Porque Stanford é Stanford?

Editorial recentemente publicado por uma das mais prestigiosas revistas científicas de química, a alemã Angewandte Chemie International Edition, traz à discussão um assunto do maior interesse para a comunidade acadêmica: como conseguir efetivação, ou ser admitido no quadro docente permanente, de um determinado departamento, faculdade ou instituto. Richard N. Zare, o autor do artigo, relata a experiência que teve como chefe do Departamento de Química da Universidade de Stanford, na Califórnia (EUA). Ao contrário do que se poderia imaginar, o que se menos considera é análise cientométrica ao se avaliar os candidatos à efetivação (tenure track) do Depto. de Química de Stanford.

Zare explica que três fatores são levados em conta:

1. O fato dos candidatos serem excelentes cidadãos departamentais. Ou seja, contribuírem para construir um ambiente positivo para o Departamento.

2. Serem bons professores. Isso é extremamente importante, tanto para os alunos como para a reputação da instituição (o departamento e a universidade), bem como para os próprios professores. E, mais importante, é perfeitamente factível. Só depende do candidato à efetivação.

3. Serem pesquisadores exemplares. Segundo o autor, este é o critério mais difícil de se avaliar. Esta avaliação é feita tanto internamente quanto externamente. E é solicitada para 10 a 15 reputados professores/pesquisadores de outras instituições. Como é possível se imaginar, passar por um crivo deste não deve ser fácil. Principalmente porque a pergunta que é feita aos avaliadores externos é: como o candidato à efetivação tem mudado a visão da comunidade sobre a química, de maneira positiva?

Não se leva em conta o quanto o candidato conseguiu de financiamento. Tampouco o número de artigos publicados, ou o fator de impacto das revistas nas quais o candidato publicou, muito menos a medida de índice h (veja aqui do que se trata). Simplesmente se espera que o candidato tenha mudado a forma como se encara a química.

Zare minimiza a importância do índice h. E também do número de citações, citando como exemplo um trabalho de Steven Weinberg que deu a este o Prêmio Nobel de Química. Publicado na revista Physical Review Letters (1967, 19, 1264-1266), o trabalho de Weinberg não teve nenhuma citação nos dois primeiros anos depois que o trabalho foi publicado, duas citações apenas nos dois anos subsequentes, e quatro citações no ano seguinte, sendo que uma foi de auto-citação. Atualmente este artigo de Weinberg tem 5224 citações.

A avaliação de Stanford é feita essencialmente com base na qualidade. Na qualidade da atuação do candidato para contribuir para a estrutura e funcionamento do departamento. Na qualidade do candidato como professor. E na qualidade da pesquisa realizada pelo candidato.

Quality is everything.

Será por isso que Stanford é Stanford?

ResearchBlogging.orgZare, R. (2012). Assessing Academic Researchers Angewandte Chemie International Edition DOI: 10.1002/anie.201201011



Categorias:ciência, gestão acadêmica, química

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8 respostas

  1. Inspirador!
    Essa história sobre qualidade lembra as melhores páginas de “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”.
    Obrigado por divulgar.

    • Oi Vinícius,

      Tudo bom? Não conheço o livro. Dê mais detalhes!

      abraço,
      Roberto

      • Bom, eu li há pelo menos 20 anos, mas grande parte do livro é uma discussão do conceito indefinível (segundo o próprio autor) de ‘qualidade’.

        Difícil dar detalhes 😉
        Posso dizer que não é propriamente um tratado sobre manutenção de motos, nem sobre Zen, mas um romance metafísico que se desenrola ao longo de uma viagem de moto pelos EUA de um sujeito com seu filho.

        A parte “Zen” tem a ver com não resumir tudo a lógica e razão. Foi isso que me sugeriu a conexão do livro com o processo de escolha em Stanford. Eles parecem bem focados na ‘qualidade’ sem reduzir o conceito a indicadores, confortáveis com o uso da intuição (ou, pelo menos, de critérios não claramente explicitáveis).

        Considero o livro uma leitura puramente recreativa, mas, se fosse uma tese de filosofia, a pergunta de pesquisa seria “O que é qualidade?”. Vejo agora, na Wikipedia, que vendeu mais de 5 milhões de cópias e foi rejeitado por 121 editores (campeão, foi pro Guiness).
        Título em EN: Zen and the Art of Motorcycle Maintenance
        Título em PT: Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas
        Autor: Robert Pirsig

      • Grande Vinícius,

        Valeu! Os leitores (e eu também) agradecem.

        Bom feriado,
        Roberto

  2. A visão dessa universidade é interessante. Parece que esquecemos que é a qualidade que produz bos resultados e realmente modifica o rumo da história das coisas. O problema é fazer com que as pessoas entendam isso, já que são tão ligadas aos números.

  3. Uma avaliação sensata, na minha opinião, na qual considera-se não apenas a produção, mas também a capacidade do indivíduo de propagar o conhecimento. Como discente, passei “n” vezes por classes de sumidades que pouco se diferenciaram de um ditador, e nas quais o aprendizado se deu por longas horas na companhia de um bom livro (enquanto as horas de classe eram bem aproveitadas para aprender a manejar a arte de manter o silêncio – e não fazer perguntas para não ser escrachado). Como docente, procuro pensar naquilo que vivi (de bom e de “ruim”) e tentar melhorar. Procuro mostrar àqueles que dividem boa parte do tempo comigo que ciência é melhor quando bem entendida, exercitada com bom-senso, aplicada ao entendimento do que nos cerca e distribuída. E principalmente: o discente de hoje é o responsável pelo meu bem-estar e no de todo mundo no amanhã; por consequência, deve ser praparado como um filho – com um carinhoso rigor (e não exclusivamente um ou outro).

    • Oi Regis,

      Gostei muito de seus comentários finais. Belas considerações. Obrigado pela visita ao blog, que anda meio parado, mas… Que sabe voltará à ativa logo,logo.

      abraço,
      Roberto

    • Correndo o risco de ser repetitivo (o autor do blog já elogiou o final do comentário), vou fazer questão de destacar o trecho:

      “o discente de hoje é o responsável pelo meu bem-estar e de todo mundo no amanhã; por consequência, deve ser praparado como um filho – com um carinhoso rigor (e não exclusivamente um ou outro).”

      Eu aprecio a expressão “tough love” que muitos norte-americanos usam, mas este “carinhoso rigor (e não exclusivamente um ou outro)” é bem mais que uma tradução. Vou guardar. Para um professor e pai, é um lembrete sobre o que é mais necessário e o que mais falta nos dias de hoje.

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