozinha, morrendo naturalmente. A outra foi exposta a radiação de celulares e morreu três vezes mais rápido. Homens que usam celulares por quatro horas ao dia têm a metade da contagem de esperma em relação aos demais.

Folha – Crianças correm mais perigo?

O crânio das crianças é mais fino, seus cérebros estão se desenvolvendo. A radiação do celular penetra duas vezes mais. E a medula óssea de uma criança absorve dez vezes mais radiação das micro-ondas do celular. É uma bomba-relógio. A França tornou ilegal vender celular voltado às crianças. Nos EUA, temos comerciais encorajando celular para crianças. É terrível. Fico horrorizada com a tendência de as pessoas darem celulares para bebês e crianças brincarem. Sabemos que pode haver um vício no estímulo causado pela radiação de micro-ondas. Ela estimula receptores de opioides no cérebro (o grifo é meu).

Folha – Jovens usam muitos gadgets que emitem radiação.

Sim, e eles não estão a par dos alertas que vêm com esses aparelhos. Não é para manter um notebook ligado perto do corpo. As empresas colocam os avisos em letras miúdas para reduzir sua responsabilidade quando as pessoas ficarem doentes.

Folha  – É possível comparar a radiação de celular à fumaça?

Sim. O tabaco é um risco maior. Mas nunca tivemos 100% da população fumando. Agora, temos 100% das pessoas usando celular. Então, ainda que o risco relativo não seja tão grande, o impacto pode ser devastador.

Folha  – Nos maços de cigarro, há aquelas fotos horríveis. Esse é o caminho para o celular?

Isso é o que foi proposto no Estado do Maine (EUA). Está se formando um grande movimento para alertar as pessoas a respeito dos celulares. Isso é o que aconteceu com o fumo passivo. Vamos começar a ver limites para a maneira e os locais onde as pessoas usam celular. A maioria não sabe que, se você está tentado conversar num celular em um elevador, a radiação está rebatendo nas paredes e fica mais intensa em você e em quem estiver perto.

Folha – Além de usar fones, o que é possível fazer para prevenir?

Enviar mensagens de texto é mais seguro do que falar. Ficar com o celular nas mãos, longe do corpo, é bom, e mantê-lo desligado também.

Folha – Mas celular é um vício!

Sim. Temos que usá-lo de forma mais inteligente.

Na entrevista, fica evidente que a Sra. Devra Davis não procura esclarecer nada, e sim quer causar apreensão nas pessoas. Ao afirmar que não tem provas conclusivas, deveria ponderar, de maneira muito séria, suas declarações. Além disso, a jornalista da Folha de S. Paulo não deveria ter publicado esta entrevista após a Sra. Davis ter dado tal declaração. É, no mínimo, uma enorme irresponsabilidade do jornal dar crédito à pesquisadora que faz alarde sobre o assunto, e ao mesmo tempo afirma não ter evidências conclusivas para os fatos que afirma. Logo, seu status de cientista não serviu para nada, muito pelo contrário. Ao afirmar que a radiação enfraquece o esperma, o que a Sra. Davis quer dizer? Também afirmar que a radiação de micro-ondas causa vício, por estimular receptores de opióides no cérebro, me parece ser uma piada de muito mau gosto. Afinal, fornos de micro-ondas e radiação solar também são constituídas por radiação eletromagnética da faixa das micro-ondas. E ninguém nunca mencionou tal efeito destas fontes de radiação.

Ainda na mesma edição do jornal Folha de S. Paulo foram publicados outros textos, fazendo contrapontos.

Aparelho celular é só uma das fontes de ondas nocivas, lembra médico – Débora Mismetti (editora assistente de “saúde” do jornal Folha de S. Paulo)

O celular não deve ser isolado como causa de problemas, lembra Edson Amaro Jr., professor de radiologia da Faculdade de Medicina da USP. “O homem polui o ambiente com todas as formas de ondas eletromagnéticas.” Já é sabido há anos que o sol é causa de câncer de pele. “Você se expor ao sol em situações extremas equivale a fazer exames de raio-X.”

O que diferencia os tipos de radiação é a frequência. Quanto maior a frequência, maior a energia, e maiores os riscos de efeitos nocivos. Conclusão: “Se você não precisa, não use celular, e se você não precisa, não se exponha ao sol”, diz Amaro.

Dois dias depois, o mesmo jornal publicou a seguinte nota:

Fabricantes contestam cientista sobre riscos do celular à saúde – Débora Mismetti (editora assistente de “saúde” do jornal Folha de S. Paulo)

A ideia de que o celular ameaça a saúde, exposta pela pesquisadora americana Devra Davis em entrevista domingo na Folha, gera “pânico desnecessário”, criticou ontem Aderbal Bonturi Pereira, 67, diretor do MMF (Mobile Manufacturers Forum). A entidade internacional representa os fabricantes de aparelhos móveis e financia pesquisas sobre a segurança dos celulares para a saúde.

“Não existe comprovação científica de que a exposição à radiação de antenas e celulares possa causar dano à saúde”, afirma Pereira. Ele diz que os limites de exposição à radiação, seguidos no mundo todo, têm ampla margem de segurança e não há risco mesmo em contato prolongado com o aparelho. A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) diz que os aparelhos vendidos no país são certificados e devem apresentar os limites de absorção de radiação conforme os padrões. As antenas também são fiscalizadas.

E, quatro dias depois…

Folha promove debate sobre uso de celular e riscos à saúde

A Folha promove nesta quarta-feira, dia 17, às 20h, debate sobre uso do celular e riscos à saúde, no auditório de sua sede (al. Barão de Limeira, 425, 9º andar, Campos Elíseos).

Sob mediação de Débora Mismetti, editora-assistente de Saúde, participam do debate o engenheiro Alvaro Augusto Almeida de Salles, o psiquiatra Elko Perissinotti, o oncologista Paulo Hoff e o biomédico Renato Sabbatini. As inscrições podem ser feitas por email.

Depois do debate…

Especialistas defendem uso mais racional do celular; veja íntegra de debate

Nesta semana, a Folha promoveu um debate sobre uso do celular e seus riscos à saúde. No encontro, mediado pela editora-assistente de Saúde, Débora Mismetti, especialistas afirmaram que é possível usar os telefones de forma mais racional.

Fizeram parte do debate o engenheiro Alvaro Augusto Almeida de Salles, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o psiquiatra e psicanalista Elko Perissinotti, do Instituto de Psiquiatria da USP, o oncologista Paulo Hoff, diretor-clínico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e diretor geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, e o biomédico Renato Sabbatini, pós-doutor em neurofisiologia pelo Instituto Max Planck e livre-docente pela Unicamp.

Para Hoff, a própria tecnologia pode achar uma solução para possíveis problemas. Já Sabbatini se apoiou nos últimos resultados de uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde para afirmar que não há prova de risco.

Perissinotti disse que o uso do celular é quase sinônimo de dependência. Salles, por sua vez, afirmou que as evidências de possíveis danos já são suficientes para uma mudança radical na maneira como as pessoas usam o aparelho.

Veja a íntegra do debate a seguir (aqui) e leia a reportagem completa na edição deste domingo da Folha.

Bom, e aí? O uso de telefones celulares pode fazer mal, ou não?

Longe de emitir uma opinião definitiva sobre este assunto, primeiro uma aula de física.

Telefones celulares, o sol, os computadores, os fornos de micro-ondas, os aparelhos de som, os mp3 players, e todos os aparelhos que fazem uso de algum tipo de radiação, como se diz, emitem radiação em diferentes freqüências (ν), ou comprimentos de onda (λ). As letras gregas nu (ν) e lambda (λ), neste caso, são utilizadas para designar freqüência e comprimento de onda, respectivamente, de ondas eletromagnéticas. O que são ondas eletromagnéticas? Todos os tipos de radiação [exceção feita à emissão radioativa que decorre da emissão de partículas alfa (α) e beta (β); não vou explicar estes aqui, para não tornar o texto muito longo] são compostas de dois tipos de onda: uma magnética e outra elétrica. Em todos os tipos de radiação as duas ondas se propagam no espaço de maneira perpendicular uma com relação à outra. Veja nas animações e na figura a seguir.

As ondas eletromagnéticas são descritas de acordo com 3 de suas características: seu comprimento de onda (λ), sua amplitude e a direção de sua propagação. Em vez de se utilizar comprimentos de onda, as ondas eletromagnéticas podem alternativamente ser descritas em termos de sua freqüência (ν). As unidades de comprimento de onda, como o próprio nome diz, são unidades de comprimento (ou seja, metro, centímetro, milímetro, etc.). Usualmente, as unidades que são utilizadas para se especificar um comprimento de onda é nanômetro (nm, 0,000000001 metro, ou 10-9 m) ou micrometro (mm, 0,0000001 m, ou 10-6 m). Já a unidade para se especificar freqüência é Hertz (Hz).

Mas, o que é uma “unidade de comprimento de onda”? Uma unidade de comprimento de onda (wavelength em inglês) é a distância entre dois máximos de amplitude de uma onda eletromagnética, como ilustrado na figura a seguir.

A relação entre comprimento de onda (λ) e frequência (ν) é a seguinte:

ν = c/λ

onde c = velocidade da luz (aproximadamente 3,0 x 108 metros/segundo).

As ondas de radiação eletromagnética, que tem uma componente elétrica e outra magnética, apresentam determinadas quantidades de energia, que resultam de sua freqüência (ou comprimento de onda. A equação que determina a energia de uma determinada radiação eletromagnética é:

E = h.ν ou E = h.c/λ

Onde E = energia da radiação eletromagnética e h = constante de Planck (6,626 x 10–34 Joules.segundo; Joule é uma unidade de quantidade de energia).

Desta maneira, as ondas de radiação eletromagnética terão uma determinada energia, em função de sua freqüência ou comprimento de onda.

Os telefones celulares emitem e recebem radiação eletromagnética que apresentam comprimento de ondas na faixa de micro-ondas. Exatamente como os fornos de micro-ondas emitem radiação eletromagnética na faixa de micro-ondas para poder esquentar a comida. Como os fornos de micro-ondas, a radiação emitida pelos telefones celulares podem provocar aquecimento, porém um aquecimento muito brando, pois é radiação de baixa potência (2 watts ou menos, ao contrário dos fornos de micro-ondas, radiação de alta potência para poder esquentar a comida). Logo, o efeito térmico provocado pela exposição aos telefones celulares é mínimo. Muito menor do que o efeito térmico da exposição térmica ao sol, por exemplo (que é cerca de 10 vezes mais intensa). Porém, a radiação na faixa de micro-ondas pode provocar um segundo efeito, que é um efeito ionizante. O que é isso?

Todas as moléculas, orgânicas e inorgânicas, são formadas por átomos que contém elétrons em regiões fora do núcleo. Estes elétrons formam ligações químicas entre os átomos. Quando moléculas orgânicas são expostas à radiação eletromagnética com comprimento da onda na faixa das micro-ondas, elas podem sofrer ionização, ou seja, perder um elétron. Ao perder um elétron estas moléculas se tornam mais reativas, podendo reagir com outras moléculas, formando substâncias incomuns. Assim, por exemplo, o excesso de exposição de tecidos vivos à radiação ultra-violeta (que também apresenta comprimento de ondas na faixa das micro-ondas) pode levar ao surgimento de modificações na molécula de DNA, e, consequentemente, alterações genéticas, que podem levar ao surgimento de cânceres. No caso da radiação UV, o tipo de câncer mais comumente associado é o câncer de pele.

A radiação eletromagnética dos celulares pode causar efeito ionizante?

Não.

A radiação eletromagnética ionizante é de altíssima freqüência, acima de 1016 Hz, ou de comprimentos de onda muito pequenos, menores de 1.10-8 metros, ou 0,01 mm. Esta é a faixa da radiação eletromagnética dos raios X e radiação gama (γ). Tanto a radiação X como a radiação gama causam câncer.

Bom, e aí? A radiação eletromagnética dos celulares pode causar câncer?

Não se sabe ao certo. As informações a seguir foram obtidas da página da Wikipédia Mobile phone radiation and health.

Um estudo publicado em 2006, que foi realizado na Dinamarca com 420.000 pessoas durante 20 anos não mostrou qualquer evidência que o uso de telefones celulares tenha aumentado a incidência de câncer. Um estudo multinacional publicado em 2010 no International Journal of Epidemiology indicou que não existe correlação entre o uso de telefones celulares e dois tipos de câncer: glioma e meningioma. Porém este último estudo sugere que o uso prolongado de telefones celulares deve ser avaliado com mais cuidado. Os mesmos resultados foram apresentados por órgãos reguladores da Austrália, mas que, todavia, recomendam às pessoas preocupadas com potenciais riscos do uso de telefones celulares de:

1. Reduzir o tempo das chamadas telefônicas.

2. Realizar chamadas quando o sinal de transmissão for bom.

3. Utilizar assessórios para transmitir a chamada através de fios (fones de ouvido) ou por blue-tooth.

4. Preferir enviar mensagens de texto do que realizar chamadas.

Também recomendam que crianças devem ser desestimuladas a realizar chamadas telefônicas por períodos prolongados.

Estudos realizados na Dinamarca, Suécia, Inglaterra e Alemanha não mostraram qualquer evidência de aumento de ocorrência de casos de câncer em função do uso de telefones celulares. Porém, todos estudos recomendam investigações adicionais sobre o uso prolongado de telefones celulares em chamadas telefônicas. Um estudo epidemiológico realizado pelo Karolinska Institute da Suécia mostrou que o uso regular de telefones celulares durante 10 anos pode levar ao surgimento de um tipo de tumor cerebral benigno. Em 2007, o Dr. Lennart Hardell, da Örebro University da Suécia publicou resultados de dois estudos epidemiológicos que mostraram que:

– utilizadores de telefones celulares apresentam maior risco de terem gliomas malignos;

– existe uma ligação entre o uso de telefones celulares e uma maior taxa de neuromas acústicos;

– tumores podem surgir com maior freqüência no lado da cabeça em que se usa o telefone celular;

– O uso de telefones celulares durante 1 hora/dia aumenta significativamente o risco de tumores depois de 10 anos ou mais.

Estudos menos sérios também foram publicados. Outros indicam que o uso de celulares por pessoas com menos de 20 anos pode aumentar a propensão ao surgimento de câncer de um fator de 5 vezes. Outro estudo, publicado pelo Institute of Cancer Epidemiology de Copenhagen (Dinamarca) mostrou não ter qualquer evidência do aumento da incidência de casos de câncer de cérebro no período compreendido entre 1998 e 2003, e que, o período de indução para o surgimento de câncer pode ser maior do que 5 a 10 anos de uso dos telefones celulares. Afirma ainda que o risco é muito pequeno para ser observado.

Outros efeitos na saúde também foram avaliados, como na capacidade cognitiva, hipersensibilidade magnética, efeitos genotóxicos e no sono. Nenhum dos estudos apontou qualquer efeito negativo definitivo, ou significativo, decorrente do uso telefones celulares. Outros estudos também foram realizados com pessoas que trabalham expostas às antenas de retransmissão de sinais de telefones celulares, ou que trabalham em empresas de telecomunicação. Nenhum destes estudos apresentou resultados conclusivos que indicam que a exposição à radiação eletromagnética de transmissão de sinais de telefones celulares causa câncer ou outras doenças.

Como medida de precaução, autoridades da Áustria, França, Alemanha e Suécia recomendam:

1. Utilizar acessórios que permitam que o telefone celular não seja manipulado ou segurado pelas mãos durante a ligação;

2. Manter o telefone longe do corpo;

3. Não utilizar o telefone no carro sem uma antena externa.

Embora eu não seja qualquer autoridade neste assunto, muito pelo contrário, eu recomendaria a utilização de telefones celulares ao estritamente necessário. Talvez tal medida ajude uma eventual prevenção de problemas de saúde. Mas certamente contribuirá para um menor gasto no uso de telefones celulares também.

O maior problema do uso de celulares é quando se está dirigindo, pois causa forte distração. Notícia recente publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo (veja aqui) diz que ocorreram 16.000 mortes de pessoas nos EUA em conseqüência do uso de celulares durante a condução de veículos. Certamente o uso de celulares nesta condição é muito mais nocivo do que usar o telefone celular em chamadas quando não se está dirigindo. Outro risco que me parece ser bastante plausível é o surgimento de zumbido no ouvido devido ao uso excessivo de telefones celulares. Esta notícia foi publicada pela Folha de S. Paulo (veja aqui), porém os estudos não foram conclusivos. Problemas auditivos são muito recorrentes em pessoas que fazem uso contínuo, e em alto volume, de aparelhos de mp3 com fone de ouvido.

Porém, uma notícia que me parece ser totalmente desprovida de sentido foi publicada na Folha de S. Paulo:

Cientistas responsabilizam celular por desaparecimento de abelhas, diz site

O desaparecimento de abelhas que alarmou a Europa e a América do Norte está sendo creditado, por alguns cientistas, ao crescimento do uso dos celulares, segundo o site do jornal britânico “Daily Telegraph”. De acordo com o site, a Grã Bretanha teve uma queda de 15% na sua população de abelhas nos últimos dois anos.

Pesquisadores da Universidade Punjab dizem que a radiação dos telefones celulares é um fator chave no desaparecimento e alegam que isso está envolvendo nos sentidos de navegação das abelhas.

Segundo o “Daily Telegraph”, os cientistas fizeram um experimento durante três meses e compararam a situação das abelhas que estavam coexistindo com os celulares com as que não estavam. As que estavam no ambiente com radiação de celular tiveram uma queda dramática no tamanho de sua colmeia e redução do número de ovos postos pela abelha rainha. As abelhas também pararam de produzir mel.

Eu sinceramente gostaria de ver este estudo reproduzido por outros pesquisadores em outras instituições de pesquisa. Finalmente, uma sugestão à editoria da seção de “saúde” do jornal Folha de S. Paulo. Que fosse bem mais criteriosa na publicação de notícias desta natureza no jornal. Uma reportagem completa e esclarecedora, que fosse pautada por muita pesquisa, seria muito mais informativa. As notícias veiculadas na semana do dia 7 de novembro causaram enorme celeuma, e não esclareceram absolutamente nada. Seria muito, mas muito bom mesmo, se a editoria de “saúde” da Folha tivesse elaborado tais reportagens com a colaboração do Reinaldo José Lopes, da editoria de ciência.



Categorias:ciência, educação, informação

Tags:, , ,

19 respostas

  1. Roberto, isso não é um post! Como esse e outros por aqui, é um dossiê sobre a temática abordada!

    Você reuniu matérias esparsas publicadas na Folha (notícias, artigos, entrevista, debate) que isoladamente não esclareciam muita coisa (nada, na verdade), mas que, juntas e em seqüência, coligidas com outras fontes (texto de outro jornal, no caso O Estado de S. Paulo, e mesmo a Wikipédia citando um artigo científico sobre o assunto) e até brindando-nos com uma explanação sobre a física de ondas eletromagnéticas (!), formaram uma espécie de pool informativo que, aliado à plasticidade proporcionada pelos hiperlinks, quebra a estrutura linear da informação e torna-a associativa e passível de cotejo crítico, e assim simplesmente nos permite uma visão mais ampliada da questão, contextualizando-a e ajudando a nós, leigos, a ter uma melhor compreensão do problema.

    Não é isso mesmo que um blog de divulgação científica deve ter por meta? 🙂

    Obrigada!

  2. Post muito interessante.

    Parabéns pelo site.

  3. Por via das dúvidas eu prefiro usar aqueles aparelhos de “abrir/fechar” para não ter a bateria do celular encostada direto na minha orelha. Mas acho que é só isso mesmo, também não uso tanto celular em todo caso (trabalho de casa).

    Agora, não sei se foram os celulares, mas provavelmente o sumiço de abelhas na Europa está ligado ao efeito da urbanização/industrialização mesmo…

    Abs
    raph

  4. Eu li um artigo que tentava relacionar celulares com mudança de comportamento de abelhas. O artigo era BEM ruim, com poucos dados e conclusões estranhas. Era um típico caso de “alegações extraordinárias precisam de evidências extraordinárias”, não foi desta vez.

  5. Olá Prof. Roberto, ótimo post.

    Eu fico indignado com pessoas que se dizem cientistas mas não têm critério discernir sobre como relacionar os dados de suas pesquisas. “Se for assim vamos parar de comer trigo, afinal cerca 80% das pessoas que morreram de acidente de carro comeram pão no café-da-manhã antes de sair em viagem.”

    Acho que aparelho celular causa muito mais problemas a saúde quando se usa ele ao volante do carro do que simplesmente falando por alguns minutos. E câncer é uma doença provocada por várias causas. Não dá para correlacionar esses dados assim e concluir que a culpa é da antena celular. Recomendo que Adilza Condessa Dode faça um curso básico de bioestatística para entender isso.

    Abraços,
    Mauro Cafundó

    • Caro Mauro,

      Realmente não seria mau se os jornalistas que tratam de assuntos como estes procurassem se informar um pouco mais antes de escrever uma reportagem deste tipo. Afinal, um texto destes pode ser lido por milhões de pessoas. A responsabilidade de veicular informações imprecisas é muito grande. Mas tem-se a impressão que a imprensa via de regra não está muito preocupada com isso, e sim em vender. Quanto mais, melhor.

      abraço,
      Roberto

  6. Olá. Tudo bem, professor?

    Já li tanta coisa sobre este tema aqui na internet, que posso dizer que, comparando com outros artigos, sua abordagem foi muito responsável, o que, no meu modo de ver, deveria ser mesmo uma prática obrigatória adotada quando se trata de um assunto tão sério. Devo parabenizá-lo pela bela complementação, no final, sobre a parte das ondas eletromagnéticas próximas às microondas, que deu um embasamento teórico diferencial, muito bem construído. Não sei se é porque sou professor de Física, mas gostei muito.

    Nesta minha incessante pesquisa, de link em link(*), até fui parar na transcrição de um debate do programa Larry King Live, da CNN, realizado em 98, com a presença de neurocirurgiões, e da esposa de um famoso advogado americano, que tinha o hábito de usar muito o celular, e que havia falecido em decorrência de um tumor cerebral:
    http://transcripts.cnn.com/TRANSCRIPTS/0805/27/lkl.01.html

    No entanto, a cada artigo ou reportagem que eu ia lendo, ficava mais confuso ainda, pois a grande quantidade de pessoas que defendem uma atitude, até diria, excessivamente alarmista sobre o problema, é proporcional a de outros que concluem que não há risco algum.

    Cheguei então à minha conclusão pessoal, meio que intuitiva, seguindo o que diz a música de Jorge Benjor, …”caldo de galinha não faz mal a ninguém”. Então decidi evitar o uso excessivo destes aparelhos perto do corpo, e também dei o aviso para minha filha de 10 anos.

    Acho que não custa esperar por pesquisas mais conclusivas.
    Parabéns pelo texto.

    (*) Por falar em link (olha eu de novo), não consegui acessar o link Mobile phone radiation and health, do seu texto.

    Abraços

    • Caro Jairo,

      Muito obrigado por seu comentário e, devo dizer, concordo completamente com você no que diz respeito ao tratamento de informações científicas por parte da imprensa. É necessário que os órgãos de comunicação tenham uma acessoria de boa qualidade para tratar de assuntos como este, não é mesmo?

      abraço,
      Roberto

  7. Roberto,
    Parabéns pelo texto e pelo blog!

    Você entra na física da interação das microondas com a matéria, o que é fundamental para essa discussão.

    Permita-me ir um pouco além da afirmação “Porém, a radiação na faixa de micro-ondas pode provocar um segundo efeito, que é um efeito ionizante.”

    Como qualquer forma de radiação, as microondas podem interagir com a matéria de diferentes maneiras. Quando a escala envolvida é comparável com o comprimento de onda costumamos usar a descrição quântica como a que você fez. Nesse caso as ondas se comportam como partículas que têm momento e quando a energia associada é grande o suficiente elas podem romper ligações químicas. No caso das micro-ondas dos celulares a energia associada é de alguns milésimos de eletron-Volt (eV; essa é a unidade de energia que usamos normalmente em mecânica quântica e corresponde à energia que um elétron ganha ao atravessar o potencial de 1 Volt). As ligações químicas do DNA têm energia de 3eV para cima, o que significa que as partículas associadas à radiação dos celulares simplesmente não tem energia suficiente para causar danos ao DNA. Já as partículas associadas à radiação ultravioleta do sol têm energia suficiente para causar danos ao DNA da pele e por isso vou me cobrir de protetor solar (alguém um dia devia blogar sobre os chamados FPS, fator de proteção solar dos protetores) antes de ir para a praia daqui a pouco.

    Há outro efeito associado à radiação que é o limite clássico, quando a escala envolvida é muito maior que o comprimento de onda. É por esse efeito que o forno de micro-ondas aquece a água. As micro-ondas polarizam as moléculas de água e tentam fazê-las oscilar na sua frequência. Como na água a densidade de moléculas é alta, em lugar de oscilar na frequência das micro-ondas as moléculas colidem e essas colisões dissipam calor, a ponto de aquecer a água. Esse processo é usado no forno de micro-ondas que temos em casa e certamente pode aumentar a temperatura do nosso cérebro. No entanto, dada a potência empregada nos celulares e o eficiente sistema de irrigação que o cérebro tem, esse aumento de temperatura é menor do que o experimentado por causas “naturais” como minha corridinha de 6 km ontem no fim da tarde. Note que as micro-ondas podem sim ter efeitos ionizantes: se a densidade da matéria for baixa como num gás rarefeito, as moléculas polarizadas podem ser bastante aceleradas pelo campo elétrico oscilante antes de colidir com outras. Se o livre caminho médio das moléculas for grande o suficiente a colisão pode levar à ionização. Assim se formam os plasmas de micro-ondas, bastante usados na indústria eletrônica. Por sorte nenhum de nós tem vácuo na cavidade craniana e portanto não formaremos plasmas quando falarmos ao celular.

    Um comentário final: as editorias “Saúde” e especialmente “Equilíbrio” da Folha infelizmente não têm o rigor científico da “Ciência”. É comum vermos ali absurdos tomados como verdade. Que se pode fazer? Pelo menos isso é assunto para blogs científicos…

    Leandro R. Tessler

    • Caro Leandro,

      Muito obrigado pela visita e por teus comentários, tão importantes para complementar o assunto da postagem. Eu tinha certeza que havia mais a ser dito sobre o assunto da forma como eu o abordei, e que um físico poderia fornecer informações adicionais 😉

      Muito bom. Fico contente de que diferentes blogs discutam este assunto, tão importante, e que se mostre o quanto a imprensa em geral deve aprimorar a divulgação de notícias de caráter científico, como esta.

      Aproveito para estimular os leitores a visitarem também o blog do Professor Leandro Tessler, do Instituto de Física da UNICAMP: cultura científica.

      abraço,
      Roberto

  8. Se faz mal ou não esses aparelhos envolvem milhares de empregos e milhões e milhões de Reais em todo o mundo e acho que os fabricantes acabam nos escondendo a verdade.

    • Caro Cristiano,

      Por mais que os fabricantes queiram esconder a verdade, sempre irão existir estudos independentes, pois que sustenta estas empresas são cidadãos que compram aparelhos e pagam seus impostos. Tenho sérias dúvidas que tais empresas fabricariam aparelhos que causassem câncer.

      cordialmente,
      Roberto

  9. O celular pode fazer mal apenas no ato de atender uma ligação, ou o simples contato com o aparelho, como por exemplo, guardando-o no bolso apenas ligado, já oferece algum risco?

  10. Então quer dizer que usar celular longe do ouvido pode! Quanto mais longe do corpo melhor sendo utilizado mais os fones de ouvido e mensagens de texto seria melhor para a saúde e prevenção do câncer?

    Minha mãe sempre fala larga este celular q vai dar câncer. Fico mais com ele na mão teclando no msn!

  11. Oii, estou redigindo um trabalho de escola sobre as ondas eletromagnéticas, e gostaria de saber na SUA opinião, você concorda que celular faz mal a saúde, e o microondas ?
    Gostei do site :]

    Obrigado,
    Danielly

Deixar mensagem para Luís Brudna Cancelar resposta