Notícias do Jornal Folha de São Paulo
Financiamento contínuo e menos entraves são demandas da ciência na América Latina
Apesar do avanço na produção científica nacional nos últimos anos, pesquisas desenvolvidas no Brasil e em outros países da América Latina ainda enfrentam dificuldades em alcançar maior impacto e reconhecimento internacional.
Financiamento contínuo, regulações menos burocráticas e incentivos à carreira de pesquisador são caminhos necessários para reduzir assimetrias entre instituições da região e organizações do norte global.
Os temas foram debatidos por participantes das duas últimas mesas no evento Vozes da Ciência Latino-Americana, organizado pelo Einstein Hospital Israelita nesta quarta-feira (6), no Centro de Ensino e Pesquisa do hospital, em São Paulo.

No painel que discutiu governança regulatória, ambientes de pesquisa e modelos de financiamento, Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, defendeu regulações que assegurem rigor científico sem criar entraves burocráticos que atrasam o desenvolvimento de novas tecnologias.
Ela destacou o potencial da nova legislação de pesquisa com seres humanos (lei 14.874/2024) para simplificar processos e estimular o cenário de estudos clínicos no Brasil. Esse tipo de pesquisa é necessário para comprovar a segurança de medicamentos, vacinas e terapias.
Segundo a secretária, o Brasil respondia por 1,8% das pesquisas clínicas realizadas no mundo em 2024. Um ano depois da aprovação do marco regulatório, a participação subiu para 2,2%.
Outro ponto levantado foi a falta de suporte administrativo, jurídico e operacional aos pesquisadores, o que leva muitos profissionais a acumular a atividade científica com a gestão dos próprios projetos.
“Acredito que elas [as universidades] possam criar essas estruturas organizacionais para tranquilizar um pouco e amenizar a carga dos pesquisadores”, afirmou Aline Pacífico, integrante do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Gestores em Pesquisa e gerente de planejamento e desenvolvimento em pesquisa do Einstein.
Os participantes também discutiram estratégias para integrar a ciência às políticas públicas e criar um ecossistema favorável ao desenvolvimento da carreira de pesquisadores.
José Roque, diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais e professor do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo), afirmou que a instabilidade no financiamento desestimula a permanência de jovens cientistas no país.
“Você vive escalas de quatro anos, muitas vezes não consegue ter uma visão que seja mais promissora que a duração de um governo.”
Na tentativa de reverter a “fuga de cérebros”, o governo federal lançou o Conhecimento Brasil, programa de repatriação de cientistas que tinham ido estudar no exterior, lembrou Monica Felts, diretora científica do CNPq. Ao todo, a iniciativa apoiou o retorno de cerca de 600 pessoas e financiou a continuidade dessas pesquisas no país.
Felts afirmou ainda que a política de incentivos continuará por meio do programa Profix. Cerca de mil pesquisadores vão receber bolsas de R$ 13 mil mensais durante quatro anos.
O último painel do evento discutiu formas de reduzir as desigualdades entre instituições de pesquisa latino-americanas e centros globais. O professor e pesquisador português de imunologia António Coutinho defendeu a criação de instituições de excelência reconhecidas internacionalmente na região.
Nayat Sanchez-Pi, diretora do Inria Chile, centro de pesquisas do instituto francês voltado à inovação digital e a inteligência artificial na América Latina, afirmou que as disparidades entre as organizações dos hemisférios norte e sul não se limitam à infraestrutura e incluem assimetrias de agenda, carreira e prioridades de pesquisa.
Já o coordenador da Iniciativa Einstein em Terapia Gênica, Ricardo Weinlich, chamou a atenção para o atraso na chegada de insumos que prejudicam o andamento de projetos. “Toda vez que você tem um ritmo menor do que o possível, a ciência fica periférica, a ciência fica atrasada”.
O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, destacou contribuições do Brasil na história da ciência e da pesquisa em saúde, como o conceito de indetectável e intransmissível durante a epidemia de HIV/Aids e a transmissão congênita do zika vírus.
Para Kallás, exemplos como esses provam que a qualidade da pesquisa no país tem potencial de impacto global. “O Brasil precisa adotar uma política de Estado para investimento contínuo e manutenção da infraestrutura. Se a gente conseguir fazer isso, nós tiramos essa diferença.”
Mesas anteriores do evento abordaram as conexões globais entre instituições latino-americanas e organizações de outros países, além da prática e desafios na carreira de pesquisadores da região.
Ciência latino-americana busca estrutura e quer protagonismo, mostra evento no Einstein
Evento promovido pelo Einstein Hospital Israelita nesta quarta-feira (6) reuniu pesquisadores de América Latina, Europa e EUA para discutir possibilidades de cooperação regional em pesquisas médicas na América Latina.
A primeira mesa de debates se concentrou em como a ciência latino-americana pode contribuir para os desafios globais.
Para o imunologista francês Patrice Debré, da Sorbonne, a região tem condições singulares (biodiversidade, instituições como a Fiocruz, a Opas e o SUS), e decolonizar a ciência é imperativo para que o continente se posicione de igual para igual no diálogo científico internacional.
Já Cristian Morales, da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), defendeu transformação estrutural na forma como as prioridades científicas são estabelecidas e financiadas na região, com vistas a uma colaboração internacional mais equilibrada.
Em sintonia com Morales, o sociólogo da ciência Pablo Kreimer, do Conicet argentino, descreveu o que chama de “integração subordinada”: a participação de grupos latino-americanos em consórcios internacionais se daria majoritariamente pela produção e processamento de dados, com baixa capacidade de inovação conceitual e teórica.
A região se integra às redes globais, disse, mas sem condições de desenvolver suas próprias agendas. A despeito das necessidades comuns que partilham, os países latino-americanos apenas executam as agendas dos grandes atores internacionais.
Leitura distinta veio do diretor de Cardiologia do Einstein, Pedro Alves Lemos Neto. Para ele, a integração dessas redes globais à iniciativa privada pode criar um círculo virtuoso ainda inexplorado na região.
“As agendas são mundiais, mas, para nós, são importadas”, disse, defendendo inserção ativa na agenda científica global em associação com a indústria regional.
A segunda mesa trouxe o problema para o plano das trajetórias individuais de pesquisadores em saúde, o que ressaltou gargalos institucionais de diferentes países latino-americanos.
O impacto da fragilidade institucional sobre as trajetórias individuais ficou patente na fala de Juliana Cassataro, pesquisadora do Conicet e da Universidade Nacional de San Martín que liderou o desenvolvimento da vacina argentina contra a Covid-19.
“Se não há política científica e instituições sólidas, não há vontade que possibilite o desenvolvimento da carreira como pesquisador”, disse.
Vinícius Maracajá-Coutinho, pesquisador da Fiocruz Bahia e professor da Universidade do Chile, resumiu a condição estrutural da região: “Precisamos deixar de ser provedores de amostra para nos tornarmos produtores de dados”. As colaborações entre países da própria América Latina, acrescentou, são ínfimas. A prioridade, no cotidiano das carreiras, continua sendo Europa e Estados Unidos.
Esse cenário aponta para a necessidade de mudar a cultura científica médica brasileira, na avaliação do catedrático da Escola Médica de Harvard, Peter Libby.
Apesar de reconhecer a qualidade dos recursos humanos em ciência no país, ele critica a distribuição desigual da infraestrutura: São Paulo concentra mais de 40% da produção científica brasileira, segundo dados apresentados no seminário.
O diretor do Centro de Pesquisa em Imuno-oncologia (CRIO) do Einstein, Kenneth Gollob, encerrou a manhã defendendo maior integração entre países da América Latina para enfrentar desafios comuns.
Permanece em aberto o desafio de aproximar essa agenda continental da “necessidade do paciente, da rede pública e da sociedade” que o vice-presidente de Pesquisa e Inovação do Einstein, Fernando Bacal, evocou na abertura do evento, intitulado Vozes da Ciência Latino-Americana.
Realizado no auditório do Centro de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, em São Paulo, o seminário foi concebido com o propósito de consolidar uma rede latino-americana de cooperação em medicina, com o Einstein como elo central.
Bacal afirmou que a ciência da América Latina precisa ser mais ouvida e integrada. Não é periférica, disse, usando como exemplo estudo realizado pelo Einstein sobre pós-infarto, que teve impacto global ao mostrar qual o tempo adequado do uso de aspirina após angioplastia com stent.
O estudo foi vinculado ao Proadi-SUS, aliança entre hospitais de referência no Brasil e o Ministério da Saúde.
A palestra inicial coube a Marcella Ohira, pesquisadora do Inter-American Institute for Global Change Research (IAI), órgão intergovernamental criado em 1992 para a cooperação científica nas Américas.
Sua aposta central é na diplomacia científica como instrumento de política pública: formar assessores capazes de traduzir conhecimento em decisão e incidir em parlamentos e governos da região.
Outras mesas discutiram governança regulatória, ambientes de pesquisa e modelos de financiamento e formas de reduzir as desigualdades entre instituições de pesquisa latino-americanas e centros globais.
Categorias:pesquisa científica, política científica, Sem categoria
Deixe um comentário